Vereadoras dominam Câmara no MA e rejeitam feminismo de esquerda

Políticas são contrárias ao aborto e resistentes a ações afirmativas

Fábio Zanini
Senador La Rocque (MA)

Quando terminou a apuração da eleição municipal de 2016 em Senador La Rocque (MA), as sete vereadoras eleitas resolveram dar um basta. Uma delas teria que ser a presidente da Câmara.

Até aquele momento, um homem comandava a Casa, mesmo com as mulheres já em maioria entre os vereadores na legislatura que terminava. "A gente se articulou e venceu. Agora queremos pelo menos a vaga de vice-prefeita na próxima eleição", diz a presidente da Câmara, Deusinete Gomes (PTB).

Proporcionalmente, a cidade de 14 mil habitantes no sul maranhense foi uma das duas que mais elegeram vereadoras no Brasil (a outra é a piauiense Uruçuí). Foram 7 em um total de 11, ou 64%. Na Câmara de São Paulo, em comparação, são 16% as mulheres.

A partir da esq., as vereadoras Maria Rita, Ozima, Deusinete, a primeira-dama da cidade, Vanessa Franco, e as vereadoras Maricélia, Raimundinha e Maria de Fátima
A partir da esq., as vereadoras Maria Rita, Ozima, Deusinete, a primeira-dama da cidade, Vanessa Franco, e as vereadoras Maricélia, Raimundinha e Maria de Fátima - Arquivo pessoal

É difícil até para elas explicar o sucesso eleitoral num rincão do país em que termos como empoderamento e feminismo ainda têm pouca ressonância. Desde que se emancipou, em 1994, a cidade sempre teve grande presença de mulheres na política local, embora nunca uma prefeita.

Uma possível explicação, dizem elas, está na profissão. Das 7 vereadoras, 6 são professoras da rede pública, e assim iniciaram suas trajetórias políticas. "O povo nos conhece, nos vê como pessoas muito presentes no seu dia a dia", afirma Raimundinha (PSC), que está no terceiro mandato.

"A habilidade das mulheres de resolverem problemas acho que nos beneficia", diz a decana da Casa, Maria Rita (PRP), que está no sexto mandato.

Outro mito que elas colocam em xeque é o de que mulheres, especialmente em cidades pequenas, costumam herdar suas carreiras políticas de pais ou maridos. Apenas 2 das 7 tiveram ou têm parentes na política local.

Embora tenham se unido para comandar o Legislativo local, as vereadoras não colocam a pauta de gênero no centro de sua atuação parlamentar. As iniciativas destinadas a mulheres são escassas.

Um projeto aprovado foi a criação de um Departamento da Mulher na prefeitura, mas que ainda não foi implementado por falta de recursos.

Outro foi uma lei municipal ampliando a licença-maternidade das servidoras do município de 4 para 6 meses.

De resto, a pauta feminina se restringe a discursos em datas comemorativas, como Dia da Mulher e o Dia das Mães.

Das 7, 4 se consideram feministas, mas não da forma como os movimentos nacionais usam esse rótulo --talvez um reflexo do fato de que nenhuma das vereadoras pertence a um partido de esquerda.

Todas são contrárias, por exemplo, à ampliação dos casos possíveis de aborto, e a maioria diz que a interrupção da gravidez deve ser totalmente proibida, sem as exceções previstas em lei (estupro, risco para a mãe, anencefalia).

"Sou contra o aborto, sou contra o casamento gay. Criei meus filhos com base em valores corretos", diz a vereadora Maria das Graças (PMN).

Elas também são resistentes a iniciativas de ação afirmativa como a cota de 30% de candidaturas para mulheres.

"A cota impôs uma obrigatoriedade. Temos que conquistar nosso espaço", diz a vereadora Ozima Melo (MDB), para quem "hoje a mulher tem condição de fazer igual ao homem".

"Podemos ocupar qualquer cargo na política", diz ela, que reconhece, contudo, que ainda existe preconceito contra mulheres em cargos eletivos.

Sua colega Maria de Fátima (PR) diz que a ocupação de espaços pelas mulheres na política é um processo histórico. Cita o fato de no passado as mulheres terem conquistado o direito a voto após anos de manifestações. "Homens e mulheres devem estar lado a lado. Não precisa ser feminista para ir à luta."

Um tema que todas dizem defender é a paridade salarial entre homens e mulheres. Mas há ressalvas. "O direito tem de ser igual se houver capacidade igual de estar no mercado. Não é apenas porque é mulher que a gente tem de proteger se a pessoa não estudou", afirma a vereadora Maricélia Rocha (PMB).

Outro ponto que priorizam é o reforço à Lei Maria da Penha, que pune agressão a mulheres. O município é relativamente calmo, mas já houve casos de feminicídio.

A própria presidente da Câmara levou um soco de um opositor político durante um evento público, há alguns anos. "Me machucou mais na alma", diz Deusinete. "Felizmente, tive apoio de todos no município".

As sete afirmam ter uma boa relação pessoal, apesar de discussões acaloradas. "A gente chega a brigar feio, mas sai do plenário e já faz as pazes", diz a presidente. "Os homens ficam calados, no cantinho."

Um dos quatro homens da Câmara, Irmão Bento (PP) confirma que em algumas situações os homens se sentem intimidados. "As mulheres aqui são mais poderosas. Muitas vezes os homens só sentam e aprovam os projetos", diz.

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