Ruy Castro

Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras.

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Ruy Castro

De assustar

Um maestro-robô regeu uma orquestra; pode ser uma amostra do que nos espera

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Os robôs saltaram de vez da ficção científica para a realidade. E chegaram para o bem e para o mal: fabricar automóveis, desarmar bombas, vasculhar navios afundados, prospectar Júpiter, realizar microcirurgias, disparar mentiras em massa por WhatsApp, desempregar gente. Alguns são robôs humanoides, equipados com cabeça, tronco e membros —um destes, em breve, viril—, e tudo o que lhes é dado a fazer fazem bem. Tudo o que puder ser feito pelo manual, claro.

Significa que, por enquanto, eles só são capazes de interpretar comandos que, por mais complexos, sejam previsíveis e repetitivos. Não chega a ser um defeito, porque a maioria dos humanos também funciona assim. Mas como se comporta um robô ordenado a desempenhar tarefas sujeitas à mais rica das variáveis, a emoção? 

Pensei nisso outro dia ao ler que, no Emirado de Sharjah, um robô humanoide, montado numa grua, foi posto para reger uma nova ópera, “Beleza Assustadora”, do vanguardista japonês Keiichiro Shibuya. A performance está na internet e assisti-la é também assustador.

Um maestro humano rege não só a música que está sendo produzida, mas a emoção de seus músicos —seu respeito pela obra deve ser total, controlando do primeiro violino ao último címbalo. Mas o que acontece quando o maestro se empolga e se descontrola? Pela avaliação de Kotobuki Hikaru, técnico do maestro-androide estreante, o bicho extrapolou. Alterou como quis o andamento, o volume e a dinâmica da composição, obrigando os músicos a rebolar para acompanhá-lo. Abusou de contorcionismos com os braços e mãos e fez o que nem o frenético Leonard Bernstein ousaria fazer: aos giros da grua, deu as costas à orquestra e regeu a plateia. Por fim, ele próprio começou a cantar.

Se fosse um maestro humano, teria sido corrido do palco aos primeiros compassos. Mas androides podem tudo, e o vanguardista Shibuya adorou. Pior para a música.

Maestro-androide, durante concerto de orquestra em Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos
Maestro-androide, durante concerto de orquestra em Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos - Satish Kumar - 31.jan.20/Reuters

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