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'O primeiro roqueiro heavy metal foi Beethoven', diz maestro Roberto Minczuk

Regente do Municipal de SP diz que 'cidade não pode ser grande sem uma orquestra'

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O maestro Roberto Minczuk no Theatro Municipal de São Paulo

O maestro Roberto Minczuk no Theatro Municipal de São Paulo Eduardo Knapp/Folhapress

“Tem pessoas que devoram livros. Gente aficionada de videogames. Outros são cinéfilos. A minha paixão são as partituras”, diz o maestro Roberto Minczuk, 52 —pronuncia-se “Mintchuk”.

“Me dá um prazer imensurável varar a madrugada estudando uma partitura de Bach ou uma sinfonia de Mahler”, emenda o regente, que desde 2017 está à frente da Orquestra Sinfônica Municipal, do Theatro Municipal de São Paulo.

“E é um exercício de humildade. Uma partitura de Mendelssohn, de Beethoven, é uma coisa tão perfeita e genial que você fica até com medo”, afirma ele. “É uma responsabilidade tremenda. Quem sou eu para estar lidando com esse material? Fico pensando: ‘Se Brahms estivesse vivo, ou Tchaikovsky, o que eles achariam da minha interpretação deles?’.”

Minczuk completa 25 anos de carreira como maestro em 2019, o mesmo tempo que tem de vida a sua filha Rebecca, cujo nascimento se deu na manhã seguinte à noite da estreia profissional dele como regente, em 7 de março de 1994.

“Foi numa segunda-feira. Fiz um concerto de Beethoven com a Osesp [Orquestra Sinfônica do Estado de SP]. Na primeira fila estavam o Eleazar de Carvalho [maestro brasileiro], meu pai e a Valéria [mulher de Minczuk]. Ela estava no nono mês de gravidez.” 

“Durante a noite começaram as contrações. Na manhã seguinte, a Rebecca nasceu!”, lembra o paulistano, que, nascido na Vila Alpina, bairro da zona leste da capital paulista, tem outras duas filhas e um filho. 

Quinto de oito irmãos, Minczuk começou a estudar música com seu pai, um regente de coro, aos seis anos. “A grande paixão dele sempre foi a música. Quando eu era pequeno, ele percebeu o meu talento, viu que eu tinha ouvido absoluto”, lembra ele. “Me preparou para ser maestro sem eu saber [risos].”

“Às vezes ele me dava LPs para eu ouvir e produzir uma partitura a partir do disco. Eu tinha que escutar e escrever parte por parte: do violino, da viola, do violoncelo, do contrabaixo, do oboé”, conta Minczuk. 

Aos 13 anos de idade, ele foi contratado para tocar no Theatro Municipal de São Paulo. Aos 14, mudou-se para os Estados Unidos, onde ganhou uma bolsa na Juilliard School of Music. Apresentou-se no Carnegie Hall, em Nova York, e depois foi viver em Leipzig, na Alemanha, como integrante da Orquestra Gewandhaus. Nesse tempo, consolidou-se como músico profissional tocando trompa e também ganhou vários prêmios. 

Minczuk casou-se com Valéria em 1991. “Nessa época eu já tinha desencanado da carreira de maestro. Tinha dinheiro para pagar as minhas contas, logo veio a minha primeira filhinha [Natalie]. Eu estava tranquilo”, conta ele. “Mas o meu pai não se conformava. Ele vinha todo dia em casa para me dar sermão.”

“Depois de um tempo, a Valéria me falou: ‘Seu pai está certo! Você é maestro, tem que ir atrás disso’”, lembra. “Falei: ‘Se eu for fazer isso, vai ser pra valer. E, se as coisas derem certo, nossa vida vai mudar radicalmente. Porque vou ter que me empenhar, estudar, provavelmente começar a viajar, ter menos tempo para ficar em casa com vocês. Tem certeza que quer isso mesmo?” No dia seguinte, ela disse: ‘Pode contar comigo e com a família. Estamos juntos’.” 

Em seguida, Minczuk ligou para Eleazar de Carvalho, “o maior maestro que o Brasil já teve”. “E ele me deu o maior apoio, com aulas que duravam cinco ou seis horas. A grande paixão dele nos seus últimos anos era ensinar. E comecei a trajetória como maestro”, lembra o paulistano, que já regeu orquestras de diferentes países.

Hoje ele se divide entre a Orquestra Sinfônica Municipal e a New Mexico Philharmonic, nos Estados Unidos, da qual é diretor musical —e onde passa uma semana por mês. 

Para Minczuk, a ideia de que música clássica é elitista foi ultrapassada. “A gente busca a mistura [de público]. O importante é dar acesso”, avalia. 

