Diretor do Museu Nacional diz que em três anos visitantes podem voltar

'Estou extremamente confiante', diz Alexander Kellner sobre acervo um mês após incêndio

Júlia Barbon
Rio de Janeiro

Um mês após o incêndio que atingiu o Museu Nacional, na zona norte do Rio, o diretor da instituição, Alexander Kellner, disse estar "extremamente confiante" com o que viu ao entrar na área afetada pelo fogo logo após a tragédia.

"Não sou um cara de natureza otimista nem pessimista, mas estou extremamente confiante com o que eu vi. Porque teve parte que colapsou, não queimou, então aquilo que ficou embaixo temos chance de preservar", disse o paleontólogo nesta terça (2) em entrevista em frente ao museu. "Teve outra área que queimou tudo, ali a chance de eu conseguir resgatar alguma coisa é menor."

O diretor do Museu Nacional, Alexander Kellner
O diretor do Museu Nacional, Alexander Kellner - Zô Guimarães - 21.mai.2018 /Folhapress

Os trabalhos de resgate do acervo ainda não começaram, por questões de segurança. Desde o dia 21 de setembro, uma empresa contratada pela UFRJ (Universidade Federal do RJ), que gere o museu, vem realizando obras para estabilizar a estrutura do prédio.

O palácio de 200 anos está rodeado por tapumes, e a entrada está sendo controlada. Cerca de 25 funcionários trabalham ali dentro diariamente. O processo vai incluir, além da estabilização, a colocação de uma cobertura provisória sobre o antigo palácio, onde ficavam as grandes exposições do museu e muito de seu acervo.

Todo esse trabalho deve durar até seis meses e, conforme cada área do prédio for considerada segura, começarão os trabalhos de resgate. "Vamos entrar à medida em que eles forem escorando e essas áreas forem sendo liberadas. A Luzia [crânio humano mais antigo do Brasil] não está nesse primeiro caminho", afirmou Kellner, questionado se algum setor seria priorizado.

Para essa fase, estão sendo usados R$ 8,9 milhões liberados emergencialmente pelo Ministério da Educação, que estão sendo empregados também no isolamento da área e na instalação de contêineres para abrigar os pesquisadores que perderam seus locais de trabalho com o desastre.

Depois disso, o diretor do museu disse estar tentando conseguir um valor de R$ 50 milhões a R$ 100 milhões, que o Congresso Nacional precisaria incluir no Orçamento do ano que vem, para reconstruir a infraestrutura básica do edifício, com paredes e teto definitivo.

"Se nós conseguirmos essa dotação orçamentária e ela não for contingenciada, eu acredito que em três anos já vamos ter alguma coisa bacana [e as pessoas poderão voltar a visitar o museu]", calculou ele. Uma outra verba de R$ 5 milhões, já garantida pelo Ministério da Educação, será usada depois para formular um projeto de redefinição das áreas internas do prédio.

"Não foi todo o acervo que se perdeu, felizmente, porque já havia uma programação do museu de sair do palácio", frisou. "A gente tem muito acervo ainda, e esse acervo dá um museu de história natural. Não tenho múmia, mas estamos conversando com outras instituições, por exemplo, sobre empréstimos a longo prazo."

Uma das prioridades agora é voltar a atender as crianças --segundo ele, cerca de 20 mil alunos de 600 escolas visitavam o local anualmente. O Museu Nacional está fazendo uma campanha de financiamento coletivo para arrecadar R$ 50 mil e permitir que funcionários possam visitar colégios levando itens do acervo.

Em um segundo momento, ainda com essa verba, a instituição quer criar um roteiro de visitação focada em botânica e zoologia, usando os jardins históricos do Horto Botânico do museu e reformando um pequeno edifício que existe ali. "Será para alunos, não será o grande público nesse primeiro momento", disse o diretor.

Nesta terça, Kellner também criticou uma obra da Prefeitura do Rio que está sendo feita para desviar um rio na região, o rio Joana, que segundo ele pode comprometer a segurança de funcionários que trabalham no reforço do museu.

"Toda vez que eles dinamitam dá para sentir o tremor. Além do prédio, pode prejudicar a segurança das pessoas", afirmou. A obra faz parte do programa de controle de enchentes da Grande Tijuca, na zona norte da capital fluminense.

Ele diz que o prefeito Marcelo Crivella (PRB) prometeu paralisar as detonações e chegou a fazer isso a pedido do museu, mas voltou a realizá-las dois dias atrás. A Secretaria Municipal de Conservação e Meio Ambiente (Seconserma) ainda não se manifestou.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.