Descrição de chapéu Obituário Walcir José da Silva Monteiro (1940 - 2019)

Mortes: Escritor paraense colecionou as lendas da Amazônia por 50 anos

Walcyr Monteiro subiu e desceu rios e cruzou estradas em busca de histórias da região

Fabrício Lobel
São Paulo

Conta-se que em todos os aniversários, Josefina ganhava de presente uma volta de táxi por Belém, paga pelo seu pai. Foi assim até ela morrer. Meses depois, uma garota entrou num táxi que estava diante do cemitério Santa Isabel e pediu para seguir viagem até uma casa no outro lado da cidade.

No dia seguinte, o taxista voltou à casa para cobrar o pai da garota pela viagem, que não tinha sido paga.

O pai informou ao taxista que sua única filha havia morrido. Mas pagou pela viagem, acreditando ser mesmo o espírito da filha que no dia anterior estava comemorando o que seria seu aniversário.

Era de histórias fantásticas como essa que viveu o escritor Walcyr Monteiro (com Y, como gostava) por 50 anos.

Walcyr vivia numa Belém ainda pacata quando as TVs se popularizaram e passaram a rivalizar com as narrativas tradicionais do Boto, da Cobra Grande e do Mapinguari. Daí surgiu sua missão.

Subiu e desceu rios e cansou de se meter em estradas atrás de relatos do outro mundo. Walcyr lançou diversos livros, inclusive em países como Japão e Portugal --a família agora aguarda a publicação na Alemanha.

Sempre que estava fora de casa, usava uma boina. Os jocosos diziam que era para esconder a careca. Ele defendia que lhe caía bem, fosse usando uma camiseta ou terno.

Walcyr Monteiro subiu e desceu rios e cruzou estradas em busca de histórias da região
Walcyr Monteiro subiu e desceu rios e cruzou estradas em busca de histórias da região - Arquivo Pessoal

Certa vez, estava ouvindo relatos sobre seres encantados das águas e das matas, no encontro do rio Xingu com o Amazonas. Foi quando perguntou ao ribeirinho se ele acreditava em tudo aquilo. 

O ribeirinho olhou com gravidade para o escritor e disse: "Tudo o que tem nome existe". 

Desde então, o conselho de Walcyr era para que não se duvidasse de lenda alguma. Walcyr morreu no dia 29, vítima do agravamento de uma pneumonia, aos 79. Ele deixa três filhos, netos e a namorada.


coluna.obituario@grupofolha.com.br

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