“Um dos momentos mais importantes da minha trajetória foi um concerto que fiz com a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) no Complexo do Alemão. Apresentamos a 9ª de Beethoven. As pessoas nos abraçavam porque nunca tinham visto aquilo de perto.”

“É muito importante ir a esses lugares”, defende ele. “Porque as pessoas descobrem que é uma música de que gostam. Não precisa ser entendido. Mas você vai ouvir a 5ª [sinfonia] de Beethoven e aquilo vai emocionar. Em qualquer idade.”

A passagem de Minczuk pela OSB, de 2005 a 2015, foi marcada por uma rusga entre os músicos e ele, quando, em 2011, a instituição exigiu provas de reavaliação do corpo artístico. Por se recusarem a fazer os exames, instrumentistas foram demitidos por justa causa. No embate, o regente foi apontado como autoritário. 

“Firmeza é uma coisa necessária em todos os líderes. Mas autoritário não sou. Isso eu rebato”, diz ele. “Sou o maestro mais longevo da Orquestra Filarmônica de Calgary, no Canadá, o país mais politicamente correto do mundo!”, brinca. “Garanto que nenhum entre as centenas de profissionais que trabalharam comigo em qualquer lugar vai dizer isso [que ele é autoritário].”

Ele hoje define o episódio na OSB como “um erro muito grande de comunicação”. “Da minha parte, mas sobretudo da instituição”, afirma. “O conflito ali era completamente desnecessário. A proposta era uma agenda positiva para todos. Meu objetivo sempre é lutar pela música, pelos músicos”, diz ele. 

Na avaliação do maestro, as orquestras sofrem com a economia estagnada. “Com tantos problemas básicos que a nossa sociedade tem, a música não é uma prioridade”, diz.

“A música [de concerto] é patrocinada pelo governo no Brasil, assim como é na Europa. E tem que ser. Porque ela depende disso. Como muitas instituições artísticas que não se pagam. E, como é uma coisa muito vinculada ao governo, o que prejudica mais, assim como tudo no país, é estar muito suscetível a mudanças.” 

“Para você construir tradições, precisa de continuidade”, diz. “As cidades se comparam pelas suas instituições. E instituições musicais como uma orquestra, um teatro de ópera, um balé, são fatores de orgulho. Berlim se orgulha da sua orquestra. Assim como Chicago. E Cleveland, que tem uma pequena fração do tamanho de São Paulo e uma das melhores orquestras do mundo.”

“Uma cidade não pode ser uma grande cidade sem uma grande orquestra. Sem um grande teatro de ópera. Sem isso, será uma cidade menor.”

Minczuk lamenta a perda de espaço da música clássica na educação. “Não que todo o mundo tenha que ser músico. Mas você saber quem é o [Heitor] Villa-Lobos é muito importante. Todo cidadão tem que saber que esse foi o maior músico brasileiro de todos os tempos. [Ou quem foi] Carlos Gomes [compositor de ópera].” 

“Assim como [tem que] saber quem é o Chico Buarque, Tom Jobim. Que hoje em dia o jovem já não sabe. Nesse sentido, acho que está havendo um retrocesso na questão da cultura e da educação no nosso país.”

Ele é fã de “Star Wars” e do autor de sua trilha, John Williams. “Adoro música moderna. Sou roqueiro também. Uma das coisas mais bacanas que fiz foi reger no Rock in Rio”, lembra ele, que apresentou Beethoven. “O primeiro roqueiro heavy metal da história é Beethoven. A música dele é heavy metal total!”

O maestro se diz interessado em ouvir o que os seus filhos escutam. “Até os rappers. Tem muita coisa bacana ali. Uma mistura de coisa melódica e rítmica que é a música do nosso tempo. Tem raps muito bons, geniais. E tem outros não tão bons, que forçam a barra.”

“A forçação de barra é o que incomoda. Se você tem palavrão e aquilo de fato faz sentido num contexto, ok. Agora, se é simplesmente palavrão por palavrão, só para agredir, aí acaba incomodando mesmo [risos]. É como a nudez na arte. Se é uma coisa explícita, feita sem gosto, ela vai agredir. Se é feita artisticamente e tem uma função de comunicar de fato, [se é] uma coisa que tem qualidade, é artístico, cabe.”

Para ele, música boa é aquela que “comunica diretamente à alma”. “[Aquela] que, sem você precisar explicar, traz à tona sentimentos. Ou dá uma vontade de dançar. Que remete a uma reflexão sobre o infinito.”

“Eu adoro o que eu faço. Tenho uma disposição incansável na hora de fazer música. O prazer de poder reger, sabe? E poder ficar orgulhoso: ‘Acho que Beethoven ficaria muito feliz de ter ouvido esse concerto’.”

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