Justiça decreta prisão de suspeito de matar médico criador das carretas da saúde

Roberto Kikawa inovou ao levar atendimento a pacientes do SUS em unidades móveis que rodam país

Rogério Pagnan
São Paulo

A Justiça de São Paulo decretou a prisão temporária de Luciano Silva Moreira, 18, suspeito de ter participado da morte do médico Roberto Kikawa, 48, assassinado na noite de sábado (10) durante um assalto no bairro Ipiranga, na zona sul da cidade.

Moreira continua foragido e equipes da Polícia Civil tentam localizá-lo.

Luciano Silva Moreira, 18, suspeito de ter participado da morte do médico Roberto Kikawa
Luciano Silva Moreira, 18, suspeito de ter participado da morte do médico Roberto Kikawa - Divulgação

O primeiro crime atribuído a Moreira que consta nos registros policiais aconteceu em 2012, quando ele tinha 11 anos: participou de um roubo na região de Heliópolis (zona sul) com dois adolescentes, portando um simulacro —arma falsa.

As vítimas do crime disseram que estavam no veículo quando foram cercadas pelo grupo. Moreira teria ameaçado atirar em uma mulher de 44 anos, batendo no vidro com a coronha da arma de brinquedo.

Como não tinha 12 anos completos ainda, Moreira foi liberado pela mãe, e os colegas foram encaminhados à Fundação Casa. Desde então, o rapaz foi flagrado outras nove vezes como suspeito de roubos, sempre envolvendo veículos.

De acordo com o delegado Wilson Roberto Zampieri, titular do 17º DP, um telefonema anônimo levou os investigadores a suspeitar do envolvimento de Moreira com o crime contra Kikawa. 

O delegado disse ainda que a mãe e a avó de Moreira, moradoras de Heliópolis, confirmaram ser o rapaz nas imagens. “A mãe disse ter expulsado ele de casa porque temia que mal maior pudesse acontecer. E aconteceu”, disse ele.

Além da família, a polícia diz que o suspeito também foi reconhecido pelas testemunhas do crime, a funcionária e a filha dela, que estavam dentro do veículo no momento dos disparos. “Reconheceram imediatamente. Até choraram quando viram o rosto dele”, disse Zampieri.

O delegado afirmou ainda que está descartada a participação do menor apreendido em Minas Gerais na terça-feira (13).

O comparsa de Moreira seria outro adolescente, conhecido na região de Heliópolis como Fino ou Fininho, que também está sumido.

“Acreditamos que o Luciano esteja na favela. A avó dele disse que ele não tinha dinheiro para fugir e possivelmente estaria com a mesma roupa. A avó tentou convencê-lo a se entregar, mas ele não concordou. ‘Sou maior de idade, agora sobra pra mim, vó'”, disse o policial.

O local do latrocínio tem alta incidência de crimes, mas é bem policiado, segundo o delegado. Tanto, conta ele, que minutos antes de a dupla tentar roubar o médico, PMs abordaram dois suspeitos a poucos metros de onde o carro de Kikawa estava estacionado.

MÉDICO FUNDOU CIES

Gastroenterologista, Kikawa fundou o Cies Global em 2008 para levar atendimento médico especializado a comunidades carentes. Integrante das redes Schwab e Folha, Kikawa foi reconhecido como vencedor do Prêmio Empreendedor Social 2010 por inovar com unidades móveis de exames em carretas.

Por volta das 23h, ele voltava de um jantar com sua equipe em uma pizzaria e deixava uma funcionária em casa. Quando o carro estava parado em frente ao prédio na rua do Manifesto, ele foi abordado por dois rapazes com arma em punho.

Ordenaram que o médico saísse do Jeep Compass. Como era de seu feitio, Kikawa começou a descer do veículo e pediu calma aos assaltantes. "Você é polícia?", reagiu um deles, enquanto o outro gritava: "Atira, atira."

O primeiro disparo atingiu a axila. O segundo, o abdômen. Os assaltantes saíram correndo a pé, enquanto testemunhas chamavam a ambulância para socorrer Kikawa. Levado ao Hospital Ipiranga, ele chegou sem vida.

Enterro do médico Roberto Kikawa, no cemitério da Consolação, centro de São Paulo - Nelson Antoine/Folhapress

Em São Paulo, o Cies foi responsável por 54% dos exames de imagem com médicos especialistas feitos em 2017 pelo Sistema Único de Saúde.

"O SUS é viável", afirmou em sua última entrevista concedida à Folha durante o Fiis (Festival de Inovação e Impacto Social), na segunda (5). "É importante que a gente entenda o SUS, de ter essa rede integrada. Nada adianta eu trazer uma carreta para fazer uma mamografia, detectar o nódulo, e essa pessoa ficar frustrada e falar: 'Tá bom, doutor, o que faço com isso?'."

Kikawa participou ainda do painel Saúde e Inclusão e falou para colegas da Rede Folha e representantes de ONGs de saúde da América Latina, reunidos do Fórum de Melhores Praticas para o Terceiro Setor da Saúde, na segunda (5).

Destacou o papel do terceiro setor no fortalecimento da saúde pública: "A gente é ponte e precisa trazer governo e iniciativa privada junto, para uma gestão eficiente e respeitosa."

Paulistano, Kikawa escolheu a carreira na medicina ainda na infância, quando era escoteiro e aprendeu a cuidar de pessoas. Começou a jogar xadrez motivado pelo pai, que foi sua grande inspiração e incentivador. Durante o período da faculdade em Londrina (PR), o progenitor teve câncer.

Kikawa conseguiu acompanhar o tratamento em São Paulo por causa de uma greve no campus. A despedida foi a maior motivação da sua vida: "Quero que você me prometa que será um médico amoroso, que entenda bem o doente", disse o pai na última conversa com o filho doutor.

Após o adeus e de volta ao Paraná, Kikawa decidiu cursar teologia para ser missionário na África, mas uma grave infecção renal o impediu. A carreira como cirurgião-geral também foi interrompida, desta vez por uma condição crônica, que causava tremores nas mãos. Ainda assim, Kikawa mantinha sua firmeza de propósito. E virou um dos maiores especialistas em endoscopia do país.

No Hospital Sírio-Libanês, voltou sua atenção aos pacientes sem perspectivas de cura. E descobriu as "Áfricas" da periferia paulistana. Abandonou a carreira promissora na medicina privada para se tornar um empreendedor social reconhecido mundialmente.

Surgiu, assim, a ideia do sistema móvel para exames preventivos, que evoluiu para unidades que também realizam cirurgias. Ele lançou oficialmente na semana passada no Fiis, em Poços de Caldas, uma nova tecnologia social patenteada nos Estados Unidos: o hospital lego, montado em contêineres que funcionam como centros cirúrgicos, salas de exames e consultórios.

Roberto Kikawa deixa a mulher, a oftalmologista Mirna, 47, e dois filhos, Daniel, 15, e Ana, 13. Desde fevereiro do ano passado, a família vivia em Atlanta, nos Estados Unidos, onde o brasileiro implantava o Cies, em um processo de internacionalização do modelo testado no Brasil. Kikawa, desde então, se dividia e passava 15 dias aqui e o restante do mês nos Estados Unidos.

Ao longo de uma década como empreendedor social, o médico deixa um legado de mais de 2 milhões de pacientes do SUS acolhidos nas centenas de unidades móveis e modulares do Cies Global. Homem de fé e missionário da saúde, ele planejava chegar à África em 2019, quando iria inaugurar uma unidade em Abuja, capital da Nigéria.

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