Bebê é atingido por bala perdida dentro de escola particular no Rio

A criança de seis meses estava no colo da mãe quando foi baleada no ombro

Tropas das Forças Armadas durante operação na favela da Rocinha, zona sul do Rio de Janeiro
Tropas das Forças Armadas durante operação na favela da Rocinha, zona sul do Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli/Folhapress
Martha Alves Marcela Lemos
São Paulo

Um bebê de seis meses foi atingido por uma bala perdida no ombro dentro de um colégio particular na região do Cosme Velho, zona sul do Rio, por volta das 20h desta segunda-feira (14).

O bebê estava no colo da mãe no pátio do Colégio São Vicente de Paulo quando foi baleado. Ele está internado no Centro Pediátrico da Lagoa em estado estável, passou por cirurgia na tarde desta terça (15) e está bem.

Segundo a Polícia Militar, não havia confronto entre militares e criminosos na região no momento em que a criança foi baleada.

A mãe dele esperava o outro filho, de 6 anos, terminar uma atividade física na quadra da escola. Ao perceber o bebê ensanguentado, a mãe entrou em um táxi e buscou atendimento em um hospital em Botafogo, também na zona sul.

Segundo a assessoria de imprensa do hospital, a bala estava alojada próxima à medula, mas não foi constatado nenhuma perda de movimento dos membros superiores ou inferiores. Ele será mantido no CTI (Centro de Tratamento Intensivo) por pelo menos 48 horas para avaliação médica. 

Na manhã desta terça, o Colégio São Vicente de Paulo, informou que não houve registro de confronto no entorno da escola. De acordo com o comunicado publicado no site da instituição, o bebê foi vítima de bala perdida.

"As observações preliminares feitas pelos agentes policiais que aqui estiveram apontam para uma situação, infelizmente, comum em nossa cidade, de bala perdida, oriunda não se sabe de onde, na medida em que não há registro de qualquer ação envolvendo troca de tiros no entorno do olégio", afirmou a escola, que é particular.

Ainda no comunicado, o colégio destacou a atual situação da segurança no estado. "Estamos imersos numa sociedade que tem vivido em meio a polarizações e à violência generalizada, com tiroteios espalhados por diversos locais, roubos e furtos em proporção imensurável, o que nos leva a evocar as palavras de São Vicente de Paulo, Patrono dessa Casa: É preciso passar do amor afetivo ao amor efetivo", diz outro trecho na nota.

Agentes da Polícia Civil estiveram na tarde desta terça-feira no colégio para ouvir testemunhas e coletar informações que ajudem a desvendar de onde partiu o tiro que atingiu o bebê. Um dos objetivos é identificar a trajetória da bala. Investigações preliminares indicam que o projétil estava em ângulo descendente, ou seja, provavelmente foi um disparo dado para o alto que já estava no movimento de queda livre, caindo e ficando alojado no ombro da vítima.

15 CRIANÇAS

Ao menos 15 crianças de até 11 anos foram atingidas por balas perdidas no estado do Rio de Janeiro somente neste ano. O dado é do Fogo Cruzado, laboratório de dados que mapeia por meio de aplicativo os registros de violência. Foram seis casos no mês de fevereiro, quatro em março, outros quatro em abril, e um em maio. Das 15 vítimas, quatro morreram.

Além do bebê Caique, Maria Gabriela, de 11 anos, foi ferida dentro de uma unidade escola no bairro de Cavalcanti, na zona norte da cidade.

De acordo com parentes da menina, aluna do 6º ano da Escola Municipal Espírito Santo, ela estava no pátio da escola se preparando para a aula de Educação Física quando foi atingida por uma bala perdida no braço direito. A criança foi operada no hospital Salgado Filho, no Méier. Ela já recebeu alta da unidade.

A menina Brenda Valentim Alves de Oliveira, de 2 anos e meio, baleada em 31 de março, estava sentada no banco traseiro do carro da família quando foi atingida. O crime ocorreu em Conceição de Jacareí, em Mangaratiba, na Costa Verde fluminense. A criança chegou a ser levada para o hospital, mas morreu.

Quinze dias antes foi morto, o menino Benjamin, de 1 ano. Ele foi ferido durante confronto entre PMs e traficantes no Complexo do Alemão, na zona norte. Ele estava com a mãe, em um carrinho de bebê, quando foi atingido na cabeça.

Em 24 de fevereiro, foi baleado e morto o menino Marlon, de 10 anos, no Pavão Pavãozinho, favela da zona sul carioca. Ele foi atingido quando brincava na laje de casa e chegou a receber atendimento médico. Um adolescente de 17 anos foi apreendido. Em depoimento, ele alegou que o disparo ocorreu de forma acidental.

Antes dele, Emilly Sofia Neves, de 3 anos, morreu após ser baleada durante tentativa de assalto em Anchieta, zona norte. A criança foi atingida quando criminosos tentaram roubar o carro em que os pais dela estavam. O casal também ficou ferido. A criança chegou a ser levada para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Ricardo de Albuquerque, mas não resistiu.

No último sábado (12), o Rio registrou a primeira morte provocada por militar desde o início da intervenção federal na segurança pública, iniciada em fevereiro após a escalada de crimes.

Diego Augusto Ferreira morreu após ter sido baleado por um soldado na rua Salustiano da Silva, em Magalhães Bastos, zona norte da capital.

Segundo o CML (Comando Militar do Leste), Ferreira tentou furar um posto de bloqueio e controle do Exército e foi atingido por tiros.

A morte de Ferreira não foi registrada na Delegacia de Homicídios nem comunicada ao Batalhão da Polícia Militar da região. O caso é investigado por um IPM (Inquérito Policial Militar).

MEDO DA VIOLÊNCIA

Pesquisa Datafolha em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela que nove em cada dez moradores da cidade do Rio têm medo de tiroteio, bala perdida ou de morrer em um assalto. Também mostra que um terço da população esteve no meio de um confronto nos últimos 12 meses.

A pesquisa, realizada de 20 a 22 do mês março, aponta que 73% dos moradores do Rio gostariam de deixar a cidade por causa da violência. E indica exatamente o que os moradores da capital temem.

O medo está em todas as partes da cidade. Moradores de favelas ou de outras áreas temem da mesma forma estar em um tiroteio, ser atingidos por bala perdida e morrer ou se ferir em um assalto.

Entre esses dois grupos, a principal diferença está no medo de ser vítima de violência das polícias, ser acusado de um crime e ter um filho preso injustamente.

Segundo o levantamento, com margem de erro de três pontos percentuais para mais e para menos, ter objetos de valor tomados à força num assalto, morrer assassinado, ser vítima de fraude, ter o celular roubado e ter sua casa invadida são situações temidas por 84% a 89% dos entrevistados.

Quando se fala em estar no meio do fogo cruzado entre bandidos e polícia, a diferença entre o receio e a concretização desse temor é estreita: 39% acreditam que há muita chance de isso acontecer, enquanto 30% estiveram de fato nessa situação no último ano. Três em cada quatro ainda relatam ter ouvido um tiroteio nesse período.

Segundo Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as respostas refletem as particularidades da violência no Rio em comparação com outras cidades.

Para Samira, alguns dos temores de moradores do Rio são similares ao da população do resto do país, como ter a casa invadida, se envolver em brigas e receber uma ligação de bandidos exigindo dinheiro.

“Mas, no Rio, o medo é mais difuso. As pessoas têm medo mesmo em lugares onde deveriam se sentir seguras, como em casa. Vemos isso na proporção de pessoas que temem ser vítimas de bala perdida [92%]", disse.

UOL

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