Moradores protestam contra a Vale durante simulado de rompimento de barragem em MG

Em documento, mineradora diz que há risco de rompimento entre os dias 19 e 25 de maio

Fernanda Canofre
Belo Horizonte

Nariz de palhaço, faixas perguntando “Quanto Vale o silêncio?” e gritos de “a Vale mata bicho, mata rio e mata gente”. Um grupo de moradores de Barão de Cocais (MG), a cerca de 100 km de Belo Horizonte, resolveu usar o simulado de treinamento para rompimento de barragem, neste sábado (18), para protestar contra a empresa.

“A sensação da comunidade é que a gente está sendo feito de palhaço pela Vale. A gente não tem resposta, a gente não sabe o que está acontecendo, é o segundo simulado que a gente faz. Sempre falam que a gente está bem, que tudo vai dar certo, mas como ter segurança disso?”, diz Maxwell Felipe de Andrade, 31, um dos manifestantes. 

O primeiro simulado foi realizado pela Defesa Civil de Minas Gerais no final de março, quando o nível de risco de rompimento da barragem Sul Superior, na mina Gongo Soco da Vale, foi aumentado para 3 (ruptura iminente ou ocorrendo).

Na época, a prefeitura da cidade chegou a decretar feriado municipal para incentivar a participação dos moradores —​60% deles apareceram. Neste sábado, a participação foi ainda menor, contrariando a expectativa da Defesa Civil. Das 6.054 pessoas que eram esperadas, apenas 1.625 apareceram —o equivalente a 26,5%. 

Grupo protesta contra a Vale
Grupo protesta contra a Vale - Heitor Bragança

“O número é baixo, sim, só que a mobilidade na cidade foi alta. Isso traz uma sensação de satisfação de que atingimos os objetivos. Várias pessoas foram indagadas do porquê não estavam se deslocando para o ponto de fuga, e respondiam que já conheciam a rota”, diz o Tenente Coronel Flávio Godinho.

O tempo de deslocamento das pessoas aumentou em relação ao simulado anterior. Em março, toda a área foi evacuada em 32 minutos, desta vez, foram necessários 43 minutos. As reclamações sobre o volume baixo dos carros de som, que devem anunciar o rompimento, voltaram a se repetir. Trinta e oito pessoas precisaram de atendimento psicossocial e uma mulher de 32 anos tentou suicídio. 

O treinamento é feito com moradores da chamada zona secundária - onde a lama levaria 1h12 minutos para chegar. —mostrando rotas de fuga, pontos de encontro, como devem sair de suas casas em segurança. Cerca de 440 moradores da zona de autossalvamento —​a primeira a ser atingida em um rompimento— foram retirados das casas no dia 8 de fevereiro. 

Nos últimos dias, houve registro de movimentação de um talude, na parte de trás da barragem Sul Superior. A preocupação é que o escorregamento dele para dentro da cava da mina possa servir de gatilho para a barragem e causar seu rompimento.

Por meio de nota, a Vale afirma que “não há elementos técnicos” para afirmar que a queda do talude “desencadeará gatilho para a ruptura da Barragem Sul Superior”.

A estrutura está paralisada desde 2016. Em um documento divulgado pela Promotoria de Minas Gerais, na última quinta (16), porém, a mineradora estima que um eventual rompimento da barragem poderia ocorrer a partir deste domingo. 

No documento, a Vale diz que, caso se mantenha a velocidade de movimentação do talude, a ruptura “poderá ocorrer no período de 19 a 25 de maio de 2019, gerando vibração que poderá ocasionar a liquefação da Barragem Sul Superior e sua consequente ruptura”.

Godinho confirmou a informação a jornalistas. A Defesa Civil está monitorando 24 horas a situação da estrutura, com leituras e relatórios encaminhados pela Vale. 

“A gente trabalha com ações para que, se isso ocorrer, e realmente possa interferir na barragem e ela romper, termos condições de fazer o socorro. A equipe da Defesa Civil permanece na cidade”, afirma ele. 

Nesta sexta, a juíza Fernanda Chaves Carreira Machado, da comarca de Barão de Cocais, determinou multa de R$ 300 milhões caso a Vale não apresente em até 72 horas um novo estudo de "dam break", com os impactos do rompimento completo do talude norte e sul da barragem de Gongo Soco.

Em nota, a Vale informou que começou na quinta-feira (16) a terraplenagem para construção da contenção em concreto localizada a 6 km à jusante da barragem Sul Superior.

Segundo a mineradora, a estrutura fará a retenção de grande parte do volume de rejeitos em caso de rompimento. Além da terraplanagem, a empresa também diz estar fazendo contenções com telas metálicas e posicionamento de blocos de granito. 

​“Essa obra atuará como barreira física no sentido de reduzir a velocidade de avanço de uma possível mancha, contendo o espalhamento do material a uma área mais restrita”, diz o texto.

Para quem vive na zona secundária de Barão de Cocais e não precisou deixar a casa, a vida também mudou desde o dia 8 de fevereiro, quando a barragem foi colocada em nível de risco 2. 

“Estamos simplesmente nos arrastando ao longo dos dias. A gente está passando a noite em claro e vai continuar. Temos, pelo menos, mais uma semana de sofrimento”, diz Maxwell, se referindo a previsão que o rompimento aconteça nos próximos dias. 

 

Ele, a esposa e o filho de um ano vivem em uma casa à beira do rio São João. Maxwell, que foi voluntário da Defesa Civil no primeiro simulado, conta que o Fórum e uma escola que ficavam próximos à sua casa já foram retirados do local. “Eu pergunto: esses locais tem que ser removidos e nós, como ribeirinhos, temos que permanecer em risco?”. 

Ana Rita de Souza, 33, foi uma das moradoras da comunidade de Socorro que teve que deixar a casa às pressas na madrugada do dia 8 de fevereiro. O carro da família ficou para trás, junto com outros pertences.

Ela, o marido e os dois filhos passaram a viver em hotéis pagos pela Vale. Só no começo de abril é que se mudaram para uma casa alugada temporariamente pela mineradora. 

“O clima agora é de pesadelo. Parece que a gente está voltando para aquele dia 8, enquanto a está tentando fazer com que a vida se encaminhe. A gente fica meio triste, porque sabemos que temos as coisas lá, nossa história toda, e que tudo pode se acabar em poucas horas”, diz. 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.