Descrição de chapéu Homem na Lua, 50

Busca por influência política inspirou a corrida espacial

Correndo atrás dos soviéticos, EUA ampliaram seu 'soft power' com ida à Lua

Igor Gielow
São Paulo

Em 2 de maio de 1946, o mais importante centro de estudos estratégicos dos Estados Unidos, a Rand Corporation, publicou seu primeiro trabalho.

O tema: colocar um satélite em órbita, algo que “iria inflamar a imaginação da humanidade, e provavelmente ter repercussões comparáveis às da explosão da bomba atômica”.

Vinte e três anos, dois meses e dez dias depois, o pouso do módulo Eagle na Lua significava o zênite da corrida espacial entre os EUA e a então União Soviética.

O feito da Apollo 11, paradoxalmente, marcou o início do fim dessa disputa da Guerra Fria entre as superpotências no campo do “soft power”, o embate não-militar, de influência por meio de ideologia, tecnologia e cultura.

A turma da Rand estava certa. No mundo do pós-guerra, a disputa pelo espaço mimetizou façanha após façanha a rivalidade entre os líderes dos mundos capitalista e comunista, quando o regime centrado em Moscou ainda mostrava força e viabilidade.

Em mais um momento de presciência da Rand, apenas a perspectiva de aniquilação nuclear parecia mobilizar tanto as mentes da época. Era a luz e a treva da mesma matriz, a sociedade tecnológica.

Os soviéticos saíram na frente em 1957, com o lançamento do rudimentar Sputnik. Um mês depois, um segundo satélite levou a vira-lata Laika para ser o primeiro ser deste planeta a alcançar o espaço —glória duvidosa para ela, já que o bicho morreu em órbita.

Não que os americanos não estivessem trabalhando. Dos laboratórios nazistas, recolheram os melhores engenheiros de foguetes, o mítico Wernher von Braun à frente.

Do lado adversário estava Serguei Korolev, egresso de um campo de trabalhos forçados soviético. Ele já tinha a Lua nos planos: foi Moscou quem primeiro a atingiu, com a sonda Luna 2 em 1959.

Mas o nível do jogo mudou com o primeiro cosmonauta, Iuri Gagarin, que voou em 1961. Pressionado pelo fracasso em derrubar Fidel Castro em Cuba, o presidente John Kennedy apoiou-se na disputa e declarou que a Lua seria conquistada até o fim da década.

A imaginação da humanidade, para ficar nas palavras da Rand, já estava inflamada: Gagarin girava o mundo todo, Brasil inclusive, como garoto-propaganda do comunismo.

Os EUA revidavam com programas como o Gemini, mas pareciam sempre um passo atrás. Os soviéticos, sob zero escrutínio público, trabalhavam com prazos corridos e menor sofisticação relativa.

Mas a robustez de suas naves é o que garante até hoje o abastecimento e o transporte de cosmonautas (se você for russo) e astronautas (se for ocidental) para a Estação Espacial Internacional.

“O investimento substancial dos EUA para vencer a disputa mostra o papel importante do ‘soft power’ na política externa americana”, escreveu em artigo Teasel Muir-Harmony, curadora de história espacial do Museu Nacional do Ar e do Espaço, em Washington.

Consumindo o que hoje equivaleria a US$ 150 bilhões (R$ 555 bilhões), o projeto Apollo foi descomunal. A guerra no Vietnã e as turbulências políticas nos EUA fizeram os custos do projeto serem questionados.
A chegada à Lua, contudo, capturou o mundo. Mesmo na União Soviética, que fracassara em pousar ao mesmo tempo uma sonda científica.

A TV estatal fez três transmissões do feito americano. A audiência do evento ao vivo na televisão mundial foi de 530 milhões de pessoas. Era a vez dos EUA: em breve o trio de astronautas estaria com sombreiros sendo recebidos por multidões no México.

Tudo isso foi devidamente absorvido e ressignificado em incontáveis produções de Hollywood em que astronautas são heróis —em biografias sóbrias como “O Primeiro Homem” (2018) ou patriotadas como “Armageddon” (1998).

Ao mesmo tempo, as contingências políticas e econômicas fizeram Richard Nixon, o controverso presidente à época, estabelecer cooperação com os soviéticos que culminou no fim simbólico da corrida espacial: o acoplamento em 1975 de uma Soiuz e uma Apollo na órbita terrestre.

A parceria em si murchou a partir da invasão do Afeganistão pelos soviéticos em 1979, mas ambos os rivais abriram seus programas espaciais para aliados. Moscou tinha o Intercosmos, e os ônibus espaciais americanos levaram astronautas de 16 países diferentes.

O embrião de nova corrida se desenha neste século. Enquanto a maioria das agências espaciais trabalha junta, a China vem desenvolvendo seu programa sozinha. Possui até nome para seus enviados ao espaço, taikonautas, e tem investido na Lua.

A Índia e o Japão também ensaiam seus avanços, e os EUA anunciam a volta à Lua com o uso intensivo de atores privados na empreitada.

Do ponto de vista de “soft power”, é numa renovada corrida espacial, agora entre americanos e chineses, que reside a maior chance de “inflamar a imaginação da humanidade”. Daí o retorno previsto ao satélite natural e, principalmente, o sonho de visitar Marte.

 
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