Incêndio no CE destrói kits de irrigação contra seca; prejuízo é de R$ 4 mi

Equipamentos destruídos atenderiam ao menos cem famílias da cidade de Marco

Carlos Madeiro
Maceió | UOL

Um dos ataques comandados por facções criminosas no Ceará nos últimos dias causou problema para pequenos produtores que lutam contra os efeitos da seca cearense. Um incêndio destruiu cerca de 100 kits de irrigação que estavam em um depósito do órgão federal Dnocs (Departamento Nacional de Obras de Combate às Secas) em Marco (223 km de Fortaleza) e atenderiam ao menos cem famílias que se instalariam na região.

Desde a última quarta-feira (2), o Ceará tem sofrido uma onda de atentados promovidos pelas facções criminosas PCC, CV e GDE. As ações seriam uma represália ao anúncio feito pelo governo estadual de deixar de dividir os presos por facção nas cadeias cearenses. Até esta terça-feira (8), 185 pessoas haviam sido presas, segundo o governo.

Depósito do órgão federal Dnocs (Departamento Nacional de Obras de Combate às Secas) em Marco (223 km de Fortaleza) fica destruído após incêndio ocorrido no sábado (5)
Depósito do órgão federal Dnocs (Departamento Nacional de Obras de Combate às Secas) em Marco fica destruído após incêndio ocorrido no sábado (5) - Divulgação/Dnocs

O ataque ao Distrito de Irrigação do Perímetro Baixo Acaraú ocorreu por volta das 22h40 do sábado (5) e atingiu praticamente todos os equipamentos que estavam em um galpão destinado a guardar kits que seriam entregues a produtores que assumem pequenas áreas de 8 hectares no local.

Técnicos do Dnocs ainda estão realizando um levantamento do prejuízo total, mas já se sabe que cerca de 100 kits foram inutilizados ou por destruição total, ou de partes necessárias para sua montagem. Cada kit desse está avaliado em torno de R$ 40 mil. O prejuízo deve superar a casa dos R$ 4 milhões, entre a perda dos kits e do prédio onde eles estavam.

O distrito do Baixo Acaraú é um dos maiores perímetros irrigados do país e tem 534 lotes, divididos entre os menores (de 8 hectares para pequeno produtor), médios (para técnicos, de 16 a 20 hectares) e grandes para empresários (sem tamanho máximo). Hoje, 349 desses lotes estão ativos, ocupando uma área de 3.124 hectares. É graças à irrigação que trabalhadores rurais conseguem produzir em épocas de estiagem na área.

Os kits de irrigação são repassados a pequenos produtores em condições financiadas pelo órgão, que dá até 20 anos para pagamento.

A área irrigada em Marco retira água do açude Araras, que hoje está com 19% dos 859 milhões de m³ que tem disponibilidade.

MATERIAL INFLAMÁVEL

Segundo o gerente-executivo do distrito, Roberto Bastos Cadengue, o material que compõe os kits é altamente inflamável, o que facilitou a propagação das chamas. 

"O perímetro fica em uma área rural aqui de Marco. Quando o vigia passou, viu só o clarão. Aí já era tarde, percebeu que não ia mais conseguir apagar o fogo. O Corpo de Bombeiros fica ao lado do distrito, e eles ficaram até 5h da manhã do domingo apagando o fogo", conta. "Os criminosos ainda tentaram queimar os veículos que tínhamos --como tratores, caçambas--, mas não conseguiram".

Segundo o gerente, a destruição do galpão foi completa e alguns poucos itens escaparam do fogo. "Teve uma parte ainda que conseguimos salvar equipamentos. Mas os kits têm muitas peças. Para você ter ideia, são três páginas a lista de equipamentos, como canos, aspersores, mangueiras. É um kit completo, sem as partes queimadas não conseguimos mais instalar nenhum hoje", diz.

A polícia ainda não prendeu ninguém pelo atentado e segue em busca de suspeitos.

HISTÓRICO

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança, o Ceará foi, em 2017, o terceiro estado do país com mais mortes violentas. A taxa foi de 59,1 mortos a cada 100 mil habitantes. À frente do estado estiveram apenas Rio Grande do Norte (68) e Acre (63,9).

Em 2018, segundo dados divulgados pelo estado, houve queda de 10,5% na taxa de homicídios entre janeiro e novembro de 2018, comparado com 2017.

Mesmo assim, no ano passado ocorreu a maior chacina da história do Ceará, com 14 mortos durante uma festa na periferia de Fortaleza, em janeiro, e a morte de seis reféns após ação policial para evitar assalto a dois bancos em Milagres, no interior, em dezembro.

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