Assassinada, PM 'Sorriso' era festeira, elogiada por chefes e queria ser da PF

Centenas foram a enterro de soldado morta em SP, incluindo ex-namoradas

Enterro da PM Juliane dos Santos Duarte, em SP
Enterro da PM Juliane dos Santos Duarte, em SP - Marina Estarque/Folhapress
Marina Estarque
São Paulo

"Sorriso, ô, sorriso!”, chamavam alguns dos amigos da policial militar Juliane dos Santos Duarte, 27. A PM ganhou o apelido pela simpatia e bom humor rotineiros. 

“Com ela não tinha tempo ruim”, afirmam, repetidas vezes, os amigos e ex-namoradas, que compareceram ao enterro da PM nesta terça-feira (7), no cemitério municipal da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. 

A PM estava desaparecida desde quinta-feira (2). Ela foi vista pela última vez na favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. O corpo foi encontrado na noite desta segunda-feira (6)

“Eu dizia que antes dela, chegavam os dentes dela, porque ela tinha aquele sorrisão. Se você estava triste, ela te levantava”, descreve a estudante Patrícia Silva, 30, amiga de Juliane e da família há dez anos. 

A soldado dos bombeiros Uilca Silva, 28, amiga da policial, disse que ela “adorava uma bagunça”. “A Ju era alegre pra caramba”. As duas fizeram o treinamento juntas e dormiram no alojamento militar por seis meses. “Ela nos acordava todo dia com rock”, lembra Uilca.

Parentes e amigos emocionados em enterro da policial Juliane dos Santos Duarte, 27, nesta terça (7), em São Bernardo do Campo - Robson Ventura/Folhapress

Os amigos contam que Juliane era ótima dançarina de forró e sertanejo, tocava diversos instrumentos e adorava cantar.

“Ela tocava violão e bongô, que ela levava na moto para todos os lugares. Na dança, guiava muito bem, eu era sempre a dama, e ela, o melhor cavalheiro”, conta o amigo João Pedro Michelini, 23, que trabalha com próteses.

Durante o velório, os amigos combinavam de comemorar o aniversário da Juliane, em 21 de agosto, e de “beber até se acabar”.

“Ela era festeira, ia querer assim. Deve estar embebedando os anjos no céu”, comentou a auxiliar administrativa Thaiany Iafrate, 24, amiga da policial.

Várias ex-namoradas de Juliane foram ao enterro. Muitas disseram que era impossível guardar mágoa dela. “Não tinha como não gostar da Ju”, resume uma das ex, a empresária Karina, de 24 anos.

“Tudo era festa, ela topava qualquer programa”, conta outra ex, a caixa Laysla Carvalho, 24.

Segundo os amigos, a policial era “namoradeira”. A mãe reconhece: “ela era muito requisitada e não deixava por menos”, diz Cleusa dos Santos, 57.

Mas, no momento, não estava em nenhum relacionamento sério, afirma a mãe. “Ela disse que não queria se distrair, porque precisava se dedicar ao trabalho. Ela queria estudar para sargento, tenente e depois para a PF”, conta.

A policial morava com a mãe, que sofre de câncer na medula óssea, e sustentava a casa. “Ela mantinha tudo. Quando recebeu um bônus de R$ 4.200, ficou com R$ 200 para ela e me deu o restante”, conta Cleusa.

Apesar de festeira, como soldado, Juliane era vista pelos chefes como séria e exemplar. Afirmava para os amigos que sua missão era ajudar e proteger as pessoas, e por isso tinha entrado para a polícia.

“Era muito ativa e prestativa. Fora do normal. Ela queria subir na carreira e já tinha experiência na GCM. Era um profissional com algo a mais”, diz seu chefe no policiamento, o sargento Gilson Aparecido Noccioli.

“Ela tinha um comportamento excelente, cumpridora das normas, companheira e prestativa”, afirma seu comandante, o tenente coronel Marcio Necho da Silva.

A sua vontade de ajudar os outros incluía também os animais de rua, como cães e gatos. Levava os bichos para casa, cuidava e depois doava. Dos muitos animais que adotou, manteve duas gatas.

“Ela se preocupava muito com todos”, conta Karina. “Mas também era teimosa e quando ficava brava era insuportável”, conta, aos risos.

Muitos dos amigos presentes no enterro disseram que Juliane era muito discreta sobre a sua profissão. Eles estranharam a versão de que a policial teria se identificado na favela. “Ela nunca faria isso. Ela nem ia a comunidades. Antes de ir a um lugar, procurava no Google para saber se era seguro”, diz Michelini.

No enterro, que ocorreu por volta das 16h, centenas de policiais fizeram uma homenagem e cantaram o hino da corporação. Agradeceram pelo trabalho da policial e encerraram com um Pai Nosso. Ao final, um dos familiares exclamou: “Vai com Deus, Ju, você combateu o bom combate”.

 

Investigação

O secretário estadual da Segurança Pública, Mágino Alves, esteve no velório da PM. Ele disse que a investigação tem avançado e há um suspeito preso. “A investigação tem uma boa linha já em andamento”, ao citar as participações das polícias Civil e Militar. 

Segundo ele, o suspeito está preso temporariamente, mas há outras linhas de investigação. Na tarde de domingo (5), um homem tentou fugir após sair de um barraco e se deparar com policiais. Foi pego pelo COE (Comando de Operações Especiais), da Polícia Militar.

O secretário da Segurança Pública disse ainda que uma nova resolução será publicada com recompensa de até R$ 50 mil por informações sobre a autoria do crime —na segunda-feira (6), o Governo de São Paulo já havia prometido a quantia por pistas que ajudassem a localizar a policial militar.

“Nós estamos muito empenhados e não vamos sair daquela comunidade até o momento que tivermos pacificado a situação por lá”, afirmou, numa referência à presença de policiais na favela de mais de 60 mil habitantes (eram 62 mil em contagem feita em 2012). 

O secretário disse que a policial, mesmo de férias, atuou como policial e foi assassinada por esse motivo. “Nós ainda não temos o exato retrato do que aconteceu naquele momento, mas tudo indica que ela interveio em uma situação visando sanar uma quebra de ordem. Ela era uma policial treinada, com uma ficha impecável, não tem por que achar que ela teria um comportamento inadequado para um policial."

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