Dialeto de Floripa rende dicionário, vídeos e suvenires ilustrados

Sotaque chiado, cantado e muito veloz é característico do manezinho, como são chamados os nativos da ilha

Florianópolis

“Premêro tu câmba azishquêrda, adepôsh tu câmbash ásh derêita, daí é só siguí reto toda vida...” Em outras palavras, vire à esquerda, depois vire à direita e siga em frente. Talvez turistas desavisados não consigam entender imediatamente o que dizem moradores de Florianópolis.

O sotaque chiado, cantado e muito veloz é característico do “manezinho”, como são chamados os nativos da ilha. Além da pronúncia peculiar, um misto da herança histórica da colonização açoriana e da cultura pesqueira na cidade litorânea, o “manezês” reúne uma série de expressões e palavras próprias, como “bucica” (cadela, a fêmea do cachorro), “boca mole” (idiota) e “istepô” (o do contra, que se opõe a tudo).

Frase "Dá désh pilinha aí" no dialeto manezês
Frase "Dá désh pilinha aí" no dialeto manezês - Reprodução

A fim de resgatar e divulgar a identidade “manezinha”, o designer catarinense Douglas Ferreira, 33, fundou o “Dezarranjo Ilhéu” no Facebook em setembro de 2014. Hoje, a página conta mais de 118 mil fãs. Em janeiro de 2016, entrou no YouTube, somando mais de 2,3 milhões de visualizações desde a estreia. 

O designer produz vídeos ilustrados que destacam o cotidiano e a cultura local com bom humor. Ele escreve os roteiros, ilustra, dubla as diferentes vozes e edita —os vídeos são “legendados”, o que ajuda a compreensão para marinheiros de primeira viagem. “Escrevo as histórias a partir das lembranças da minha infância e adolescência na década de 1990, resgatando personagens tradicionais como benzedeiras, peixeiros e rendeiras”, diz Douglas, que vem de uma família de pescadores do norte de Florianópolis. 

Ao lado do amigo e administrador Matias Althoff, 32, o designer transformou o projeto em negócio. Os sócios começaram a produzir suvenires como azulejos, canecas e camisetas com as ilustrações do Dezarranjo Ilhéu para participar de feiras tradicionais de artesanato. Segundo Matias, a ideia é posicionar a capital catarinense no mapa. “Você vê a previsão do tempo na TV: sempre se cita Porto Alegre e Curitiba, e ninguém lembra de Florianópolis”, exemplifica.

Em fins de julho deste ano, eles abriram uma loja própria. “Vem atraindo turistas, mas muitos manezinhos também, que nos últimos tempos voltaram a se orgulhar de suas origens”, diz Matias. Antigamente, manezinho era uma expressão pejorativa, como alguém simplório. A partir dos anos 90, com o destaque internacional do tenista Gustavo Kuerten (campeão de Roland Garros em 1997, 2000 e 2001), a interpretação do termo mudou bastante: na época, Guga se declarou manezinho com orgulho.

Em 1987, o carnavalesco Aldírio Simões lançou o Troféu Manezinho da Ilha. Em 2005, foi criado o Dia do Manezinho. “Resgatar a linguagem do falar ilhéu se tornou um tipo de resistência da cultura catarinense”, diz Fernando Alexandre, 68, autor do “Dicionário da ilha: falar e falares da ilha de Santa Catarina”. 

Radicado há mais de três décadas em Florianópolis, o jornalista alagoano reuniu 1.374 verbetes para a primeira edição do dicionário, de 1994. Tornou-se um best-seller catarinense, com mais de 57 mil exemplares. Muitos moradores na ilha passaram a procurá-lo para pedir a inclusão de novas palavras –na última impressão, de 2017, o glossário somou 3.732 vocábulos. “Para quem vem pela primeira vez à cidade, o linguajar pode parecer um ‘dialeto’. Fiz várias sessões de ‘manezês’ desde a década de 1970.

O tom, chiado e cantado, lembra o som das ondas batendo nas pedras. A junção de palavras tem um quê de Guimarães Rosa, como as expressões ‘ouvisto’ (ouvido e visto) e ‘invejume’ (inveja e ciúme). É um povo criativo, colorido e alegre”, diz Fernando. 

“Nêgo quirido” é uma das interjeições mais comuns entre os moradores mais antigos. Era o apelido do sambista Juventino João dos Santos Machado e agora é o nome oficial do sambódromo da cidade. O jornalista garante que é impossível imitar o sotaque artificialmente. “Mofas ca’pomba na balaia” –que quer dizer: você vai cansar de tentar, mas não vai conseguir.

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