Maria Hermínia Tavares

Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)

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Maria Hermínia Tavares

Os sonhos sonhos são

Centro poderoso ou esquerda radical não são respostas à extrema direita

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No debate público sobre o momento político brasileiro há duas posições diferentes em tudo —menos em matéria de desconforto diante do governo de coalizão ampla que o presidente Lula encabeça.

A primeira sustenta que o país vive tempos de polarização política e que o PT no Palácio do Planalto só faz ampliar a divisão que cinde a sociedade e faz dos brasileiros torcedores prontos para o vale tudo.

A segunda posição, reconhecendo a força da extrema direita, prega que a esquerda, dada por morta, vítima de excesso de moderação e escassez de utopia, deva ressuscitar como polo igualmente extremado, radicalmente anticapitalista.

De um lado, o sonho de consumo é ter um centro capaz de vencer nas urnas o extremismo que Bolsonaro encarna, prescindindo dos votos de Lula. Na outra ponta, acredita-se que a esquerda pura, dura —e solitária— poderia reequilibrar o jogo ao prover os destituídos de um horizonte de mudança radical.

Comércio de toalhas e de produtos relacionados à campanha política do candidato à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro (PL), na rua 25 de Março, em São Paulo, em 2022
Comércio de toalhas e de produtos relacionados à campanha política do candidato à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro (PL), na rua 25 de Março, em São Paulo, em 2022 - Rubens Cavallari - 20.out.22/Folhapress

Nenhum desses devaneios parece realizável em regime democrático, cuja própria natureza demanda capacidade de conquistar maioria eleitoral, disposição para transigir em prol de fins compartilhados.

Mais do que isso, os dois pontos de observação, como naqueles lugares de visão prejudicada dos teatros antigos, impedem seus ocupantes de acompanhar os avanços obtidos pelo tão malfalado governo de coalizão. Eles não são poucos, nem apenas imediatos, como a correção do salário mínimo ou a repaginação do Bolsa Família. Está aí a reconstrução das capacidades estatais na saúde, na educação, no meio ambiente, comprometidas pelo desgoverno de Bolsonaro.

Tem mais: o arcabouço fiscal, a primeira fatia da reforma tributária e a inclusão da perspectiva ambiental na política econômica ensejam alguma esperança no futuro. O programa Desenrola e, agora, o começo da regulamentação do trabalho por aplicativo, fora do modelo da CLT, indicam capacidade de inovação social.

Os ganhos talvez sejam menores do que as aspirações, mas são reais e ajudam a garantir ao governo níveis de aprovação semelhantes à porcentagem de votos obtidos na eleição de 2022.

Sem dúvida, o apoio à ultradireita é muito expressivo, a indicar que ela se tornou uma força política com fundas raízes sociais, agenda e discurso reacionários, aparatos para difundi-los e capacidade de mobilização em torno deles.

Seus êxitos futuros dependem de muitas incógnitas. Entre elas, o desempenho deste governo que o desenho de nossas instituições e as preferências dos eleitores fazem de coabitação entre esquerdas e direitas —e, nessa medida, inescapavelmente amplo e moderado. O resto sonhos são.

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