Cientistas encontram crânio de ancestral humano que viveu há 4 milhões de anos

Fóssil foi encontrado na Etiópia e ajuda a conhecer história dos processos de diversificação da espécie

Reinaldo José Lopes
São Carlos (SP)

Um dos mais antigos membros da linhagem dos seres humanos enfim ganhou um rosto. A descoberta de um crânio quase completo de Australopithecus anamensis, espécie que viveu na atual Etiópia entre 4,2 milhões e 3,8 milhões de anos atrás, indica que processos complicados de diversificação já estavam presentes desde os primeiros passos dos hominídeos, como são conhecidos os avós e primos extintos do Homo sapiens.

Embora o A. anamensis seja reconhecido como uma espécie separada desde 1999, os fósseis que tinham sido descobertos até agora (em geral, fragmentos da mandíbula e dentes) não eram suficientes para que os cientistas tivessem uma visão mais detalhada da criatura.

O crânio de Australopithecus anamensis, de 3,8 milhões de anos
O crânio de Australopithecus anamensis, de 3,8 milhões de anos - Dale Omori/Museu de História Natural de Cleveland

Agora, porém, uma equipe liderada pelo etíope Yohannes Haile-Selassie, do Museu de História Natural de Cleveland (EUA), acaba de publicar uma descrição completa do novo crânio, desenterrado em 2016, na revista científica Nature, junto com uma análise do contexto geológico e ambiental onde o espécime foi encontrado.

Oriundo da região de Afar, mesma área onde foi descoberta a famosa fêmea de australopiteco conhecida como Lucy, o crânio provavelmente corresponde a um macho de tamanho modesto (pouco mais de 1 m de altura) e idade avançada.

As inferências sobre o sexo e a idade vêm da presença de um canino relativamente grande – coisa que, entre primatas mais próximos da nossa espécie, é típica de machos – e do grande desgaste dos demais dentes da criatura, o que indica muitos anos de vida mastigando comida dura.

Esse último detalhe bate com outras características do crânio. O novo rosto do A. anamensis tem forte prognatismo, ou seja, a face do animal se projetava bastante para a frente, mais ou menos como a dos chimpanzés atuais.

“Isso é algo típico da linhagem dos australopitecos, e fica até mais intenso em espécies que surgem mais tarde. É algo ligado ao processamento intenso de alimentos duros durante a mastigação”, explicou Stephanie Melillo, coautora do estudo e pesquisadora do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionista, na Alemanha, durante entrevista coletiva por telefone.

O desgaste sofrido pelos ossos indica que, após a morte do animal, eles foram transportados por certa distância até o local onde um antigo rio desembocava num lago, conta outra coautora do trabalho, Beverly Saylor, da Universidade Case Western Reserve (também nos EUA).

Saylor, responsável por reconstruir o ambiente onde o pequeno hominídeo viveu, afirma que o rio e o lago eram cercados por matas ciliares, enquanto o resto da região era árida e tinha vegetação arbustiva. A espécie, portanto, estava acostumada a ambientes mais abertos. A pesquisadora também coordenou o trabalho que chegou a uma estimativa de 3,8 milhões de anos de idade para o fóssil.

Alguns detalhes da anatomia do crânio lembram os de hominídeos ainda mais primitivos. É o caso da caixa craniana comprida e estreita, que abrigava um cérebro pequeno, de tamanho similar ao de um chimpanzé. Já os ossos da bochecha, que se projetam para a frente, parecem-se com o de australopitecos que viveram 1,5 milhão de anos depois que o A. anamensis.

A reconstrução facial do crânio do Australopithecus anamensis
A reconstrução facial do crânio do Australopithecus anamensis - Matt Crow/Museu de História Natural de Cleveland

A combinação desses traços, segundo Haile-Selassie, dá mais peso à ideia de que o A. anamensis de fato é uma linhagem única, diferente da espécie A. afarensis, à qual pertencia a célebre Lucy e que surge um pouco mais tarde, subsistindo até uns 3 milhões de anos antes do presente.

Alguns especialistas defendiam que o A. anamensis seria apenas uma forma mais primitiva do A. afarensis, mas as novas datações indicam que houve uma sobreposição temporal entre as duas espécies, com uma convivência de pelo menos 100 mil anos entre elas.

Portanto, argumenta o grupo do etíope, faz mais sentido pensar que, nessa época, houve uma diversificação considerável dos hominídeos. A evolução do grupo seria mais parecida com um arbusto que se ramifica em diferentes galhos do que com uma transição simples e linear, na qual uma única espécie ancestral “entrega o bastão” à espécie-descendente.

“As pessoas não têm problemas em aceitar esse fenômeno quando falam de outros grupos de animais. Por que teria de ser diferente com os hominídeos?”, diz Haile-Selassie?

Os australopitecos acabaram se tornando uma das linhagens mais longevas entre os primos extintos do ser humano. Chegaram a conviver com os primeiros membros do nosso gênero, o Homo, desaparecendo por volta de 2 milhões de anos atrás.

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