Descrição de chapéu Alalaô Folha Verão

Turistas recorrem a aplicativo de carona para viajar ao litoral norte de SP

Com só uma empresa de ônibus que oferece o trajeto, cresce adeptos às viagens compartilhadas

Ricardo Hiar
São Paulo

Com a previsão de folga no trabalho durante o Carnaval, a vendedora Jéssica Oliveira Santos, 33, moradora da zona leste de São Paulo, já iniciou os preparativos para viajar ao litoral norte do estado. Ela pretende curtir a folia em Ubatuba na companhia de familiares que residem na cidade.

Para não viajar sozinha por cerca de quatro horas e para reduzir gastos ela resolveu repetir uma ação que fez outras vezes em 2018: publicou as vagas disponíveis em seu carro no aplicativo de caronas Blablacar. A ideia, segundo ela, é encontrar outras pessoas interessadas em viajar na mesma data. Jéssica diz que não é uma tarefa difícil. "Como eu vou para o litoral mais em feriados prolongados, sempre tem gente interessada em ir junto", disse.

Assim como Jéssica, o enfermeiro Roberto Martins, 26, também passou a usar o aplicativo em 2018. Por recomendação de um amigo ele deixou as viagens de ônibus que fazia para visitar os pais que se mudaram para Caraguatatuba, para ir de carro com pessoas por meio do aplicativo. 

Segundo ele, que não dirige e não tem carro, a opção das viagens compartilhadas é mais rápida e mais barata do que de ônibus. Ele diz ainda que como há apenas uma empresa que realiza o trajeto entre a capital paulista e as cidades do litoral norte, os horários oferecidos eram limitados e as viagens mais demoradas.

"Para pegar o ônibus eu tinha sempre ir à rodoviária e às vezes não achava passagem de imediato, ainda mais em feriados. Usando as caronas eu já consegui sair do meu bairro", explica o enfermeiro, que mora no Butantã.

A quantidade de turistas que têm ofertado e buscado caronas para o litoral paulista, por meio de aplicativos, tem aumentado. Apesar de não divulgar os números das caronas registradas, a empresa responsável pelas conexões informou que em 2019 o número de utilização do aplicativo para esses destinos dobrou em relação ao mesmo período do ano passado.

Pelo controle da empresa, Caraguatatuba é a cidade que recebe mais turistas por meio das caronas no litoral de São Paulo, seguido por Ubatuba. Uma viagem para os dois destinos custa em média R$ 35. Santos, no litoral sul, é o terceiro destino mais acessado. 

Para Ricardo Leite, diretor da Blablacar no Brasil, as pessoas têm optado pelo sistema de caronas principalmente por dois motivos: a economia, pois o custo da viagem é menor, e pela oportunidade de conhecer novas pessoas e não precisar viajar sozinho. 

Segundo Leite, com o aplicativo, uma viagem pode sair até 63% menor para quem oferece a carona, e cerca de 50% mais barata para o passageiro. Ele explica que o próprio sistema do aplicativo faz um cálculo de acordo com a distância e sugere um valor que o condutor pode pedir de contribuição das pessoas que transportar.

"O motorista compartilha o custo da viagem e não lucra com isso, pois há um limite desses valores. Para quem pega a carona sai mais ou menos a metade do valor que seria pago por uma passagem de ônibus", diz. 

Atualmente o Brasil ocupa o terceiro lugar no ranking de caronas do Blablacar entre os 22 países em que atua. O país tem mais de 3 milhões de inscritos.

 A gerente de vendas Neiva Rodrigues Oliveira, 51, é outra adepta do serviço. "Tanto uso, quanto ofereço sempre. Aproveito para rachar despesas e fazer novas amizades."

Ela reclama, no entanto, da postura de alguns usuários da ferramenta. "Muitos motoristas não têm muita responsabilidade e cancelam a viagem praticamente na hora da partida, deixando o passageiro na mão. Já perdi compromisso importante por conta disso", afirma.

Assim como ela, a educadora e fotógrafa Eliana Levin, 44, também diz já ter tido problemas em caronas. Ela conta que certa vez agendou para ir de Ilhabela para São Paulo, mas o veículo não estava em boas condições. O carro quebrou no meio do caminho. "Eu tinha uma consulta médica e tive que pedir carona para conseguir chegar."

Ricardo Leite explica que a empresa tenta garantir a confiabilidade dos usuários e faz uma série de exigências, como requerer documentos e informações detalhadas. Além disso, ele afirma que um ponto importante é a avaliação no perfil de cada um. Após cada viagem, tanto o motorista quanto o passageiro deve emitir uma avaliação por escrito, o que ajuda na hora de escolher uma próxima viagem.

"O aplicativo permite que você escolha com quem quer viajar. Então é possível definir o perfil que deseja, assim como de quem quer recusar".

Atualmente não é cobrada nenhuma taxa dos usuários do aplicativo, mas a empresa já estuda meios de gerar receita pelo uso no Brasil. Essas mudanças estão previstas ainda para 2019.

Quem oferece ou pega carona, além das questões de segurança, também precisa ficar atento à legislação para evitar problemas futuros. De acordo com o Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), não há infração prevista no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) que cite especificamente o uso de aplicativos de carona. Eles não são regulados pelo código. "No entanto, caso a atividade passe a ser remunerada, sem obter a devida licença para esse fim, a mesma está sujeita às penalidades previstas na legislação", afirmou em nota. 

Segundo a Artesp (agência paulista de transporte), em viagens intermunicipais rodoviárias dentro do estado, mesmo que em carro particular, se for constatado pela fiscalização que houve transação financeira e que os passageiros pagaram pela viagem, é caracterizado transporte irregular.

"A viagem será interrompida e o veículo apreendido. Os passageiros serão prejudicados pelo tempo de espera até que chegue um veículo de transportador autorizado para finalizar a viagem, cujas custas recairão sobre o condutor/responsável do veículo que realizou o serviço irregular. Este terá ainda que arcar com despesas de multa e diárias do pátio de apreensão."

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