Maioria dos hospitais públicos de SP atua sem atestado contra incêndio

Entre as instituições sem documento estão o Hospital das Clínicas e o InCor, que já pegaram fogo

Homem de branco auxilia jovem de cadeira de rodas e máscara
Pacientes retirados do HCor (Hospital do Coração) após incêndio que atingiu o edifício - Lucas Ninno/Folhapress
Cláudia Collucci Thiago Amâncio
São Paulo

A maioria dos hospitais públicos da cidade de São Paulo funciona sem atestado de segurança contra incêndio do Corpo de Bombeiros, documento obrigatório.

Levantamento da Folha feito no site dos bombeiros mostra que só 3 dos 34 hospitais e prontos-socorros municipais têm o AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros). Entre os que não possuem o documento está o Hospital do Tatuapé, que é referência em queimados.

Na rede estadual, apenas 9 dos 30 hospitais estão com o documento em dia. Entre os que não estão figuram o Hospital das Clínicas e o InCor (Instituto do Coração), que já pegaram fogo em 2007 e em janeiro deste ano, respectivamente.

Na última sexta (28), foi a vez do HCor (Hospital do Coração) entrar para as estatísticas de incêndio na capital. O fogo começou no sistema de caldeiras e atingiu dutos de refrigeração. O hospital, da rede privada, tem o AVCB.

Entre os 12 hospitais privados de maior reputação em São Paulo, 2 não têm o documento dos bombeiros: o Hospital Nove de Julho, que foi ampliado e está em processo de atualização do AVCB; e o Santa Isabel, que diz que o prédio, de 1884, é tombado, o que demanda autorizações especiais. O hospital diz que está em processo de regularização.

A fragilidade dos hospitais em relação ao risco de incêndio pode ser observada em todo o país. Neste ano, pelo menos 12 instituições pegaram fogo, em Salvador (BA), Rio de Janeiro, Goiânia (GO), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Maceió (AL), Marília (SP), Fortaleza (CE), Vitória (ES), Ponta Grossa (PR), Petrópolis (RJ) e Imperatriz (MA).

Segundo o engenheiro eletricista Marcos Kahn, especialista em proteção contra incêndio e diretor da Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar, muitos hospitais não regularizam a situação porque sabem que não correm o risco real de serem fechados.

"Um bombeiro vai fechar um hospital se não houver um risco iminente de morte em consequência de um incêndio? Não. Faltam hospitais."

Desde abril, após regulamentação de lei estadual, o Corpo de Bombeiros ganhou poder de polícia e pode interditar prédios irregulares.

Para Kahn, nas instituições particulares de ponta a situação é um pouco melhor, porque elas precisam ter a papelada em ordem para pleitear seguros contra incêndio, certificações de excelência, financiamentos em bancos internacionais ou para atenderem pacientes com planos de saúde internacionais --que fazem a exigência do documento.

Ter o AVCB, porém, não é garantia de que o prédio esteja imune a riscos de incêndio, diz Marcelo Lima, engenheiro químico e diretor-geral do Instituto Sprinkler Brasil. 

"O AVCB é um documento que é uma foto de um determinado dia que um bombeiro foi vistoriar", diz ele. "Indica que um bombeiro foi lá nos últimos cinco anos e olhou o sistema, mas não garante que o sistema vai continuar funcionando", explica Lima.

Em maio, a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) publicou as primeiras normas de segurança contra incêndio em instituições de saúde, em que especifica como devem ser rotas de fuga, saídas de emergência e sistemas de compartimentação, para impedir que o fogo se alastre, entre outros pontos.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) também tem um conjunto de normas de segurança contra incêndio, de 2014. Uma delas, por exemplo, diz que "a pior ação emergencial num estabelecimento assistencial de saúde é a relocação ou evacuação vertical dos pacientes." Ou seja, descer todo mundo correndo escada abaixo.


