Após saga de restauro, antiga fábrica de chá corre risco de despejo na Grande SP

Peculiar, Casarão do Chá, em Mogi das Cruzes, foi construído por japoneses sem um prego

Angela Pinho Keiny Andrade
Mogi das Cruzes (SP)

Inscrições com a letra F no telhado, símbolos japoneses nas vigas, uma intrincada trama de troncos sem a sustentação de nem um prego sequer.

Por enigmas e características desse tipo, uma construção na Grande São Paulo recebeu de órgãos de patrimônio descrições como “peculiar”, “inusitada” e “complexa”.

Trata-se do Casarão do Chá, antiga fábrica com elementos próprios dos palácios japoneses em Mogi das Cruzes (SP), que chegou a ser considerada em 2006 “o monumento federal em pior estado de conservação no estado de São Paulo”, segundo o Iphan (instituto federal do patrimônio).

Após anos de abandono, o local passou por um restauro que envolveu a vinda de profissionais do Japão e o engajamento da comunidade do entorno. Cinco anos após sua reabertura, é alvo agora de uma disputa jurídica que traz à tona dúvidas sobre seu futuro. ​

No ano passado, venceu a lei que concedia por 20 anos o uso do espaço à Associação Casarão do Chá, fundada por moradores que estiveram à frente do restauro. A Prefeitura de Mogi das Cruzes aprovou então outra norma semelhante.

Um morador da cidade, Jocimar Figueiredo, no entanto, contestou a cessão sem concorrência pública —da mesma maneira que fez com terreno que seria repassado ao Sesc.

Enviou uma representação ao Ministério Público, que ingressou com ação direta de inconstitucionalidade. Em decisão liminar (provisória), o Tribunal de Justiça de São Paulo considerou a lei de Mogi inconstitucional por contrariar a legislação federal de licitações.

A Folha procurou Figueiredo para falar sobre o caso, mas não conseguiu contato. A prefeitura de Mogi afirma que recorrerá sob o argumento de que a concessão é de interesse público e que a associação já demonstrou ter expertise com o patrimônio.

Secretário de Cultura municipal, Mateus Sartori diz temer que empresas com interesses comerciais explorem a construção e causem danos a ela.

Alerta ainda para outra questão: ao longo dos anos, para preservar o local, a associação comprou quase todos os terrenos adjacentes. Não há como chegar ao casarão sem passar por propriedades da entidade, diz.

Os domínios da associação se estendem por cerca de 20 mil m² —quase o triplo da área tombada— por onde, em uma manhã de terça-feira, era possível ver beija-flores, um pequeno ninho de abelhas jataí (sem ferrão) e até um filhote de veado.

A vegetação tem espécies como pau-brasil e, claro, a planta do chá.

A ligação da comunidade com o local se deu quase por acaso, lembra Mary Nakatani, uma das fundadoras da associação. Aconteceu quando estudiosos foram a Mogi conhecer o casarão para um livro que seria publicado em 1984 pelo Condephaat (conselho de patrimônio estadual).

A obra conta que o imóvel, construído em 1942 para ser a ser a sede da Fábrica de Chá Tokio, é único no país, entre outros fatores por ter “elementos arquitetônicos característicos de castelos e templos numa edificação fabril”.

Entre esses elementos, está o pórtico curvado da entrada. Sobre ele, está gravado um desenho da flor do chá e o ideograma correspondente.

O imóvel foi encomendado pelo engenheiro japonês Furikashi Furihata —daí, provavelmente, as inscrições em F— ao arquiteto-carpinteiro Kazuo Hanaoka.

Ele sustentou a construção em troncos de eucalipto mantidos em sua forma natural, inclusive com galhos. A essa técnica japonesa, Hanaoka adicionou uma européia: treliças em diagonal. A escolha possibilitou que a fábrica se mantivesse em pé sem um único prego ou parafuso.

Com o declínio da cultura do chá no Brasil, foi vendida nos anos 1950 e, em 1968, parou de vez. Posteriormente, foi incorporada pela prefeitura.

Durante a estadia para fazer o livro sobre o casarão, lembra Mary, a dupla de pesquisadores passou pelo ateliê de seu marido, Akinori Nakatani, e contou parte da história.

Ceramista japonês no Brasil desde os anos 1970, ele foi ao local e constatou a degradação. Havia paredes vandalizadas, madeiras podres, telhas subtraídas.

Junto com a família e outros moradores do bairro, fundou então a associação para ajudar no restauro. A entidade obteve declaração de apoio do Iphan e, com a cessão do espaço, a obra teve início em 1998. Foram usados recursos públicos e dinheiro arrecadado em bazares e leilões.

Os trabalhos se revelaram mais complexos que o esperado.

O imóvel havia sofrido uma espécie de torção sobre sua base. As paredes de taipa estavam em “estado calamitoso”, segundo relatório do Iphan, e parte das vigas de madeira tinha apodrecido.

A vinda de um mestre carpinteiro do Japão revelou-se essencial.

Com ele, registrou o Iphan, soube-se que os ideogramas inscritos no encaixe das vigas tinham relação com o “alfabeto da secular ‘Corporação dos Carpinteiros’ do Japão”, que segue ordenamento diferente do idioma oficial japonês.

O profissional ajudou a refazer a trama de madeira. A tarefa era uma das etapas mais difíceis, lembra Higussa, integrante da associação e filha dos fundadores: era preciso achar troncos de eucalipto muito semelhantes aos deteriorados, inclusive em tamanho e curvatura.

Muitas vezes, conta, os membros da associação só encontravam um equivalente perfeito após expedições no mato.

A reconstituição das paredes de taipa era outra dificuldade. Sabia-se como, à moda japonesa, usar bambus e fibras de planta para a base. Quando o barro era colocado, porém, o resultado era frustrante: embolorava ou ficava com rachaduras.

Por sua experiência com cerâmica, Akinori Natatani fez testes e chegou à  fórmula ideal.

Ao final da obra, o Iphan registrou em relatório que o trabalho “foi muito além das metas prometidas”.

Em 2014, o casarão foi reaberto e está aberto a visitação aos domingos, com degustação gratuita de chá. Abriga eventos como festivais de cerâmica e cursos que ajudam a bancar a manutenção.

Com a disputa jurídica em torno do local, Higussa diz temer que o casarão volte ao estado de abandono. “Sem manutenção, o restauro perde o sentido.”

“Para cuidar, tem que gastar energia e colocar dinheiro do bolso. Alguém tem que fazer”, afirma Mary. “No caso, é a gente”, acrescenta, sorrindo.

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