Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Museu Nacional quer reabrir ao público em 2022

Restauração da fachada, reforma interna e novo campus com laboratórios estão nos planos

Júlia Barbon
Rio de Janeiro

O Museu Nacional, que pegou fogo há um ano no Rio de Janeiro, já tem uma previsão de reabertura: 2022. A intenção é permitir que o público entre ao menos em uma parte do palácio nesta data, para comemorar o bicentenário da independência do país.

A reconstrução vai começar pela fachada tombada e pelos telhados do edifício, que tem 201 anos. O projeto está sendo feito por uma empresa contratada pela UFRJ (universidade federal responsável pelo museu), e a estimativa é concluir a licitação e iniciar a obra ainda neste ano.

Também serão contratados outros dois projetos —um da parte interna do edifício e outro museológico, sobre o que será exposto dentro do museu—, ambos geridos pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura). Mas esses devem demorar um pouco mais.

A ideia é que, no futuro, a nova área expositiva tenha quatro eixos: a história do prédio e da família real, a evolução da vida, a complexidade cultural (para a qual serão necessárias doações nacionais e internacionais) e os biomas brasileiros.

Já os laboratórios e a parte administrativa do museu devem ficar fora do palácio. A UFRJ planeja construir nos próximos anos um novo campus, batizado de Cavalariças, para abrigar os pesquisadores que perderam seus espaços de trabalho com o incêndio.

Eles serão acomodados em um terreno de 44.000 m² cedido pelo governo federal, próximo ao Maracanã (zona norte do Rio). O cercamento da área e a infraestrutura como as cisternas, por exemplo, já estão em processo de licitação, segundo a nova reitora da universidade, Denise Pires.

Também está nos planos um centro educacional no mesmo terreno para expor parte do acervo e receber escolas, o que poderia ser feito em poucos meses, mas ainda não há verbas para isso.

Todos esses projetos foram anunciados nesta quarta (28), em uma entrevista coletiva para marcar o primeiro ano da tragédia. "Precisamos mostrar para o mundo que estamos seguindo, que não perdemos a capacidade de produzir conhecimento", repetiu o diretor do museu, Alexander Kellner.

O RESGATE DO ACERVO

Pela primeira vez, a instituição fez um balanço do acervo que foi ou não achado. De um total de 37 coleções —nas áreas de antropologia, botânica, entomologia (insetos), geologia e paleontologia, invertebrados e vertebrados—, 17 foram total ou parcialmente perdidas, 13 foram ou estão sendo resgatadas e 7 não foram atingidas porque estavam em outros prédios.

Ainda é impossível, porém, fazer esse balanço em número de peças, diz a arqueóloga Luciana Carvalho, uma das coordenadoras da equipe de resgate, que hoje conta com 47 funcionários do museu, além de alunos e pesquisadores que ajudam em buscas pontuais. 

O que há é um registro de quase 4.400 formulários preenchidos pelo grupo até agora, mas cada formulário representa um lote, portanto pode conter centenas de peças ou fragmentos. Nesta quarta, foram apresentados itens das coleções peruana, egípcia, do Japão e da Nova Zelândia.

Desde o incêndio, essa equipe vem fazendo buscas nos escombros para resgatar o acervo, que passou pelo que chamam de "três tragédias": o fogo, a água (dos bombeiros e da chuva) e o desabamento do prédio.

As salas são divididas em quadrantes e escavadas. As peças vão sendo coletadas manualmente, encaminhadas para a triagem, estabilizadas (processo para evitar sua deterioração) e armazenadas, tudo isso em contêineres montados do lado de fora do museu.

Considerando a área plana de 2.000 m² do palácio (já que a maior parte do primeiro e segundo andares caiu), eles já “limparam” 50 de 71 áreas. As outras 21 devem ser finalizadas até o primeiro semestre do ano que vem, para depois ser elaborado um relatório final com tudo que foi encontrado.

Há dois meses, desde que as obras de reforço na estrutura do prédio acabaram, o trabalho de coleta está praticamente parado. O museu alega falta de contêineres para guardar as peças achadas e de funcionários para ajudar na parte mais física, com o carregamento de entulhos.

Enquanto isso, os pesquisadores têm focado no cuidado com as peças que já foram retiradas. Questionada, a reitora da UFRJ afirmou que a universidade já está licitando os contêineres e buscando as contratações para retomar o trabalho o mais rápido possível. 

Paralelamente, o Museu Nacional vem tentando recompor o acervo com doações de outros museus ou países e com novas coletas em campo, como no caso das coleções de insetos. A Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do RJ), por exemplo, cedeu 72 bolsas de R$ 3.000 aos pesquisadores.

DE ONDE VEM O DINHEIRO

No total, a instituição calcula ter em torno de R$ 70 milhões para sua recuperação. Desse valor, R$ 16 milhões foram disponibilizados pelo Ministério da Educação para as obras emergenciais do prédio (reforço das paredes, teto provisório e contêineres) e para a elaboração dos três projetos (fachada, área interna e exposições).

Outros R$ 43 milhões devem vir de uma emenda parlamentar da bancada do RJ, prevista no Orçamento da União deste ano, e R$ 10 milhões do Ministério da Ciência para pesquisas, mas o museu diz que ainda aguarda a liberação desses recursos. 

O restante veio de doações: R$ 390 mil de pessoas físicas e jurídicas, R$ 1 milhão do governo da Alemanha (que prometeu até 1 milhão de euros, de acordo com as necessidades do museu) e R$ 150 mil da agência britânica internacional ​British Council para intercâmbios.

O diretor Alexander Kellner criticou a burocracia dos processos. "Chegaram a me perguntar: 'professor, tem algum documento que comprove o incêndio do Museu Nacional?'", disse. Ele citou ainda que os hidrantes que não funcionaram no dia do incêndio continuam quebrados, o que está sendo resolvido pela Cedae (Companhia de Águas e Esgotos do RJ).

Ele anunciou também que, no próximo final de semana (dias 31 e 1º), o museu vai realizar uma série de eventos na Quinta da Boa Vista, onde fica o palácio, para marcar o primeiro do incêndio. E uma nova exposição com itens resgatados será aberta na Caixa Cultural do Rio na segunda-feira, 2 de setembro, data da tragédia.

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