Investigação de massacre de Suzano aponta fragilidade de controle de arma e munição

Mesmo com arsenal de armas brancas, revólver matou 90% das vítimas do caso

Fernanda Mena
São Paulo

Há pouco mais de cem dias, dois jovens invadiam a Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo, armados com um vasto arsenal: um machado, uma faca articulada, uma besta, um arco, mais de 25 flechas de alumínio ou plástico, um dispositivo de choque, três coquetéis molotov e três granadas de fumaça.

Mas foi o revólver calibre 38, única arma de fogo do crime, o responsável por 90% das dez mortes provocadas por eles naquele dia e por 63% dos feridos na tragédia desde então conhecida como massacre de Suzano.

"Na dinâmica de crimes em que a intenção é causar o maior dano no menor tempo possível, a arma de fogo é eleita porque não requer proximidade nem força física para causar uma lesão grave, em que é grande a chance de a vítima morrer", avalia Bruno Langeani, gerente do Instituto Sou da Paz.

Ao assistir às imagens do ataque registradas pelo circuito interno de câmeras da escola, o pesquisador diz ficar evidente que as primeiras vítimas, atingidas por tiros, não tiveram chance de reação. "Já muitos dos estudantes golpeados por machado ou outras armas brancas conseguiram lutar e se desvencilhar do ataque", afirma.

Para Fabrício Rebelo, pesquisador em segurança e ex-diretor de um movimento que defende o acesso de cidadãos a armas, a superior "letalidade da arma de fogo é evidente". "Só que ela é mais eficaz tanto para a defesa como para o ataque", pondera.

Melina Risso, diretora de programas do Instituto Igarapé diz que, ainda que "o argumento do campo pró-armas seja de que ela não causa violência, é a arma que torna a violência muito mais letal".

O revólver e as munições usadas no múltiplo homicídio seguido de suicídio de Suzano foram adquiridas pela dupla de maneira ilegal, a partir de quatro fornecedores, todos atualmente presos.

Se, por um lado, a perícia apontou para o maior potencial letal da arma de fogo diante das armas brancas usadas no ataque, a investigação policial deixou claro que os autores do massacre tiveram dificuldade em obter os armamentos que desejavam.

"O caso mostra que os dois jovens, que não eram do meio criminal, precisaram recorrer a três pessoas diferentes para comprar arma e munição em quantidade", diz Langeani.

Passou-se quase um ano entre a data em que a dupla primeiro entrou em contato com o mecânico Cristiano Cardias de Souza, 47, conhecido como Cabelo, e o dia em que colocaram as mãos no revólver cuja compra ele intermediou.

O revólver, de fabricação nacional pela marca Taurus, com número de série parcialmente raspado, foi vendido pelo ex-caminhoneiro Geraldo de Oliveira Santos, 41, por R$ 2.500. Uma arma nova deste tipo é comercializada legalmente por cerca de R$ 3.000.

As trocas de mensagem entre os dois autores do massacre que constam do inquérito policial apontam que eles pesquisaram outros tipos de armas mais potentes, como fuzis, pistolas e submetralhadoras.

"Se eles tivessem tido acesso a uma arma como essa certamente teriam causado ainda mais mortes", afirma o pesquisador. Isso porque o revólver usado no crime dispara um tiro por vez e carrega apenas cinco munições, precisando ser aberto e recarregado, bala por bala, ao final do quinto disparo. Outras armas, como pistolas, comportam mais munições, disparam com menor intervalo e têm recarga mais ágil.

Langeani aponta que os decretos de armas assinados pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) não só ampliaram o acesso a armas como também aumentaram a potência e o calibre das armas permitidas a civis, antes de uso restrito do Exército e das forças de segurança.

"Antes do decreto, só era possível obter armas de calibres 9 mm ou .40 pelo tráfico internacional de armamentos e pelo roubo ou desvio das forças de segurança. Por isso, eram armas mais caras no mercado ilegal", argumenta.

Com o potencial aumento de circulação no país deste tipo de arma mais potente, o acesso ilegal a elas também tende a ser facilitado, diz o gerente do Sou da Paz. Para Rebelo, este tipo de correlação é "extremamente forçada". "A maior parte das armas rastreadas no Brasil foram porque estavam com o registro vencido, e não porque estavam envolvidas em atividades criminosas", afirma.

"E as armas usadas no crime são, em geral, exportadas pelo país e contrabandeadas de volta para cá." Risso diz que não existem controles suficientes para se afirmar que as armas do crime são contrabandeadas em sua maioria.

"O mercado de armas é um só. Com mais armas disponíveis, elas seguirão sendo roubadas e desviadas da polícia e do Exército, abastecendo o mercado ilegal."

Para o atentado de Suzano, a dupla de jovens adquiriu 40 munições de fabricação nacional pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), algumas compradas ainda nas embalagens originais. Trinta delas foram compradas do segurança Adeilton Pereira dos Santos, a R$ 17 cada. Negociadas pelo Facebook, as munições foram entregues num encontro na estação Paraíso do metrô paulistano.

As outras dez munições foram revendidas aos jovens por Cabelo por R$ 25 cada. Tudo indica que o mecânico fosse um intermediador profissional, pois sua prisão teve repercussão em fóruns da chamada dark web, em que usuários anônimos lamentaram o fato de ele ter "caído" e lançaram alertas para que se deletasse dos fóruns qualquer menção a ele.

Cabelo havia comprado as balas de Márcio Germano Masson, dono de uma clínica de recuperação para dependentes químicos que apresentou à polícia uma carteirinha de um clube de tiro e alegou ser atirador esportivo.

Na casa de Masson foram apreendidas mais armas, entre elas uma 9 mm de numeração raspada, e munições. A polícia não confirmou na investigação se Masson tinha ou não registro no Exército como atirador esportivo.

Os primeiros decretos presidenciais sobre armas haviam ampliado o acesso para categorias que incluíam vigilantes, caminhoneiros e membros de clubes de tiros. Os autores do massacre de Suzano compraram a arma de um ex-caminhoneiro e as munições chegaram a eles por meio de um vigilante e um membro de clube de tiro.

Para Langeani, o caso é um sinal de alerta para uma questão que, segundo ele, merece mais cautela. "Esse caso não tem nada a ver com os decretos do presidente, mas ilustra como essas categorias promovem desvios tanto de armas como de munições."

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