Esquenta para o pouso na Lua, Apollo 10 teve emoção e ineditismos

Missão com os módulos Snoopy e Charlie Brown foi ensaio geral para sua sucessora

Terra aparece no horizonte lunar em foto feita pela missão Apollo 10 em maio de 1969

Terra aparece no horizonte lunar em foto feita pela missão Apollo 10 em maio de 1969 REUTERS

Salvador Nogueira
São Paulo

O pessoal já está esquentando os motores para a comemoração dos 50 anos da missão Apollo 11, e os primeiros passos humanos na Lua. Mas poucos se lembram do aniversário da missão que quase pousou na Lua.

Realizada entre 18 e 26 de maio de 1969, a Apollo 10 foi o último passo antes da tão sonhada alunissagem tripulada, estabelecida como meta pelo presidente americano John F. Kennedy oito anos antes, em resposta aos avanços soviéticos na corrida espacial.

Tripulada por Thomas P. Stafford (1930- ), John W. Young (1930-2018) e Eugene A. Cernan (1934-2017), a Apollo 10 consistia no último “ensaio geral”. Ela fez praticamente tudo que sua sucessora realizou, menos pousar de fato.

 

Primeira das missões Apollo a ser escalada com uma equipe 100% composta por veteranos, ela poderia até ter sido a missão de pouso, se houvesse sinais de que a União Soviética pudesse bater os Estados Unidos na ida para a Lua.

“Originalmente, na criação do programa Apollo seria a primeira tentativa de pouso. Apollo 7, 8, 9… Apollo 10 era a quarta missão. Mas então as coisas tiveram de mudar porque o módulo lunar estava atrasado e estava muito pesado, eles precisavam encontrar um meio de cortar peso”, contou Cernan à Folha em 2010.

Nas missões Apollo, o módulo de comando servia para o transporte de três pessoas até a órbita da Lua e de volta à Terra, e o módulo lunar, com capacidade para duas pessoas, servia para descer à superfície da Lua e, depois, retornar de lá, para um reencontro com o módulo de comando em órbita lunar.

“Então eles decidiram mandar a Apollo 8 para a Lua sem o módulo lunar [em dezembro de 1968]. Não era esse o plano original, a segunda missão já deveria ter todo o equipamento. Então, a Apollo 9 teve o módulo lunar em órbita terrestre, e nos ocorreram duas coisas para a missão seguinte: se vamos enviar esses caras até a Lua, colocá-los nessa missão perigosa, por que não os deixamos ir até o final e tentar pousar? Por que assumir o risco, ir tão longe e não deixá-los pousar? E outro grupo disse: bem, vamos deixá-los fazer tudo menos pousar. Vamos aceitar os riscos, executar todos os passos que precedem o pouso e deixar só esse último passo para o próximo voo. E essa foi a decisão tomada antes de partirmos.”

Resultado: o módulo lunar Snoopy se separou do módulo de comando Charlie Brown (sim, uma homenagem dos astronautas aos personagens de Charles Schulz) e iniciou a descida para a Lua, chegando a sobrevoar a região do Mar da Tranquilidade, escolhida para o primeiro pouso, a meros 15 km de altitude —pouco mais que a altura típica de cruzeiro de um avião de passageiros na Terra.

Imagine dois astronautas altamente treinados, fazendo algo jamais realizado antes, a apenas um passo de conduzir a aproximação final para um pouso lunar. Qual seria a tentação de, mesmo contrariando ordens, eles tentarem ir adiante e realizarem o pouso? 

Bem, se você nunca imaginou isso, a Nasa imaginou. E, por essa razão, não abasteceram completamente o estágio de ascensão do módulo lunar. Ele só tinha combustível suficiente para reencontrar o módulo de comando a partir de uma altitude de 15 km. Se eles tivessem procedido com uma alunissagem não autorizada, não teriam como deixar a Lua.

“Se eu gostaria de ter estado no primeiro pouso? Claro que sim”, respondeu Cernan à Folha, sem titubear. “Mas do jeito que aconteceu foi melhor, foi uma boa decisão, e para mim isso funcionou ainda melhor, porque eu tive a chance de voltar e comandar a tripulação que eu escolhi [na Apollo 17], e esse acabou sendo o último voo até a Lua, foi o voo mais longo, o primeiro e único lançamento noturno, que teve uma série de desafios diferentes. Em retrospecto, não me arrependo de nada.”

Com efeito, apesar de não ter ido até o final, com o pouso, a Apollo 10 foi bastante empolgante. Segunda missão tripulada a orbitar a Lua, depois da Apollo 8, ela foi a primeira a levar uma câmera de televisão colorida dentro da nave.

Também foi a missão que até hoje levou os astronautas mais longe de casa —ao atingir a Lua durante o momento de máximo afastamento lunar em sua órbita elíptica ao redor da Terra, a Apollo 10 chegou a estar a 408.950 km da cidade de Houston, lar dos astronautas. A distância média Terra-Lua, para efeito de comparação, é de 384 mil km.

A espaçonave entrou em órbita da Lua na tarde do dia 21 de maio de 1969 e permaneceu lá até a madrugada do dia 24, quando o módulo lunar se separou e realizou o ensaio para o pouso. Na hora de subir de volta para o reencontro, durante a separação do estágio de descida do Snoopy, o veículo começou a girar fora de controle, e Stafford e Cernan trocaram vários palavrões até recobrarem o domínio sobre o veículo. 

A Nasa, na época, minimizou o incidente. Mas mais algumas piruetas e a missão se tornaria irrecuperável, condenando o módulo lunar a uma colisão com a superfície.

É uma boa medida de como os americanos arriscaram um bocado para vencer a corrida espacial — risco que iria se pagar dali a dois meses, com o pouso da Apollo 11 e a caminhada de Neil Armstrong e Buzz Aldrin pelo solo lunar, em 20 de julho de 1969.

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