Flávia Boggio

Roteirista. Escreve para programas e séries da Rede Globo.

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Flávia Boggio
Descrição de chapéu Todas

Silvio Santos entre o bem e o mal

Definir o apresentador como herói ou vilão é ignorar todas suas complexidades

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No último sábado, o Brasil perdeu Silvio Santos, um dos seus maiores comunicadores, se não o maior do país.

Como os brasileiros se dividem até sobre pote de sorvete, o país ficou polarizado sobre de qual lado da força estaria Senor Abravanel.

De um lado, havia homenagens a um gênio da comunicação. Do outro, acusações de que ele era uma cria da ditadura, explorador de gente humilde e que fazia da necessidade das pessoas um espetáculo.

Sou testemunha desse conflito desde a infância. Minha mãe proibia as quatro filhas de assistir à TVS, como o SBT era chamado na época. Para ela, o patrão tirava proveito dos mais simples e vendia carnês do Baú em programas infantis.

Na ilustração de Galvão Bertazzi temos uma imagem do Silvio Santos como se fosse um anjo em cima de um altar. Ele carrega no peito seu famoso microfone e exibe sobre a cabeça uma auréola de santo e um rabinho de capeta entrelaçado nas pernas. Aos seus pés sacos de dinheiro se espalham pelo desenho. Do lado esquerdo do desenho uma multidão admira aquela imagem e do lado direito do desenho uma multidão enfurecida brada contra a imagem. Uma pequena faixa flutua me frente à estátua onde se lê: São Patrão
Ilustração de Galvão Bertazzi para coluna de Flávia Boggio de 22 de agosto de 2024 - Galvão Bertazzi/Folhapress

Assistia ao SBT na casa da minha avó, que era uma grande fã do Silvio Santos. Víamos Show de Calouros, Topa Tudo por Dinheiro e Bozo, que realmente anunciava o carnê do Baú para as crianças. Um dia, segui as ordens do Bozo e pedi um carnê para minha mãe. Minha avó foi desmascarada.

Como o universo é cheio de surpresas, quando me formei em comunicação, fui trabalhar, justamente, para Silvio Santos.

Fiquei na emissora por três anos. As pessoas eram gentis, carinhosas e tinham orgulho do lugar onde trabalhavam. Era, de fato, a emissora mais feliz do Brasil.

Não trabalhei diretamente com o Silvio, mas o vi algumas vezes. Ele era solícito e bem humorado. Mas também era um chefe temperamental. Vi colegas sendo demitidos sem explicação. Alguns eram recontratados na semana seguinte, igualmente sem motivo.

Quem define um ser humano como vilão ou herói ou é uma novela ou ignora todas as suas complexidades.

Silvio Santos era um gênio da comunicação, com intuição e carisma impressionantes, mas com falhas de caráter.

Para comandar um império da comunicação no Brasil, como a história nos mostra, é preciso ser situacionista, aproximar-se de quem está no poder. Acender uma vela para Deus e outra para o Diabo.

Silvio Santos não foi o único a se curvar aos militares. Tampouco está sozinho quando se trata de fazer entretenimento com a dificuldade das pessoas ou vender falsas promessas. A diferença é que ele e sua emissora tinham a cara de sua audiência. Talvez isso explique a preferência de alguns grupos "intelectuais" em atacá-lo.

Que ele descanse em paz. Neste fim de semana, terei um debate caloroso com minha mãe.

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