Descrição de chapéu Alalaô

1994: O ano em que a República perdeu a calcinha

Foto icônica marcou o Carnaval de Itamar Franco

Em seu artigo 26, inciso V, o regulamento do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro proíbe “a apresentação de pessoas que estejam com a genitália à mostra, decorada e/ou pintada”. Mas não delibera sobre nudez frontal em camarotes nem sem-cerimônia de presidentes da República.

Logo, em 14 de fevereiro de 1994, a modelo Lilian Ramos e o então presidente Itamar Franco não feriram as leis da passarela do Sambódromo —onde vale o escrito. Mas, para além do corredor carnavalesco, provocaram muitos constrangimentos. E piadas.

Itamar se elegera vice-presidente em dezembro de 1989, na chapa de Fernando Collor, com quem não compartilhava princípios, meios ou fins. Acossado pelo processo de impeachment, o titular renunciou três anos depois. Coube ao experiente político mineiro completar o mandato, que era então de cinco anos.

Tratava-se de um antilitúrgico. Tomava chope com estudantes e gostava de galantear moças. Mas os chopes e as moças do camarote saíram do controle.

Lilian desfilara na Acadêmicos da Grande Rio. Pode ter atraído a atenção de Itamar, que estava livre e desimpedido. Alguém a fez chegar ao camarote presidencial, onde ela se posicionou ao lado do anfitrião. Teve de se livrar da mão boba do ministro da Justiça, Maurício Corrêa, absurdamente embriagado.

Quando se desmarcou, pôde jogar para os fotógrafos. Beijou a bochecha direita de Itamar, abriu o ouvido esquerdo para sussurros e, atingindo o clímax, ergueu os dois braços. Revelou, então, que estava sem calcinha. Quem registrou melhor a nudez quase glabra da modelo foi um fotógrafo de nome apropriado para o momento: Marcelo Carnaval, de O Globo.

O presidente Itamar Franco ao lado da modelo e atriz Lilian Ramos
O presidente Itamar Franco ao lado da modelo e atriz Lilian Ramos - Marcelo Carnaval/Agência O Globo

Itamar ainda teve o topete de levá-la para o hotel. Se queria consumar as negociações iniciadas no Marquês de Sapucaí, não conseguiu. Culpa da imprensa, que ficou vigiando ambos —o que Lilian não pareceu lamentar.

Não era um presidente popular aquele que ousou ser o primeiro ocupante do cargo a pisar no Sambódromo carioca, dez anos após a inauguração da obra de Oscar Niemeyer. Arriscou-se a tomar vaias, e elas aconteceram, mas nada que, diante do que viria, provocasse sérios constrangimentos.

Herdara uma economia em frangalhos, com inflação de 2.708,55% em 1993 e a população sofrendo as consequências do confisco das poupanças, cometido em março de 1990. As denúncias que haviam derrubado Collor transmitiam a impressão de que a política era um antro de corruptos.

Quando, no Carnaval, agiu de “modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo”, pré-condição para um impeachment, ficou diante da possibilidade de ser o segundo presidente forçado a deixar o cargo em menos de dois anos. O assunto já era tratado com fartura no noticiário de 16 de fevereiro.

Itamar se safou, aceitando pagar o preço de afastar Maurício Corrêa do Ministério. O amigo, que quase desabara no camarote, agora caía. Mas sobreviveu até abril, pois o presidente não queria que ele fosse humilhado. E o indicou mais tarde para o Supremo Tribunal Federal.

Em dezembro de 1994, menos de um ano após expor-se e expor o Brasil ao descrédito internacional, terminou o mandato em alta. O Plano Real, lançado em 1º de julho, vinha recuperando o poder de compra e a confiança da população. Embalado pelo sucesso e apoiado por Itamar, o ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, lançou-se candidato a presidente e venceu. Comparado a esse final feliz, que falta faz uma calcinha?

Lilian Ramos também se recompôs. Mudou-se para a Itália, casou-se com um homem rico, virou celebridade. Deixou para trás os ensaios sem roupa para revistas e as participações em filmes como “A Rota do Brilho”, estrelado por Alexandre Frota – antes da fase pornô.

A entrevistadores brasileiros, permaneceu avaliando como ruim para a sua imagem o que aconteceu naquele 14 de fevereiro. “Minha carreira acabou ali”, afirmou em 2016. No mesmo ano, assegurou o que, em duas décadas de escrutínio das imagens, ninguém percebera: “Eu não estava nua. Eu estava com um collant”. E anunciou ser uma mulher mais cuidadosa: “Fiquei tão traumatizada que hoje uso sempre calcinha”.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.