Descrição de chapéu Homem na Lua, 50

Exploração lunar evoluiu e ficou mais sofisticada, acessível e científica

Na ressaca pós-Apollo, humanidade começa a reatar seu caso com a Lua após sinais de potencial gelo de água aprisionado em crateras

Salvador Nogueira
São Paulo

A Lua tem cerca de 38 milhões de km². É um vasto território de quatro Brasis e meio. A humanidade já aprendeu muito sobre o solitário satélite terrestre nas últimas seis décadas, quando iniciou a tarefa de explorá-lo, mas o trabalho está longe de encerrado.

Mesmo com potentes telescópios, não se enxergam da Terra “detalhes” do solo lunar com tamanho muito inferior a 300 metros. Daí, a necessidade óbvia de visitá-la — ambição humana ancestral, registrada em incontáveis mitos e histórias de ficção científica. 

O sonho começou a se tornar realidade em 1959, com as primeiras missões soviéticas não tripuladas a atingirem com sucesso a Lua, das quais se destaca a Luna 3, a primeira a revelar alguma coisa, ainda que em imagens cheias de ruído, do aspecto do hemisfério lunar que nunca pode ser visto daqui, dado o sincronismo entre rotação e translação do satélite. Era o primeiro vislumbre do lado oculto da Lua.

Os EUA só dariam o primeiro “troco” digno de nota quase cinco anos depois, em julho de 1964, quando a Ranger 7 se tornou a primeira espaçonave não tripulada a obter imagens em close e com alta qualidade da superfície lunar.

Os soviéticos saltaram à frente pouco menos de dois anos depois, com o primeiro pouso (Luna 9) e o primeiro orbitador (Luna 10), em 1966. 

A corrida espacial encontrou seu ponto culminante em julho de 1969 com a Apollo 11, o primeiro pouso tripulado

Nos EUA, a euforia foi gradualmente substituída pela monotonia das Apollos 12, 14, 15, 16 e 17 —cinco expedições lunares tripuladas realizadas entre 1969 e 1972, interrompidas apenas pelo voo quase trágico da Apollo 13, que trouxe dois recados: voar à Lua é perigoso e uma falha irrecuperável é provavelmente inevitável caso o programa siga de forma contínua.

Seria trágico terminar um esforço cujo objetivo era provar a supremacia tecnológica com uma catástrofe e a perda de uma tripulação. Ao mesmo tempo, o povo americano começava a prestar mais atenção à recessão econômica pela qual passava o país do que a proezas lunares que custavam alto aos cofres públicos. 

A Nasa decidiu cancelar as missões Apollo 18, 19 e 20 mesmo tendo naves e foguetes já fabricados para elas. 

A última espaçonave a pousar na Lua durante a Guerra Fria foi a soviética Luna 24, em 1976. Ao todo, entre missões tripuladas e não tripuladas realizadas por americanos e soviéticos, foram 19 pousos suaves, todos eles no hemisfério próximo lunar — o lado visível da Terra.

A ciência, nesse contexto geopolítico, se tornou mera passageira nas viagens, subordinada a outros interesses. Tanto que, mesmo após muita campanha por parte da comunidade científica ao longo do programa Apollo, apenas um cientista chegou a de fato visitar a Lua: o geólogo Harrison Schmitt, na derradeira Apollo 17.

Na década de 1970, ninguém mais queria ouvir falar de Lua, e se instalou uma cultura global de “já fizemos isso, não há nada a se descobrir na Lua”.

A maré começou a virar na década de 1990. Primeiro porque apenas dois países no mundo inteiro podiam realmente dizer “já fizemos isso”. Todos os demais, até então, haviam sido caroneiros.

O terceiro país a atingir a Lua foi o Japão, com a sonda Hiten, em 1990. Mas ela não fez muito mais do que orbitar o satélite, sem produzir grandes resultados científicos.

O interesse pela Lua começou a virar mesmo com a americana Clementine, missão em parceria do Pentágono e da Nasa. Seu objetivo era usar instrumentos mais sofisticados que os disponíveis na corrida espacial para mapear mineralogicamente a superfície lunar. E a sonda pode ter encontrado sinais do mais precioso recurso espacial: água.

Sinais detectaram a presença de potencial gelo de água aprisionado nas profundezas de crateras no polo Sul lunar. Em seu interior, a luz do Sol nunca bate, permitindo que o gelo permaneça estável ali.

A água tornou a Lua um local novamente atrativo. No espaço, pode ser usada para beber, respirar (separando o oxigênio) e alimentar foguetes (separando o hidrogênio).

A descoberta reacendeu o interesse dos americanos pela Lua, não como um objetivo arbitrário numa corrida espacial mas como alvo estratégico concreto, de onde há muita ciência a ser extraída.

A ESA (Agência Espacial Europeia) lançou sua primeira missão lunar em 2003, e os japoneses voltaram à Lua, agora para valer, em 2007, com a Selene. E chineses e indianos chegaram quase juntos, com as missões orbitais Chang’e 1 e Chandrayaan 1, em 2008.

Em 2013, ocorreu o primeiro pouso suave na Lua desde 1976, mais uma vez por obra dos chineses, com a Chang’e 3, que levou o jipe robótico Yutu. E a Chang’e 4 realizou um feito histórico em 2018, realizando o primeiro pouso suave no lado afastado da Lua.

Ainda neste ano, os indianos querem se tornar o quarto país a pousar suavemente na Lua, com a Chandrayaan 2.

Desta vez, não temos uma corrida. Mas ainda há muito o que explorar —e quem sabe a desenvolver— no nosso vizinho mais próximo.

O que mudou desde o “pequeno passo” de Neil Armstrong? A tecnologia se tornou mais sofisticada e acessível, de forma que um retorno à superfície lunar possa ser justificado apenas pela ciência e por, quem sabe, futuros interesses comerciais, sem exigir um espasmo da civilização, acompanhado de cheques em branco, como aconteceu na Guerra Fria.

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