Aeronáutica não diz se sargento preso com drogas passou por vistoria antes de embarque

Segundo Forças Armadas, informação faz parte de inquérito militar que está sob sigilo

Gustavo Uribe
Brasília

O Comando da Aeronáutica tem se negado a informar se o segundo-sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues, preso na Espanha com 39 kg de cocaína, passou por inspeção antes de embarcar em aeronave de apoio da comitiva do presidente Jair Bolsonaro.

Em entrevista coletiva, o porta-voz da FAB (Força Aérea Brasileira), major Daniel Rodrigues Oliveira, foi perguntado inúmeras vezes sobre o assunto. Em todas as respostas, repetiu que o tema está sob sigilo por fazer parte de inquérito policial militar.

Ele ressaltou que o procedimento de segurança adotado pela Força Aérea para missões de traslados prevê vistorias antes do embarque, como a inspeção de passageiros e bagagens, mas não respondeu se foi realizada na aeronave de apoio.

Avião da Força Aérea Brasileira do mesmo modelo em que viajou o sargento preso com cocaína
Avião da Força Aérea Brasileira do mesmo modelo em que viajou o sargento preso com cocaína - hiveminer.com

"Especificamente sobre esse caso, é objeto da investigação e está sob sigilo", disse. "Não temos como fazer analogia neste fato, que está em investigação. A praxe é que tripulantes passem por uma revista, existe um controle dos tripulantes e das bagagens", acrescentou.

Segundo relatos de integrantes do governo feitos à Folha, raramente a tripulação de suporte é submetida a revista policial ou a detectores de metais antes do embarque no Brasil. Após o ocorrido, auxiliares palacianos têm defendido que as Forças Armadas passem a adotar um procedimento de segurança mais rigoroso.

Na entrevista, o porta-voz disse que as Forças Armadas não têm dado suporte ao sargento preso. Segundo ele, o consulado-geral do Brasil em Madri presta assistência consular, mantendo contato com o acusado e com seus familiares. 

O major disse ainda que um vice-cônsul foi destacado para manter contato com as autoridades policiais e judiciárias e visitar o militar detido, acompanhando a sua situação. O governo espanhol também designou um advogado de defesa para ele.

O porta-voz ressaltou ainda que o inquérito militar, instalado na quarta-feira (26), tem prazo de 40 dias, prorrogáveis por mais 20 dias, para concluir a investigação. Nos bastidores, a aposta cúpula militar é de que o sargento foi pago para transportar o material para a Espanha, onde o entregaria para um grupo criminoso.

No início da entrevista , o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, fez uma fala dura. Ele disse que as Forças Armadas não admitirão que um criminoso faça parte delas e disse que o sargento será julgado sem condescendência tanto pela justiça brasileira como pela espanhola. 

"Não vamos admitir criminosos entre nós. Nesse caso, houve quebra de confiança e a confiança é própria da cultura militar. Esse lamentável caso é fato isolado no seio dos integrantes das Forças Armadas, que gozam dos mais elevados índices de credibilidade junto à população brasileira”, disse.

Segundo ele, se for comprovado que o sargento é culpado, ele cometeu uma postura inadmissível e um grave desvio ético e moral.

Segundo-sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues, preso em Sevilha, na Espanha, por transportar cocaína
Segundo-sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues, preso em Sevilha, na Espanha, por transportar cocaína - Reprodução

Mais cedo nesta quinta-feira, o porta-voz da Presidência, general Otávio do Rêgo Barros, falou sobre o caso logo após a chegada da comitiva presidencial em Osaka, no Japão, onde Bolsonaro participa pela primeira vez da reunião do G20.

Perguntado sobre se houve falha na segurança do presidente, ele respondeu que isso está sendo apurado "por meio de um inquérito policial militar, sob a responsabilidade do comando da Força Aérea do Brasil".

Ele também negou que o caso tenha sido o motivo da troca de escala da comitiva presidencial, que inicialmente estava marcada para Sevilha mas foi transferida para Lisboa, capital de Portugal. "Não, isso é uma questão técnica e foi avaliada pelo comando da Força Aérea juntamente com o GSI", disse.

Já o ministro-chefe do GSI, general Augusto Heleno, chamou de "desagradável" a prisão do militar

"Podia não ter acontecido, né? Foi uma falta de sorte acontecer exatamente na hora de um evento mundial e acaba tendo uma repercussão mundial que poderia não ter tido. Foi um fato muito desagradável para todo mundo", disse Heleno, também na chegada ao Japão.

Questionado sobre se o episódio não demonstra falha de segurança, Heleno —que comanda a pasta responsável pela segurança do presidente— disse que a fiscalização das malas e aeronaves é atribuição da FAB e diz que não há relação do fato com o gabinete que está sob seu comando, o GSI. "A revista de passageiros e de malas para os aviões da FAB são encargo da FAB, que não é subordinada a mim. Então o GSI não tem nada que ver com isso, zero", afirmou.

Bolsonaro chegou na tarde desta quinta em Osaka demonstrando irritação e impaciência ao falar com jornalistas. Ele não quis comentar, por exemplo, detalhes do que será tratado em sua principal agenda bilateral, com o presidente americano, Donald Trump. "Se é reservada, é reservada", disse, encerrando o tema.

Questionado sobre o motivo da irritação de Bolsonaro, Heleno disse que ele está "preocupado", mas não detalhou os motivos. O porta-voz Rêgo Barros negou que que o presidente estivesse irritado pelo caso da prisão do militar. "Não, tem a ver com ele ter chegado de viagem, tendo que chegar aqui para descansar para amanhã estar disposto para cooperar no G20 e nos Brics, para que todos os países que estão aqui envolvidos possam sair daqui com coisas que sejam palpáveis", afirmou.

Já o ministro da Educação, Abraham Weintraub, fez uma publicação nesta quinta nas redes sociais em que compara os ex-presidentes Lula e Dilma, ambos do PT, a drogas. Na publicação, Weintraub tenta fazer uma piada ao associar os petistas ao episódio da prisão do militar.

No Twitter, escreveu o ministro da Educação: "No passado o avião presidencial já transportou drogas em maior quantidade. Alguém sabe o peso do Lula ou da Dilma?". Parlamentares de oposição criticaram a postura do ministro em respostas à publicação.

Colaboraram Talita Fernandes e Paulo Saldaña

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