Sem ciclovias e iluminação, extremo leste de SP impõe via crucis a ciclistas

Em locais como São Miguel Paulista e Ermelino Matarazzo, sinalização é precária

Danielle Lobato
São Paulo | Agência Mural

Duas vezes por semana, a designer gráfica Nathachi Silva, 28, vai para o trabalho de bicicleta. Ao todo, ela percorre uma distância na ida e na volta de até 50 km entre a Vila Cisper, no distrito de Ermelino Matarazzo, na zona leste da capital, e chegar na Consolação, na região central.

Apesar da paixão por pedalar, Nathachi precisa redobrar os cuidados. “Não vou todos os dias até o trabalho de bicicleta, porque, além de ser cansativo o trajeto, é preciso ter atenção em meio ao escuro. Falta iluminação”, diz.

Ciclofaixa na av. Dr. Custódio de Lima liga av. São Miguel à Dr. Assis Ribeiro
Ciclofaixa na av. Dr. Custódio de Lima liga av. São Miguel à Dr. Assis Ribeiro - João Alexandre Binotti

Ela começou a apostar na ‘magrela’ quando passou um ano desempregada e precisava economizar. Quando voltou a trabalhar, decidiu manter a paixão, mas vê dificuldades para circular em vias como a avenida São Miguel. E, perto de casa, raramente encontra mulheres que pedalem.

“Em todo meu trajeto de Ermelino via [avenida] Assis Ribeiro até a Paulista, eu só vejo ciclovia ao chegar no Brás. Somos ignoradas praticamente. É por isso que as pessoas não vão trabalhar de bike. Sobretudo as mulheres”, avalia.

A situação vivida por Natachi é semelhante a de outros moradores da zona leste. Além da falta de vias, um dos problemas apontados na região de Ermelino Matarazzo é a necessidade de driblar obstáculos para evitar acidentes mesmo nas ciclovias.

Um exemplo é a avenida Doutor Assis Ribeiro, a 25ª com mais vítimas em acidentes fatais na capital, segundo o último relatório da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). Por lá, há ciclovia desde 2014, mas passa por um túnel sem iluminação.

Na avenida Doutor Custódio de Lima, a ciclofaixa que faz ligação entre a avenida São Miguel e a avenida Doutor Assis Ribeiro não foi repintada após uma obra na tubulação que passa por baixo da pista. Perto dali, as placas de sinalização da ciclofaixa na Avenida Milene Elias estão gastas e outras foram pichadas.

Estes entre outros problemas foram mostrados pelo balconista João Alexandre Binotti, 37, que também mora na Vila Cisper. Há 16 anos ele faz uso da bicicleta e pedala diariamente 6 km para ir de casa ao trabalho, na região da Penha.

 

A escolha pelo meio de transporte veio pela necessidade de praticar exercícios físicos e pelas despesas. Afirma que chega a economizar R$ 3.000 por ano que gastaria com o transporte público. 

Na ida para o trabalho, ele procura usar o acostamento e enfrenta buracos e ruas com a pavimentação desniveladas.

A divisão de espaço com os motoristas é difícil, já que, algumas vezes, Binotti precisar pedalar entre os carros para alcançar a esquina do outro lado e fazer uma curva. “Na região da Penha, onde fica meu trabalho, tem muitos trechos em que tenho dificuldade.”

Na ciclovia ao redor do Parque Ecológico Tietê falta iluminação. Os usuários também reclamam da falta de policiamento e a falha na sinalização da via exclusiva para bicicletas. 

Em junho, o DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica) realizou o serviço de roçagem após contato da reportagem. O departamento afirmou que há apenas rondas da Polícia Civil. 

Binotti apresentou os problemas ao subprefeito em audiência pública. “Desanima bastante. Tenho protocolos guardados. Muitos ciclistas chegam até mim para perguntar sobre melhorias na região. Sempre estou buscando saber o que está ruim e passar adiante, mas me sinto sozinho em relação ao poder público”, relata Binotti.

Procuradas, as subprefeituras de São Miguel Paulista e Ermelino Matarazzo informaram que já estão cientes dos problemas relatados pelos ciclistas e que será feito um redirecionamento na equipe de obras para a região. 

Binotti também aponta a falta de bicicletários.

De acordo com a Secretaria de Mobilidade Urbana, atualmente, os terminais de Ermelino Matarazzo e São Miguel Paulista oferecem bicicletários. Entretanto, a região da Penha não possui o espaço. Há apenas vagas para paraciclos, suportes fixados no chão em vias públicas.

A cidade de São Paulo conta com com 6.544 vagas em 75 bicicletários públicos e 208 vagas em 13 locais com paraciclos públicos, instalados nos terminais de ônibus, nas estações de trem, metrô e estacionamentos, segundo a CET. Segundo o movimento Conviva, há 261 mil ciclistas na capital.

Ciclofaixa na av. Dr. Custódio de Lima liga av. São Miguel à Dr. Assis Ribeiro
Ciclofaixa na av. Dr. Custódio de Lima liga av. São Miguel à Dr. Assis Ribeiro - João Alexandre Binotti
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