Tipo lenhador fit, novo prefeito de SP se rebela contra visual de Doria

Bruno Covas recicla a roupa de herdeiro político e o tom de rebeldia adolescente

Foto mostra Bruno Covas usando gravata, item rejeitado por Doria, em seu primeiro pronunciamento como prefeito, na última segunda (9), na Prefeitura de São Paulo
Bruno Covas usou gravata, item rejeitado por Doria, em seu primeiro pronunciamento como prefeito, na última segunda (9), na Prefeitura de São Paulo - Bruno Rocha - 9.abr.2018/Fotoarena/Agência O Globo
Pedro Diniz
São Paulo

Bruno Covas, 38, foi adolescente roqueiro nos anos 1990. Camiseta de banda, cabelos compridos e jeans largados compunham o visual do neto do ex-governador tucano Mario Covas (1930-2001).

Mais de duas décadas, 16 quilos a menos e uma fase cosplay do antigo chefe João Doria (PSDB) depois, Covas recicla a roupa de herdeiro político e o tom de rebeldia da adolescência.

Seus ídolos quebravam guitarras, ele quebrou pedras, com enxada na mão, logo no primeiro ato público vestido como prefeito da capital, no sábado (7).

Despido do uniforme marqueteiro que Doria lhe impôs quando acompanhou as fantasias de gari, pedreiro e agente de trânsito do neófito, o ex-deputado estadual faz a linha lenhador fit.

Bíceps de fora, pulseira de contas, jeans, barba e corridas no parque Ibirapuera. O pacote imagético vendido pelo jovem prefeito é comparável ao de empresário moderno que o ex-chefe tentava colar. Um raio-x de suas primeiras horas no comando, porém, revela nuances da troca de poder.

Covas se descolou do possível candidato ao governo do estado quando usou uma gravata laranja para a posse, na segunda-feira (9). O primeiro look oficial se rebela contra a cartilha lançada por Doria, em 2017, que obrigava sua equipe a abolir o acessório.

Ao mesmo tempo, a escolha do cinza claro para a cor do costume destoa dos tradicionais preto e marinho vistos em cerimônias oficiais. A roupa, nesse caso, ratifica a jovialidade que Covas tenta promover ao publicar fotos correndo com camiseta do Deep Purple e posando sem camisa em uma praia da Croácia. 

Até a grife da camiseta polo que virou marca do ex-prefeito ele mudou. No ato em que empunhou a enxada, o jacaré da Lacoste substituiu o jogador de polo bordado na peça Ralph Lauren de que Doria tanto gostava.

Discreto mesmo quando circulavam rumores sobre a relação desidratada que mantinha com Doria, o prefeito agora fala alto por meio do armário vinculado à imagem do político que sempre disse ser, distante do discurso “outsider” do antecessor. 

Político mais alinhado à casta hipster —o lenhador barbado e de camisa justa é figura-chave dessa estética— do que à do mercado financeiro.

“Covas simboliza a possibilidade de o partido falar com essa geração que faz selfie na praia e vai para a balada”, diz o estilista e doutor em semiótica Mário Queiroz, especializado em imagem masculina.

Para ele, o prefeito vai além do marketing político, porque sabe que “a geração da imagem, da autopromoção virtual, presta mais atenção na foto do que na fala”. “É poderoso o fato de ele assumir a calvice, emagrecer e usar barba. Os políticos simbólicos do partido nunca fariam isso.”

Ele afirma, porém, que “muitas vezes a mudança não significa modernidade ou a essência de algo, mas sim um aspecto da persona política”.

Responsável pelo departamento de cultura e consumo da ESPM, o professor Fabio Mariano, que conhece Covas, diz estar a par de bastidores da mudança de governo.

Ele afirma que o PSDB vê com bons olhos a imagem de um correligionário “crescido em ambiente politico, que domina as articulações e, além de se mostrar mais arrojado, é comedido em suas atitudes”.

“A mudança não é estratégica. Ele não mudou visando candidatura. Foi uma escolha pessoal que, claro, deve ser aproveitada”, diz Mariano.

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