Professores de direita do país querem se unir em associação

Movimento Docentes pela Liberdade (DPL) foi lançado oficialmente na quarta (3)

Gabriel Alves
São Paulo

Com relatos de desprezo e maus-tratos por colegas de esquerda, professores de direita de todo o país que já se reuniam em grupos virtuais estão a caminho de se tornarem uma associação, a dos Docentes pela Liberdade (DPL).

Eles realizaram eventos na quarta (3) em Londrina e em ao menos oito cidades na quinta (4) para lançar oficialmente o movimento. Há programação em Brasília, Porto Alegre, Aracaju, Recife, Cuiabá, Montes Claros (MG), Viçosa (MG), Campinas (SP); em alguns outros locais, como Vitória, Rio Branco, Palmas e Natal, haverá encontros informais e jantares (mais informações em bit.ly/3243WoD).

Com o impulso dado pela eleição de Jair Bolsonaro (PSL), professores formaram um bloco mais ou menos coeso (antipetista, liberal na economia) em busca de um espaço mais acolhedor para discutir e elaborar planos para aumentar sua influência sobre a universidade e, por que não, também sobre o governo.

Idealizador do grupo, Marcelo Hermes-Lima, biólogo e professor da UnB, diz que não se trata propriamente de um grupo de direita, mas pela liberdade. “O termo direita tem uma conotação ruim porque exclui quem é de centro”, diz. 

Hermes-Lima, que estuda como os animais se adaptam a ambientes extremos, também tem interesse especial por cientometria, isto é, formas de medir e aquilatar a produção científica de indivíduos, instituições e até países. 

Em sua avaliação, o Brasil emprega mal os recursos destinados à ciência ao dividir o bolo com quem não teria condições de produzir uma boa pesquisa. O resultado disso é, de acordo com ele, uma produção qualitativamente ruim, inferior à de países como Estônia e Arábia Saudita.

Suas críticas à pesquisa e à educação no país, cujas falhas atribui em grande parte aos governos Lula e Dilma, e seu apoio público ao novo governo nas redes sociais o tornaram uma espécie de celebridade no meio direitista. Não demorou até que outros docentes e curiosos o procurassem em busca de aconselhamento ou até para desabafar.

“A ideia do grupo nasceu em maio, depois que vi amigos escrevendo que a USP era um lugar plural, mas entra com uma camisa do Bolsonaro lá para você ver. Não estou nem falando de áreas mais radicais [humanas]. Não é um lugar plural”, afirma Hermes-Lima.

Rafael de Menezes, professor de direito civil da Universidade Católica de Pernambuco e juiz da 8ª Vara Cível de Recife, diz que o compromisso dos DPL é “com a verdade, com o respeito às opiniões e com a valorização da família, do comércio, da liberdade de empreender e dos valores conservadores que nos trouxeram [a humanidade] até aqui”, diz. “Estamos entusiasmados com o novo governo e podemos mostrar que não há só esquerda na universidade. Professores de direita, conservadores e liberais também têm seu espaço, e o grupo quer mostrar isso.”

Para o grupo, sempre houve um ônus ao se posicionar contra a esquerda na universidade. Diversos docentes mais próximos ideologicamente da direita e que apoiam o atual governo relatam que são alvo de piadas e de fofocas ou mesmo de ataques por parte de colegas e de alunos.

Docentes pela Liberdade

Números do grupo

  1. 270

    é o número de cadastrados

  2. 46

    anos é a idade média

  3. 85%

    dos participantes do grupo dizem ser professores de ensino básico ou superior

  4. 42%

    são das áreas de biológicas e exatas

  5. Abrangência

    O grupo tem participantes em 23 estados e no Distrito Federal

O medievalista Ricardo da Costa, professor titular da UFES e que atualmente trabalha como assessor do Ministério da Educação, diz que, por não ser de esquerda, sofre constantemente ataques difamatórios. 

“Já houve agressões de todo tipo: sindicância, processo, denúncia… E não falo em política em sala de aula porque acho o fim da picada. Eu só ministro minhas aulas, não falto, não atraso, aplico prova. Sou um professor antigo, tradicional, mas isso já é motivo de problema.”

Ele afirma que uma vez picharam numa parede: “Queimem Ricardo da Costa”, que ele atribui ao seu posicionamento pedagógico, distante do que chama de “formação político-ideológica paulofreiriana”. “O ambiente universitário piorou de 2003 pra cá do ponto de vista da pluralidade das ideias, ficou mais intolerante. Tenho alunos do 1º ano que nem me conhecem, mas que me recebem com hostilidade.”

Laércio Dias, professor de antropologia no campus de Marília (interior de São Paulo) da Unesp, diz que os DPL se sentem bastante incomodados com a hegemonia ideológica de esquerda, principalmente nas áreas de humanas.

