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Formulação de perguntas visa compreensão por todos os estratos sociais

Datafolha torna transparentes instrumentos e métodos e adequa técnicas internacionais para produzir questões

O ministro da Justiça, Sergio Moro, desqualifica pesquisa Datafolha sobre pontos de seu intitulado "pacote anticrime" divulgada na quinta-feira (11) por esta Folha. Baseia sua crítica no questionário que classifica de incompleto e malfeito, afirmando que as perguntas não refletem com exatidão a proposta do governo.

Cita como exemplo de pesquisa bem feita enquete do instituto DataSenado feita por telefone que, além de evitar os tópicos polêmicos do pacote, não revela o perfil da amostra nem sua representatividade do universo que quer refletir.

O Datafolha, além de tornar transparentes instrumentos e métodos, com abordagem pessoal dos entrevistados, adequa técnicas internacionais de formulação de perguntas a características da população.

Em ambiente tão desigual e heterogêneo em termos socioeconômicos, com variação de expressões idiomáticas por regiões e unidades da Federação, a elaboração de perguntas é sempre um desafio. Devem ser compreendidas por todos os segmentos, considerando um nível de linguagem médio que alcance tanto estratos de menor escolaridade, com repertório específico, quanto os mais escolarizados.

Sobre os tópicos abordados na pesquisa, referentes especialmente à posse de armas e legítima defesa, o Datafolha buscou traduzir para o cidadão comum expressões subjetivas e formalismos retóricos que compõem a proposta do governo, como "uso moderado de meios", "injusta agressão, atual ou iminente", "a direito seu ou de outrem", "escusável medo, surpresa ou violenta emoção".

A maior prova de que o instituto obteve êxito técnico é o índice residual de entrevistados que não souberam responder às questões.

Quanto à incompletude do estudo, o objetivo não era avaliar o pacote como um todo, e sim os pontos que já eram polêmicos no projeto e ganharam espaço no debate após episódios de repercussão na opinião pública, como a crescente letalidade em ações policiais e militares e as mortes em ataque violento de jovens a escola em Suzano.

Muitos dos outros pontos do pacote, como a prisão de condenados na segunda instância e foro especial, já haviam sido tratados pelo Datafolha em pesquisas anteriores, sobretudo as realizadas desde o início da Operação Lava Jato, quando a aprovação da opinião pública nunca foi questionada pelo então juiz federal.

Tampouco foi questionada a popularidade de Moro no levantamento atual, em que aparece como ministro mais bem avaliado e mais conhecido pela população.

Não há nada mais velho para um político do que criticar pesquisa cujo resultado não o agrade. Desmerecer o Datafolha, sua história e credibilidade significa virar as costas para a opinião pública e desperdiçar a chance de compreendê-la.

O espelho das redes sociais distorce a imagem da totalidade dos cidadãos. Já pesquisas bem feitas os representam cientificamente.

Mauro Paulino

Diretor-geral do Datafolha

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