Moradores de Barão de Cocais (MG) relatam noites sem dormir e de janela aberta à espera de sirene

Barragem da Vale que fica no município teve o nível de alerta aumentado para 3, de ruptura iminente

Fernanda Canofre
Belo Horizonte

Desde a última sexta-feira (22), a pedagoga Gilda Andrade Oliveira Madeira, 40, se certifica de que a janela da casa está aberta antes de dormir. O cuidado é uma precaução para que ela ouça as sirenes no caso da barragem da Vale, na mina do Gongo Soco, estourar.

Gilda mora em uma das áreas de risco de Barão de Cocais (a 100km de Belo Horizonte). A casa dela fica a cerca de 50 metros do rio São João, na área da mancha prevista para ser atingida pela lama em caso de rompimento. 

Na sexta, a Vale aumentou o nível de risco da estrutura para 3, que significa de ruptura iminente ou já ocorrendo, depois que uma auditoria externa apontou divergências nas leituras do sistema de monitoramento da estrutura. 

“A gente fica muito abalada, porque não estamos vivendo uma vida normal desde que a primeira barragem estourou. Estou muito nervosa, passo a noite acordada. Vivo numa tensão, que não sei o que faço”, diz ela.

Gilda, a filha Gilda Maria, de 2 meses, e o filho José, 4, estavam entre as pessoas que participaram do simulado de evacuação de emergência no ponto de encontro 6, na Praça de Eventos José Furtado, o maior da cidade em número de moradores. 

A simulação foi feita em bairros que estariam dentro da zona de segurança secundária, onde a estimativa é de que a lama chegaria em uma hora e doze minutos. Os moradores da zona de autossalvamento, a 10km ou 30 minutos da inundação, foram retirados no dia 8 de fevereiro, quando o nível de risco aumentou para 2.

A área da ZSS foi dividida em quadrantes, com sete pontos de encontro, para onde os moradores devem se dirigir em caso de emergência. Entre o começo do percurso do carro com a mensagem e a sirene de alerta, até a certificação que não havia mais ninguém nas casas, passaram-se 32 minutos. 

“O som do carro de emergência, a gente achou que foi pouco audível. Já falamos com a Defesa Civil do estado e com a Vale, vamos ter que consertar. Parecia que a caixa estava estourada”, avalia o prefeito da cidade, Décio Geraldo dos Santos (PV). 

As gêmeas Eduarda e Maria Clara, 10, já têm em mente a primeira coisa que pegariam antes de sair de casa. Eduarda, o tablet, Maria Clara, o remédio do tratamento que faz contra um câncer. 

“Está sendo importante esse treinamento, porque eles estão tendo conhecimento. Mas criança ainda não tem muita noção do que é isso”, diz Mislene Oliveira Bartolomeu, 39, mãe das gêmeas e mais três crianças. 

Na casa de Wanderlei Guimarães, 52, desde a mudança do nível de risco, as malas estão prontas com documentos importantes e peças de roupa, e o carro com tanque cheio. 

Ele conta que levou cinco minutos para ir da casa onde vive com a madrasta Vanda Lúcia Silva Guimarães, 68, e o pai, Francisco Ferreira Guimarães, 91, até o ponto de encontro. Eles não levaram nenhum pertence junto. 

O pai, que tem problemas para se locomover, participou do simulado em uma cadeira de rodas. 

“A gente não sabe hora, dia, como vamos estar quando acontecer. Estamos com mala pronta, como se estivéssemos numa guerra mesmo”, diz Wanderlei, que trabalhou na Vale até 2017. Ele saiu devido aos cortes da empresa na região. 

“Desde o mês passado (quando tiraram as pessoas da zona de autosaalvamento), estamos sacrificados”, completa a madrasta. 

Segundo a Defesa Civil, das 6.054 pessoas que estavam previstas para participar do simulado, 3.626 compareceram. A prefeitura decretou feriado nesta segunda para garantir o maior número possível de participantes. 

“O simulado foi um sucesso. Temos que melhorar alguns pontos, como duas ruas que moradores relataram que o veículo (de aviso) não esteve. O simulado é para colocar o planejamento à prova. O que deu certo, mantemos, o que deu errado, temos que melhorar”, avalia o tenente coronel Flávio Godinho, da Defesa Civil de Minas Gerais.

Na terça, as forças de segurança irão visitar as casas fazendo busca ativa e indicando aos moradores que não participaram que busquem informações. As ruas já têm sinalização que indicam as rotas de fuga. 

Além da preocupação em preservar vidas, Barão de Cocais tem vivido ainda com os problemas de caixa depois de perder os rendimentos da mineração. 

Segundo o prefeito, a estimativa é que, desde que a Vale parou as atividades em Gongo Soco, em 2016, a receita tenha reduzido 30%. A situação piorou com os atrasos de repasses do governo do estado. O prefeito de Mariana anunciou nesta segunda que vai entrar com ação para garantir pagamentos da Vale. 

“A primeira preocupação é com vidas, agora também vamos conversar com a Vale porque não dá para uma cidade viver em nível de alerta 3 por tempo indefinido”, diz Décio. 

O simulado também deve acontecer nos municípios de Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo, que também podem ser atingidos em caso de rompimento. Ainda não há datas definidas. 

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