Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Mais três barragens têm nível de risco elevado para ruptura iminente em MG

Sirenes tocaram em Macacos, na região metropolitana de BH, e em Ouro Preto

Fernanda Canofre
Belo Horizonte

As sirenes de alerta para risco de rompimento de barragens tocaram em Macacos, distrito de Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, e em Ouro Preto, na noite desta quarta-feira (27). As estruturas da mineradora nos dois locais não tiveram certificado de estabilidade garantido por auditorias externas. 

Três barragens tiveram o nível de risco elevado para 3, que significa de ruptura iminente ou já ocorrendo. Em comunicado, a Vale diz que o acionamento das sirenes é uma medida preventiva. O alerta é para a barragem B3/B4, da Mina Mar Azul, em Macacos, e para Forquilha 1 e Forquilha 3, da Mina Fábrica, em Ouro Preto. 

A Defesa Civil de Minas Gerais ressaltou que os moradores da zona de autossalvamento (ZAS) —área a 10 km ou 30 minutos da chegada da lama— já foram retirados em outras ações, quando as estruturas tiveram o nível de alerta elevado para 2. 

Em Macacos, no dia 16 de fevereiro, foram retiradas 305 pessoas. Em Ouro Preto, no dia 20, quatro moradores deixaram suas casas.

 

“Neste momento, não há que se falar em ninguém evacuar, uma vez que as pessoas já foram evacuadas. A sirene que foi acionada é um protocolo de segurança, se alguém ainda estivesse na zona de autossalvamento, de forma irregular, essa pessoa teria tempo de sair”, afirma o tenente coronel Flávio Godinho, da Defesa Civil estadual. 

Ele diz que a preocupação é com a comunidade de Honório Bicalho, onde se calcula que a lama chegaria em uma hora e três minutos e há cerca de 2,9 mil pessoas. Durante a madrugada, será discutida a operacionalização de treinamento no local e em Raposos. 

O fator de segurança da barragem B3/B4, em Macacos, ficou abaixo de 1, segundo a Defesa Civil de Minas Gerais. Um protocolo interno adotado pela própria Vale determina que o fator tem que ser igual ou superior a 1,3 para estar fora de perigo. 

A barragem B1, na mina Córrego do Feijão, que se rompeu em Brumadinho no dia 25 de janeiro, por exemplo, marcava 1,09. Até o momento, a tragédia deixou 216 mortos e 88 desaparecidos. 

A Vale lembra que as três barragens estão inativas e fazem parte do plano de descaracterização anunciado pela empresa cinco dias depois da tragédia de Brumadinho. 

Na sexta-feira, a Vale também pediu que fosse aumentado para 3 o nível de risco de uma barragem na mina Gongo Soco, em Barão de Cocais (a 100 km de Belo Horizonte). A decisão foi tomada depois que a auditoria externa disse que não poderia atestar estabilidade. Houve divergência na leitura do sistema de monitoramento da estrutura.

Os moradores da zona de autossalvamento de Cocais já haviam sido retirados no dia 8 de fevereiro. Na segunda-feira, forças de segurança organizaram um simulado voltado a pessoas que vivem na chamada zona de segurança secundária, onde a lama chegaria em uma hora e doze minutos.

MORADORES FORA DE CASA

Mesmo fora do local de risco, moradores de Macacos contam que vivem há cerca de 40 dias momentos de tensão e incerteza. Na quarta, mesmo em um hotel em Belo Horizonte, pago pela Vale, Guiomar Marotti, 61, estava “abalada”. 

A casa onde vive com a filha, o genro e o neto Caetano, de dois meses, fica a 300 metros da área prevista para chegar a lama. A família foi retirada no dia 16 de fevereiro, junto a outros moradores, quando houve mudança para nível 2 de risco. No início, ela diz, o atendimento era bom. 

“No segundo momento, eles fazem você sentir que errou, que provocou algo, a gente se sente humilhado de ficar pedindo as coisas. Tinha que pedir até escova de dentes. Todos os dias tem uma briga, tem uma luta”, conta Guiomar. 

No início do mês, moradores dizem que a mineradora avisou que poderiam voltar a suas casas, que não havia mais riscos. No dia 19 de março, porém, em uma reunião com a Promotoria a Vale se comprometeu a adotar várias medidas de auxílio às famílias que foram retiradas e mantê-los nos hotéis e pousadas.

Guiomar conta que as reservas no hotel costumam durar uma semana, o que deixa as famílias em agonia, sem saber como será a semana seguinte. “Não vou abrir dos meus direitos, da minha segurança e eles são responsáveis”, diz ela. 

Tatiana Sansi, 36, líder comunitária em Macacos, conta que nos grupos de WhatsApp de moradores as pessoas estavam em pânico a espera da sirene, nesta quarta. Um carro de som passava pelas ruas avisando que o sinal poderia tocar a qualquer momento. 

“É super complicado. A Vale não está dando assistência para a comunidade. Tem gente passando fome, necessidades básicas estão sendo negadas”, afirma ela. 

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