Governo do Pará transfere presos envolvidos em massacre

Serão transferidos 46 detentos suspeitos de participação na morte de 58 presos em unidade de Altamira

Fabiano Maisonnave Danilo Verpa
Altamira (PA)

Um dia depois do massacre de presos que deixou 58 mortos em Altamira, o governo do Pará iniciou a transferência dos 46 presos supostamente envolvidos na matança.

Os primeiros três presos embarcaram na manhã desta terça-feira (30), rumo a Belém. O processo é lento —cada detento precisa ser acompanhado de um agente penitenciário, e a aeronave, modelo Caravan, é pequena. 

Dez presos serão levados a presídios federais fora do Pará. Os demais 36 serão redistribuídos dentro do estado.

Presos envolvidos em massacre são transferidos em aeroporto de Altamira
Presos envolvidos em massacre são transferidos em aeroporto de Altamira - Danilo Verpa/Folhapress

Os 58 presos morreram —sendo 16 decapitados— na manhã desta segunda (29) durante uma rebelião registrada no Centro de Recuperação Regional de Altamira, unidade prisional no sudoeste do Pará.

A rebelião foi a maior do ano em número de mortes, superando a de maio, quando uma sequência de ataques nos presídios do Amazonas deixou ao menos 55 mortos.

Segundo o Sistema Penitenciário do Pará (Susipe), a rebelião começou por volta das 7h, durante o café da manhã. 

O motivo do massacre é uma disputa entre duas facções criminosas pelo controle da unidade prisional de Altamira, segundo o governo do Pará. 

O Comando Classe A (CCA) é adversário da facção carioca Comando Vermelho (CV), quem vem se expandindo no Norte por meio de alianças regionais e da perda de poder na região do Primeiro Comando da Capital (PCC), alvo do massacre do Ano Novo de 2017 nos presídios de Manaus.

Sempre de acordo com a versão oficial, membros do CCA colocaram fogo na cela de um pavilhão controlado pelo CV. A maioria das 58 mortes ocorreu por asfixia, e outros 16 internos foram decapitados.

"Foi um ato dirigido. Os presos chegaram a fazer dois agentes reféns, mas logo foram libertados, porque o objetivo era mostrar que se tratava de um acerto de contas entre as duas facções, e não um protesto ou rebelião dirigido ao sistema prisional", afirmou o superintendente do Susipe, Jarbas Vasconcelos, em nota à imprensa.

PÉSSIMAS CONDIÇÕES

Relatório do CNJ mostrou que a unidade tem condições classificadas como "péssimas". Além de superlotada —343 cumpriam pena no local, mais que o dobro da sua capacidade, de 163 vagas—, inspeção do conselho detectou que "o quantitativo de agentes é reduzido frente ao número de internos custodiados".

O CNJ também constatou que a penitenciária não tem bloqueador de celulares, enfermaria, biblioteca, oficinas de trabalho ou salas de aula. 

O Pará, quarto estado mais violento do país, vem registrando o avanço das milícias, fenômeno que só encontra paralelo no Rio. 

Reportagem recente da Folha mostrou que em nenhum outro estado brasileiro organizações criminosas comandadas por policiais e ex-policiais estão tão organizadas, estruturadas e dominam áreas tão vastas. 

Segundo investigações da Polícia Civil e do Ministério Público do estado, os milicianos dominam o transporte alternativo em várias regiões, a venda de gás em diferentes favelas, a oferta de serviços de TV a cabo, a venda e transporte de produtos contrabandeados e serviços de segurança. Além disso, controlam parcela considerável do tráfico de drogas local, rivalizando com as facções criminosas.

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