O antropólogo espera que o grupo ajude a aumentar a diversidade de ideias não apenas no campo da esquerda. Dentro da antropologia, exemplifica, há uma espécie de trindade maldita composta de estudos de raça, classe e gênero. “Existe uma concentração grande de abordagens dentro desse espectro. É preciso restituir a finalidade última da universidade que é a produção de conhecimento, e não usar a academia como um braço político-ideológico.”

Hélio Godoy de Souza, professor titular aposentado da UFMS, foi um dos primeiros entusiastas dos DPL. Ele é especialista em artes visuais e em imagens em 3D. Ele diz que, por conta de falta de estímulo e de cerceamento às suas ideias, parou de estudar filosofia e foi para a tecnologia por esta ser menos susceptível a vieses ideológicos. “Mesmo assim teve encrenca quando comecei a migrar para uma abordagem mais teórica.”

Segundo ele, auxílios financeiros para projetos foram negados, artigos deixaram de ser publicados e ele teria sido boicotado por outros estudiosos de sua área por causa de interpretações da teoria do cinema (que descrevem sua identidade, função e relação com o espectador, por exemplo) diferente daquelas das correntes mais hegemônicas. “Desde a década de 1960 as teorias que têm mais penetração na academia são marxistas”, diz.

“O resultado disso em minha vida foi o desenvolvimento de uma enorme frustração por não ter conseguido utilizar documentário 3D como ferramenta para o aprendizado de assuntos nos quais a questão da volumetria [aferição do volume] é crucial: anatomia, estruturas em engenharia, medicina, entre outras aplicações.”

Em sua maioria, os Docentes pela Liberdade são de humanas, mas 42% se dividem entre as áreas de exatas e biológicas. 

A engenheira agrônoma Laíze Vilela, professora de ciências do solo na Ufscar no campus de Lagoa do Sino (interior de São Paulo), que se define como liberal na economia e conservadora nos costumes, diz que ela e alguns colegas muitas vezes se sentiram perseguidos, ilhados e sem voz. 

“Tentamos implantar em alguns projetos para melhorar a qualidade de ensino e o perfil dos egressos, e isso é malvisto. Para quem trabalha baseado em meritocracia é desmotivante.” Para ela, a importância dos DPL é que, com o grupo, os professores descobrem que há colegas de outras universidades lutando pelos mesmos ideais.

Paolo Zanotto, professor de virologia na USP e um dos nomes mais importantes do país na resposta ao surto de zika e outras arboviroses, diz se sentir incomodado com o que chama de “monocromatismo ideológico que já dura três décadas”. Para ele, falta respeito à liberdade individual —ela não poderia ser menor do que a liberdade de grupos identitários. 

“Existe liberdade se a pessoa tiver um tipo de ideologia. Do contrário, é fascista, homofóbico… A pessoa é destruída”, diz. “A polarização intensa desfavorece a interação humana. A existência de milhares de grupos separados e em conflito só favorece quem quer ter controle sobre a sociedade.”

“Tem que haver um ambiente com espaço para debater, com humildade moral para entender que os polos não precisam inibir o espaço entre eles. Esse espaço é de ressignificação, onde o discurso é construído, e não onde apenas há troca de ideias prontas. É aí que se encontra a essência da humanidade. Temos que valorizar a diversidade, aceitar contraditórios, ter compaixão e empatia, o vira jogo de poder. A empatia está sumindo, e isso é perigosíssimo”, diz o virologista.

Celso Napolitano, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e presidente da Fepesp (Federação dos Professores do Estado de São Paulo), que reúne 25 sindicatos de professores e auxiliares de ensino de São Paulo da rede privada do estado, diz que, com os 58 milhões de votos para Bolsonaro, era de se esperar que houvesse professores entre os mais alinhados com o governo.

Dentre as instituições que coordena, conta, até o momento há oposição total a iniciativas do governo federal, como a reforma da Previdência e a flexibilização da posse de armas. Todas essas instituições apoiaram as manifestações de 14 de junho, contrárias ao governo.

“Sobre o fato de professores e trabalhadores em educação que não se sentem representados pelos sindicatos darem início a uma organização, não incomoda em nada. Penso que temos que fazer a disputa no campo das ideias, das reflexões. Nós respeitamos o de debate democrático e procuramos fazê-lo”, diz Napolitano.

Denise Carreira, doutora em educação pela USP e coordenadora da ONG Ação Educativa, diz que reconhece o direito de o grupo se organizar, mas que se preocupa com uma das pautas defendidas individualmente por alguns participantes do grupo, o Escola Sem Partido, iniciativa que, segundo ela, é cerceadora do debate público.

“A gente pode ler essa situação como um grupo que retoma agendas tradicionais, elitistas, ligadas à meritocracia e em reação às conquistas de democratização das universidades. Será que essa associação vai defender as instituições de ensino? Será que vão lutar por mais dinheiro para a educação e para a ciência e tecnologia?”

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do informado na versão anterior deste texto, a professora Laíze Vilela é docente da Ufscar, e não da Unesp

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