Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Duas cidades de MG têm evacuação de moradores na madrugada por risco em barragens

Ao todo remoções preventivas afetam aproximadamente 650 pessoas

Itatiaiuçu (MG), Barão de Cocais (MG) e São Paulo

Duas semanas após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, duas outras cidades de Minas Gerais foram parcialmente evacuadas na madrugada desta sexta-feira (8) diante do risco de novas tragédias com reservatórios.

As medidas foram tomadas em Barão de Cocais, a 100 km de Belo Horizonte, e em Itatiaiuçu, na região metropolitana. 

Em Barão de Cocais, que tem 32.319 habitantes, a Vale deu início à evacuação das comunidades de Socorro, Tabuleiro e Piteiras por determinação da Agência Nacional de Mineração (ANM), após uma consultoria avaliar que a barragem Sul Superior da mina Gongo Soco não é estável.

A Walm, empresa responsável pela avaliação, negou-se a atestar a estabilidade. O reservatório que se rompeu em Brumadinho tinha o documento, e os engenheiros que o assinaram chegaram a ser presos.

A medida contemplou uma área de cerca de 500 moradores, dos quais 31 se recusaram a deixar suas residências.

A evacuação foi anunciada como uma medida preventiva. De acordo com a Vale, as inspeções no local foram intensificadas, e consultores internacionais devem fazer uma nova avaliação no domingo (10).

Em nota, a prefeitura do município afirma que os moradores foram encaminhados ao ginásio poliesportivo da cidade. A maioria deixou o local e foi para hotéis na região ou para a casa de familiares e amigos.

Com bengala e dificuldades para se locomover, a aposentada Geralda Emília dos Santos, 79, conta que acordou assustada com a sirene. Saiu às pressas com a ajuda do filho, o ajudante de pedreiro Roberto dos Santos. "Saímos de qualquer jeito, com a roupa que a gente estava." Deixaram para trás a criação de galinhas e os cachorros.

Só após um laudo apontar estabilidade é que poderão retornar para casa.

morava nas proximidades da barragem em Barão de Cocais
A aposentada Geralda Emília dos Santos, 79, e o filho Carlos Roberto; ela mora nas proximidades da barragem em Barão de Cocais - Geórgea Choucair/Folhapress

O nível de classificação de risco da barragem está em 2. O próximo, 3, seria o rompimento. A avalanche de rejeitos poderia alcançar uma distância de 11 km, causando destruição na zona rural da cidade.
Na classificação da ANM, a barragem tem o risco enquadrado como baixo e o dano potencial como alto --ambos iguais aos de Brumadinho. Trata-se de uma das dez barragens à montante inativas da Vale, que deverão ser desativadas.

A outra cidade parcialmente evacuada nesta sexta-feira (8), foi Itatiaiuçu, com 11.037 habitantes. Cerca de 150 moradores foram acordados por bombeiros e policiais militares por volta das 2h30. Os agentes passaram de casa em casa, por 54 residências, avisando sobre a evacuação com a sirene das viaturas ligadas.

O alerta foi dado após a mineradora ArcelorMittal informar às autoridades que a avaliação de risco da barragem de rejeitos de Serra Azul havia mudado do nível 1 para o 2. O sistema de sirenes da barragem não foi acionado.

​Segundo o capitão Herbert Aquino, da Defesa Civil de Minas, a intenção era não causar mais pânico após a tragédia de Brumadinho. Ele diz que a evacuação foi uma medida de prevenção da empresa, que teria usado uma metodologia mais rigorosa de avaliação.

Com o alerta, os moradores se dirigiram para ruas em áreas mais altas, incluindo uma praça às margens da rodovia Fernão Dias. O caseiro Antônio Evêncio, 48, diz que foi acordado pelo sobrinho batendo em seu portão. "Ele falou 'corre que vai estourar a barragem'. Pensei logo em Brumadinho", contou.

A barragem da ArcellorMittal está desativada desde 2012. Tem 3,8 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro e 89 metros de altura.

Assim como a de Brumadinho e a da Vale em Barão de Cocais, também tem classificação de baixo risco de incidentes e alto dano potencial. Seu método construtivo também é à montante —é a única da empresa com esse modelo.

A mineradora afirma que decidiu pela evacuação diante de inspeção e auditoria minuciosos realizados após a tragédia em Brumadinho. Em caso de colapso, os rejeitos chegariam a uma distância de 4 a 5 km.

A comunidade esvaziada está a 5 km. "A empresa concluiu que não se pode correr absolutamente nenhum risco e que, apesar do transtorno para a comunidade, esta é a decisão correta", disse em nota. 

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Promotoria pede que patrimônio histórico seja tirado de cidade

A mineradora Vale foi acionada pelo Ministério Público de Minas Gerais para que retire, em caráter de urgência, todos os bens históricos móveis na área que possa ser atingida por um possível rompimento da barragem em Barão de Cocais (MG).

O Iepha (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais) lista 18 bens históricos e arqueológicos tombados pelo município, estado ou União no município. Entre eles, estão igrejas setecentistas e o sítio arqueológico de Gongo Soco. Este último contém o que restou de uma antiga vila de arquitetura inglesa construída no início do século 19.

Ela foi erguida ali por ingleses que compraram a mina de ouro de Gongo Soco e ali fizeram também um cemitério particular e um hospital, que ainda restam no local. O conjunto das ruínas é tombado pelo Iepha desde 1995.

A recomendação de retirada dos bens históricos foi expedida pela Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e pela Promotoria de Barão de Cocais. A orientação também cobra que os bens resgatados sejam transportados em condições de segurança e guardados em locais indicados pelo instituto.

Há três anos, a vila histórica de Bento Rodrigues, em Mariana, foi arrasada pelo rompimento da barragem da Samarco, controlada pela Vale e pela BHP. A igreja matriz foi destruída sem que imagens sacras pudessem ser salvas.

Colaborou José Antônio Bicalho, de Belo Horizonte

 
Júlia Barbon, Fabrício Lobel e Geórgea Choucair
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