Muçulmanos servem jantar e quebram jejum do Ramadã em abrigo

Federação organizou refeição em centro de acolhida na Barra Funda, em São Paulo

São Paulo

O vaivém de mulheres com véu islâmico fez alguns dos moradores dos centros de acolhida Boracea, na Barra Funda, lembrarem das novelas de TV. "Vocês são aquelas personagens?", perguntou um deles. "Conhecia [muçulmano] só da televisão", disse Jonas dos Santos, 28, que mora ali há quatro meses.

Informado pela reportagem de que seria feito um jantar no abrigo para celebrar o Ramadã, mês sagrado para os muçulmanos, ele olhou para a decoração colorida, com fitinhas penduradas no teto e arriscou: "é tipo festa junina?". Outro morador do abrigo, mais velho, tentou ajudar na compreensão: "Irã, Iraque, Islã, tudo parecido", disse, em tom amigável.

Os moradores do Complexo Boracea ficaram intrigados na última terça-feira (28) com a presença, exótica para eles, de cerca de 25 voluntários muçulmanos, que ajudaram a servir a refeição da noite. O equipamento da prefeitura fica na zona oeste de São Paulo e acolhe idosos e pessoas em situação de rua.

Por volta de 17h30, os voluntários fizeram o iftar —a refeição que marca a quebra do jejum diário do Ramadã — e, em seguida, serviram o jantar para cerca de 1.500 pessoas. Durante o mês sagrado, muçulmanos intensificam ações de caridade e deixam de ingerir alimentos e líquidos entre o nascer do sol e o pôr do sol. 

A refeição de terça foi paga pela Fambras (Federação das Associações Muçulmanas do Brasil), que encomendou as marmitas de um restaurante. O prato do dia era salada, arroz, feijão, farofa, carne e frango halal (quando os animais são abatidos segundo preceitos do Islã). De sobremesa, uma tangerina, uma tâmara e um pedaço de bolo. A federação também financiou uma reforma do refeitório, com a colocação de azulejos nas paredes.  

“O jejum do Ramadã nos permite ter essa sensibilidade de saber o que é sentir fome e multiplicar, nesse período, as ações para o próximo. Não é muçulmano aquele que come enquanto o outro passa fome”, explica o vice-presidente da Fambras, Ali Zoghbi. Geralmente, a federação oferece o iftar nas mesquitas, mas decidiu ampliar a ação para incluir pessoas de fora da comunidade muçulmana —que pode chegar a 1,5 milhão de fiéis no país, segundo estimativa da Fambras. 

Alguns voluntários chegaram às 8h para ajudar a decorar o refeitório. Às 17h30, estenderam tapetes, tiraram os sapatos e fizeram uma oração, com cânticos. Apoiados nos joelhos, inclinavam o corpo até apoiar as cabeças no chão, repetidas vezes.

Após a oração, quebraram o jejum com água e tâmaras, como é costume, e jantaram. A hora do iftar é determinada pelo calendário lunar muçulmano e, naquela terça, estava marcado para 17h37. Foi uma refeição corrida, porque às 18h30 era preciso abrir o refeitório e servir o jantar para os moradores do abrigo.

Vestida com uma túnica preta com detalhes em dourado, Kauuthar Saadi, 19, limpou as mãos com álcool, colocou luvas e máscara e se posicionou atrás do bufê, de onde servia os alimentos. Kauuthar é filha de uma brasileira e de um venezuelano, ambos descendentes de libaneses. Ela ia passar o iftar com a família, mas achou que era mais importante celebrar no abrigo, pelo significado do Ramadã.

“É uma época para estar com os mais necessitados. Isso faz você dar mais valor ao que tem. Além disso, somos muito difamados aqui no Brasil, há muito preconceito. Ações assim mostram como é a verdadeira comunidade muçulmana, que quer o bem do próximo”, diz ela, que é casada e trabalha como confeiteira. 

A família da libanesa Sawsan Moussa, 27, também estava em casa, celebrando o iftar. Ela deixou a comida pronta para eles e foi para o abrigo.

Já o médico brasileiro Nemer Bacha, 27, cujos pais são libaneses, faz a quebra de jejum no hospital onde dá plantão. Segundo ele, os colegas respeitam a sua religião e pedem desculpas quando se esquecem do jejum e lhe oferecem chiclete ou café. Ele considera que trabalhar no SUS e fazer o jantar no abrigo são formas de prestar um serviço para a população mais vulnerável.

José Norberto Claro, 63, que mora há cinco meses no complexo, não conhecia nenhum muçulmano e ficou com uma boa impressão. “Eles não olham para gente de cima para baixo”, disse. Mas o que mais o animou foi a refeição, que dava “de mil a zero” na do abrigo. “Estava mais temperada. A comida aqui é muito sem sal”. Ele gostou da tâmara, que conhecia só de ouvir falar, pela Bíblia.

Antonio Policarpo Filho, 71, se surpreendeu com o caroço da fruta. Ele não tinha ideia do que era uma tâmara, mas aprovou. “O negócio aqui tá bom hoje!”. Sabrina da Silva, 30, uma mulher trans que vive há mais de um ano no complexo, era só elogios. “Achei maravilhoso, a comida está muito melhor. Sempre vem pouca quantidade e, se você pede mais, eles acham ruim. Hoje veio bastante”, disse.

Com a chegada do prefeito, no fim da noite, alguns moradores passaram a achar que a festa era para as autoridades, e não para eles —Bruno Covas (PSDB) esteve no local junto com alguns secretários. Sabrina só lamentava que eventos assim sejam raros por ali. “É legal, sai da rotina”, disse ela. “Tá parecendo Natal”.

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