Descrição de chapéu Alalaô

Festas, vaquinhas, rifas e até venda de espetinhos botam blocos na rua em SP

Sem conseguir patrocínio, cordões usam criatividade para angariar recursos e pagar estrutura

São Paulo

Na contramão dos megablocos e do lucrativo negócio carnavalesco em São Paulo, cordões menores, estreantes, periféricos e até tradicionais se viram em engenhosas alternativas para botar o trio na rua sem patrocínio.

É o caso do Ilú Obá de Min, que há 14 anos vem arrastando até 65 mil pessoas na sexta e no domingo de Carnaval, mas não conseguiu uma empresa que bancasse a festa. 

Os custos, porém, seguem na planilha: a fantasia e instrumentos para 450 mulheres, 40 bailarinos, 12 pernas de pau e o carro de som, que sozinho abocanha R$ 16 mil.

Somadas as exigências da prefeitura para um bloco desse porte —segurança, resgate, isolamento, orientação de público, equipe de produção—, a fatura vai a R$ 200 mil. 

O jeito foi passar o chapéu no final de cada ensaio. As integrantes também juntam itens para as cestas, de instrumentos musicais a souvenires, e rifam. Ao longo do ano, o Ilú ainda faz shows e oferece cursos de percussão e dança afro. 

“Os patrocínios precisam ser revistos. Há desinteresse das empresas nos cordões mais recentes e nos tradicionais. Elas só querem apoiar os desfiles gigantes. Mas a festa é a somatória de todos os blocos pela cidade”, diz a produtora cultural Baby Amorim, 65, uma das fundadoras do Ilú.

A dificuldade para captar recursos, acirrada neste ano pelo número recorde de blocos (são 556 desfiles), levou ao cancelamento de cordões. A verba dos patrocinadores não acompanha o crescimento do Carnaval paulistano.

Há quem prefira autofinanciamento. O novato Perdidos no Paraíso, que reúne cerca de mil pessoas, teme que um aporte mude sua identidade. 

O grupo de amigos que o organiza preferiu promover festas e rifas para levantar os R$ 7.000 necessários para sair dia 23, além de uma vaquinha. 

Estreante, o Pirikita em Chamas apostou em produtos com a marca que “é forte e bem-humorada, então chega no público feminino e gay”, diz o gerente de marketing, Francisco Costa, 32, um dos fundadores. Os integrantes venderam broches, camisetas, adesivos, canecas e bonés de R$ 5 a R$ 50 em outros blocos e organizaram uma roda de samba para encher o caixa. 

Bingo e espetinhos a R$ 5 trazem recurso para a Turma do Funil, na Vila Mariana. Somam-se aos abadás, que saem a R$ 90, para bancar a cerveja no bloco, que desfilou dia 23.

“Conseguimos sair graças aos foliões. A cada ano fica mais caro. O carro de som num Carnaval está R$ 3.000, no outro passa a ser R$ 6.000”, diz a publicitária Renata Mendes, 33, uma das fundadoras.

O cantor e compositor Chocolatte, 43, desde 2012 banca seu Bloco do Chocolatte, que sai na Vila Guilherme e na Vila Maria, zona norte da capital. No primeiro desfile, vendeu a geladeira para cobrir 1.500 abadás encalhados, metade da encomenda total.

“É dificultoso, tenho ajuda do comércio local, de amigos, mas a prefeitura deveria fomentar esse tipo de bloco, fora do centro, mais família.”

Segundo o edital de Carnaval, a prefeitura pode disponibilizar carro de som e ambulância para blocos comunitários (até 4.000 foliões, que desfilem de 2 a 5 de março e tenham ao menos três anos). O do Chocolatte não se encaixa porque sai em 10 de março.

Neste ano devem desfilar 29 blocos comunitários, segundo a gestão Bruno Covas (PSDB), que diz prover banheiros químicos, limpeza e operação da CET. 

Com três anos, o bloco Siga Bem Caminhoneira conseguiu patrocínio pela primeira vez no início deste ano. Já tinha pedido contribuições, promovido festas e vendido bonés. “Havia dificuldade de representatividade lésbica e bissexual com as marcas, mas agora elas parecem interessadas na diversidade e bandeira feminista”, afirma a assistente de direção Leka Peres, 32, uma das fundadoras.

“Blocos como Ilú perigarem não sair é muito triste. Falta compromisso da cidade, da prefeitura, como o Carnaval cultural, menos negócio”, diz.

A criatividade salvou o bloco IDE, que “é novo e cristão”, diz a fundadora, a consultora Silvia Fagá, 40. O nome alude ao versículo bíblico que diz “ide e pregai o Evangelho a toda criatura”. “A gente não faz Carnaval, mas vendaval”, pois a festa “é do espírito”, afirma.

Para reunir no Ipiranga uma roda de músicos convertidos, houve micareta gospel: a Pra Careta, com convite a R$ 35.

O Ritaleena, que arrasta milhares e homenageia a cantora Rita Lee desde 2015, faz shows ao longo do ano e precisa de apoios como o do Bar do Mário, perto da casa de uma das criadoras, a diretora de arte Yumi Sakate, 39. Ali, músicos e produção comem de graça. 

Mas 2019 foi mais difícil, diz Yumi. “O bloco fechou patrocínio nos 45 do segundo tempo.”

Felipe Menasche, 31, gestor da produtora de eventos de rua Pipoca, que cuida de megadesfiles como Monobloco e Preta Gil, critica o cronograma da prefeitura. “Se o patrocínio da cidade é definido em fevereiro, temos muito pouco tempo para viabilizar parcerias. As empresas esperam o município bater o martelo.”

Na primeira tentativa de licitação do Carnaval de rua de São Paulo, ninguém apareceu. A gestão Covas baixou o valor e fechou o contrato em R$ 16,1 milhões no dia 6 de fevereiro.

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