Manaus tem mais 40 detentos mortos depois de 15 assassinados no domingo

Presos foram encontrados asfixiados; em 2017, rebeliões deixaram 126 detentos mortos em AM, RR e RN

Monica Prestes
Manaus

O governo do Amazonas confirmou que mais 40 detentos foram assassinados em quatro presídios de Manaus nesta segunda-feira (27). Elas ocorrem menos de 24 horas depois de outros 15 morrerem no Compaj (Complexo Penitenciário Anísio Jobim), neste domingo (26).

Os casos remetem a 2017, quando uma sequência de ataques em unidades prisionais deixaram 126 presos mortos no Amazonas, em Roraima e no Rio Grande do Norte.

Familiares de detentos reagem na ferente do complexo prisional onde prisioneiros foram estrangulados, em Manaus
Familiares de detentos reagem na ferente do complexo prisional onde prisioneiros foram estrangulados, em Manaus - Bruno Kelly/Reuters

As mortes ocorreram no Compaj e em outros dois presídios próximos —o CDPM1 (Centro de Detenção Provisória Masculina 1) e o Ipat (Instituto Penal Antônio Trindade)—, além da UPP (Unidade Prisional do Puraquequara).

Segundo o secretário de Segurança Pública do Amazonas, Louismar Bonates, o motim de domingo começou durante o horário de visita de familiares e foi motivado por conflitos entre organizações criminosas. No estado, o controle do tráfico de drogas é disputado principalmente pelas facções FDN (Família do Norte) e a rival PCC (Primeiro Comando da Capital), envolvidas nas mortes em 2017.

Com a confirmação de novas mortes nos presídios, familiares de detentos foram até a estrada que dá acesso às unidades e protestaram contra a falta de informação e a insegurança dentro das cadeias, chegando a fechar a rodovia BR-174, que em seguida foi liberada pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). 

"Pensei que fosse morrer também", afirmou Aline Costa da Silva, 29, que estava com o companheiro Antonio Xavier da Silva Camargo, 42, uma das vítimas, no momento do motim de domingo. 

Por volta de 11h, no período da visita, eles escutaram gritos vindos da cela 13, no final do corredor. "Ele falou: lombrou [expressão local de que há algum problema], vou lá ver o que é. Eu disse pra ele: não vai, fica aqui. Mas ele saiu e quando fui atrás vi um monte de gente puxando ele", contou.

Aline disse que tentou sair da cela, mas foi impedida por outros presos, que a ameaçaram. "Logo depois vi eles arrastando ele (sic) pelo chão, puxando pelo pé. Foi horrível", lembrou. A vítima parecia desacordada, mas ela não viu mais o marido. Soube da confirmação da morte pelo governo, no fim do dia.

Depois de testemunhar a morte do companheiro, ela ainda viveu 30 minutos de tensão, quando outros presos mantiveram visitantes em uma cela por dez minutos e, depois, fizeram uma "triagem" de presos e visitantes no pátio do Compaj. "Liberaram as mulheres que tiveram os maridos mortos. Saíram eu e mais quatro. Tudo isso antes de a polícia chegar."

A irmã do detento Cleison Silva do Nascimento, 25, que também foi morto no Compaj no último domingo, Maria Clara Silva, 22, nem teve tempo de se despedir. "Quando cheguei lá não pude mais entrar. Ele morreu sem que eu pudesse falar com ele", afirmou.

Ela chegava ao presídio quando a confusão começou e sequer conseguiu entrar para entregar os alimentos e frutas, especialmente peras, que o irmão sempre pedia e que ela costumava levar aos domingos. "Ele morreu com fome e nem pôde se despedir."

Segundo Maria, Cleison estava preso há dois anos por tráfico de drogas e, no final de 2019, iria progredir para o regime semiaberto. A pena dele era de 16 anos. "Ele foi preso porque estava transportando droga, atraído pelo dinheiro fácil. Ele errou, mas foi só essa vez e ele nunca mais voltou pra casa. Nem vai voltar mais", lamentou.

Avó de Elisson Oliveira Pena, 26, que também foi assassinado no Compaj, Maria do Carmo Pereira, 70, chorava na porta do IML, enquanto aguardava a liberação do corpo do neto. "Conselho não faltou. Cansei de dizer pra ele que essa vida só tem dois caminhos: cadeia e cemitério, mas ele não me escutou. Só Deus sabe a dor de enterrar um neto dessa forma."

Medidas

Após as mortes, o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), informou, por meio de nota oficial, que o governo federal deve enviar uma equipe da Força-tarefa de Intervenção Penitenciária (FTIP) para reforçar a segurança nas unidades prisionais do Amazonas. A garantia, diz ele, foi dada pelo próprio ministro da Justiça, Sérgio Moro.

O governo estadual reforçou a segurança em todos os presídios do estado. O GIP, grupo ligado ao Batalhão de Choque da Polícia Militar, passou a revistar e recontar presos em todas as unidades prisionais. Segundo Secretaria de Estado de Administração Penitenciária do Amazonas, “a situação está controlada e todos os presos estão na tranca”. 

A secretaria informou ainda que medidas disciplinares semelhantes às adotadas no Compaj, onde as visitas foram suspensas, devem ser adotadas nas demais unidades onde foram registradas mortes. Um inquérito será instaurado para investigar as mortes dos detentos dentro dos presídios.

No domingo, os presos morreram asfixiados ou golpeados com "estoques", armas brancas artesanais improvisadas, no caso, com escovas de dente.

Até o momento, só em um dos casos desta segunda-feira a identidade da vítima foi confirmada. Fábio Queiroz Ferreira, 39, foi encontrado morto dentro da própria cela por agentes que o conduziriam para audiência no Fórum de Justiça. Ele cumpria pena por porte ilegal de arma de fogo e tráfico de drogas no CDPM1, na mesma estrada vicinal que dá acesso ao  Compaj. Os nomes dos demais presos não foram divulgados.

Após as mortes, a governo estadual reforçou a segurança em todos os presídios do estado. O GIP, grupo ligado ao Batalhão de Choque da Polícia Militar, passou a revistar e recontar presos em todas as unidades prisionais. 

“Houve um confronto entre dois grupos organizados de dentro do presídio, que têm conflitos e aproveitaram o momento da visita de familiares para fazer essa tomada”, explicou Bonates, que negou que os visitantes tenham sido feitos reféns. 

De acordo com o titular da pasta, no momento em que a confusão entre os presos começou, muitos familiares que estavam no presídio correram para a quadra e outros para os corredores, em uma tentativa de evitar o confronto com a polícia.

“Eles não fazem os familiares de escudo humano, o que acontece é que alguns familiares, nessa situação, preferem ficar no presídio para evitar a intervenção das forças de segurança, na tentativa de que eles consigam apaziguar os ânimos”, disse. 

“A atual administração está incentivando o sistema de trabalho para redução de pena e muitos presos vêm aderindo. Isso parece estar incomodando as lideranças e pode ser a causa desse conflito”, justificou.

No Ano Novo de 2017, Manaus protagonizou a morte de 59 detentos no Compaj —até então, o maior massacre de presos desde o Carandiru, em 1992.

Naquele mesmo ano, a crise prisional se estendeu para outros estados. Quatro dias depois da chacina nas unidades prisionais do Amazonas, 33 presos foram assassinados no maior presídio de Roraima, a Penitenciária Agrícola de Monte Cristo.  

Também no início de 2017, um motim deixou pelo menos 26 mortos, decapitados ou carbonizados, na penitenciária de Alcaçuz, em Nísia Floresta, a maior do Rio Grande do Norte.

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