LSD pode frear declínio mental, diz estudo brasileiro

Estudo em Natal e no Rio com ratos velhos e minicérebros humanos indica melhora na cognição com uso de psicodélico

São Paulo

Pesquisadores brasileiros enviaram sem alarde nesta quinta-feira (5) à página de acesso aberto bioRxiv.org um artigo que pode dar novo impulso ao chamado renascimento psicodélico. “Dietilamida do ácido lisérgico tem grande potencial como estimulante cognitivo”, esse o título, deverá ficar disponível nos próximos dias.

O estudo constitui uma façanha técnica. Une testes comportamentais com ratos jovens, adultos e velhos tratados com LSD, em comparação com semelhantes sóbrios, à análise das proteínas produzidas em minicérebros submetidos ao ácido para concluir que há melhora no aprendizado graças ao aumento de sinapses.

Na liderança do trabalho estiveram dois especialistas nessas áreas, respectivamente Sidarta Ribeiro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e Stevens Rehen, da UFRJ e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor). Mas quem carregou o piano, com ajuda de outros 13 coautores, foram Felipe Augusto Cini e Isis Ornelas, das mesmas instituições.

Minicérebros
Minicérebros formam mais sinapses quando submetidos a LSD Corante vermelho marca a presença de proteína (SYP) importante na formação de sinapses; corante azul (DAPI) marca a presença de DNA e, portanto, do núcleo das células nervosas; [D] Organoides tratados com LSD apresentam mais sinapses; Como fica mais visível no detalhe [F], as sinapses se concentram em áreas mais maduras do minicérebro, cujas células comportam analogia com neurônios do córtex cerebral; nos minicérebros da amostra de controle, predomina o azul [C e E] - Divulgação

O surgimento de novas conexões entre neurônios está na base da fixação de memórias e, por isso, da cognição. Essas funções superiores do cérebro decaem com a idade, mas o grupo de pesquisa descobriu que o LSD ajuda a resgatá-las em roedores idosos se eles contarem, ao mesmo tempo, com um ambiente mais interessante.

Sinaptogênese (formação de sinapses), ou neuroplasticidade, e abertura para experiências novas, cogitam os autores, parecem ser o traço comum por trás do potencial terapêutico redescoberto nos psicodélicos. Centros do Brasil, dos EUA e da Europa já estudam a capacidade de outras substâncias que também atuam sobre o ciclo do neurotransmissor serotonina para tratar aflições mentais.

É o caso do DMT da ayahuasca, estudada de forma pioneira pelo grupo de Dráulio de Araújo, na mesma UFRN, para tratar depressão resistente aos remédios disponíveis. Nos EUA se investiga o MDMA (ecstasy) para transtorno de estresse pós-traumático. No Reino Unido, a psilocibina dos cogumelos mágicos para depressão, de novo.

Antes que alguém se apresse a organizar viagens lisérgicas de avós na praia ou em parques, cabe repetir que o estudo só utilizou animais e minicérebros, esferas de células nervosas humanas cultivadas em laboratório por 45 dias. Falta cumprir a etapa em que os testes envolverão pessoas de carne e osso.

A equipe multidisciplinar compete na ponta da pesquisa de alternativas para os tratamentos no arsenal limitado da psiquiatria contra transtornos complexos e não raro refratários, como depressão e dependência química. Não será surpresa se ficarem falando sozinhos no Brasil de hoje, em que se autorizaram medicamentos à base de cânabis, mas seguiu proibido o cultivo.

Por ora, o grupo potiguar mostrou que melhora o desempenho dos ratos jovens e adultos quando tomam LSD antes das tarefas. O mesmo não ocorre com os roedores velhos, mas, quando são expostos a ambientes com objetos novos —pode ser até um tubo de papelão—, os idosos lisérgicos se saem bem melhor.

A explicação de que a neuroplasticidade induzida pelo psicodélico estaria por trás ganhou força com os minicérebros. As equipes do Idor e da Unicamp dissolveram e compararam as proteínas produzidas por esses organoides com e sem LSD. Identificaram 234 com presença mais significativa nos minicérebros do segundo time, várias das quais —como a sinaptofisina— diretamente envolvidas na formação de sinapses.

“Os resultados [...] dão apoio ao uso de LSD para estimular o aprendizado, mapeiam as vias metabólicas subjacentes a tal efeito e mostram pela primeira vez que o LSD modula proteínas sinápticas em neurônios humanos”, conclui o artigo.

O trabalho resultou da colaboração com outros pesquisadores brasileiros, como Daniel Martins-de-Souza e Luís Fernando Tófoli (Unicamp), e do exterior, como Encarni Marcos, da Universidade Miguel Hernández de Elche, na Espanha.

Figura como coautora, ainda, a britânica Amanda Feilding, 76, da Fundação Beckley. A condessa, que investe há meio século em ciência psicodélica, aproximou-se nos últimos dois anos do grupo brasileiro para avançar mais rápido nas pesquisas, como narrou reportagem recente da Folha.

Para Stevens Rehen, que também é apresentador do podcast Trip com Ciência, o estudo é “um primeiro passo de uma longa jornada de pesquisas que poderá eventualmente apontar na direção do potencial terapêutico de psicodélicos, em especial o LSD, para a idade adulta e velhice”.

“Decidimos tornar o acesso público porque são dados que têm implicações importantes para a saúde de todos, especialmente dos mais idosos”, afirma Sidarta Ribeiro, autor do best seller “O Oráculo da Noite”, sobre sonhos.

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