Itens exigidos em hospitais segundo a ABNT e a Anvisa

  • Livre acesso de carro dos bombeiros
  • Estruturas reforçadas para não cederem com o fogo
  • Rotas de fuga e saídas de emergência
  • Sinalização e iluminação de emergência
  • Alarme de incêndio e extintores
  • Brigadas de incêndio
  • Portas e paredes corta-fogo para evitar que as chamas se espalhem entre as salas e andares
  • Áreas de refúgio
  • Chuveiros automáticos (em prédios com mais de 24 m), mesmo em centros cirúrgicos e áreas de UTI
  • Plano de emergência com informações sobre o que fazer em caso de fogo

A recomendação, segundo Kahn, é combater o incêndio na origem, isolar a área, fechar as portas dos compartimentos e deixar as pessoas resguardadas no andar.

"Mas não adianta ter a parte física pensada nisso se não houver treinamento da equipe para responder a uma situação de emergência, evitando que, no caso de incêndio, desça todo mundo às pressas."

Durante o incêndio no HCor, houve relatos de correria. A estudante Larissa Vieira, 20, contou à Folha que, quando o fogo começou, teve que descer dez andares de escada com a mãe, que tinha feito cirurgia na cabeça um dia antes (27) para combater um câncer.

"Estava deitada e comecei a escutar gritos. Achei que fosse normal. Mas aí chegou uma enfermeira falando para correr porque o hospital estava pegando fogo. Só deu tempo de pegar o celular e descer. Fiquei assustada, mais pela minha mãe, que não consegue andar direito", contou.

De acordo com o HCor, foram seguidos todos os protocolos de segurança para evacuação de emergência e deslocamento dos pacientes, conforme previsto nas instruções técnicas do bombeiros.

"A operação foi conduzida com êxito e, em três horas após a ocorrência, o HCor retomou a normalidade dos serviços, após a liberação da perícia técnica e da Defesa Civil."

Os incêndios no InCor e no HCor ocorreram nas torres de resfriamento no telhado, equipamentos comuns em edifícios altos ou com grande número de escritórios.

"Essas torres passam a maior parte do tempo molhadas e não há risco no funcionamento normal delas", diz Lima. Mas, segundo ele, incêndios podem ocorrer durante trabalhos de manutenção, quando as torres estão secas.

Quase 12 anos após incêndio, HC segue sem documento

Após o incêndio que atingiu o Hospital das Clínicas, em plena noite de Natal de 2007, o prédio continua sem AVCB.

Na época, o fogo, originado no quadro de energia elétrica do subsolo do prédio dos ambulatórios, provocou correria e suspensão de cirurgias e ainda obrigou cerca de 600 funcionários e 200 pacientes a abandonarem o local.

Alguns dos pacientes foram retirados em macas e até no colo de médicos e enfermeiros. O fogo foi controlado rapidamente, mas espalhou fumaça por todos os andares do prédio. Dois pacientes que eram operados naquele momento foram transferidos, assim como outros 12 internados no centro cirúrgico.

Escombros de incêndio
Escombros de incêndio que atingiu o Hospital das Clínicas em São Paulo em 2007; unidade ainda não tem AVCB - Robson Ventura - 25.dez.2017/Folhapress

Em nota, a assessoria de imprensa do HC diz que o local vem passando ao longo dos últimos anos por diversas reformas e melhorias em diferentes áreas. "Por isso, o processo de obtenção do AVCB também passa por constante atualização."

Já a Secretaria de Estado da Saúde diz que os projetos técnicos para que o HC obtenha o AVCB estão concluídos e aprovados pelos bombeiros--embora o auto ainda não tenha sido emitido. "O HC realiza treinamentos teóricos e em campo com cerca de 3.000 brigadistas e conta com atuação 24h de bombeiros civis."

Em relação aos outros hospitais da rede estadual sem o AVCB, a secretaria diz que trabalha para que os serviços tenham o documento, mas reforça que todas as unidades possuem os equipamentos de segurança obrigatórios, como hidrantes, extintores, alarmes e saídas de emergência, nos quais são feitas manutenções preventivas periódicas.

"Além disso, a pasta aplica R$ 5 milhões anualmente para treinamento de brigadistas, previstos nos contratos de manutenção predial das unidades estaduais."

Esclarece também que há unidades em obras, como é o caso do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia e do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, onde é preciso aguardar sua conclusão para obtenção do auto, que depende de vistorias na edificação.

Cinco meses após o incêndio que assustou os pacientes, o InCor também ainda não tem o AVCB. Segundo o hospital, o laudo "está em andamento, com as adequações solicitadas já tendo sido em sua maior parte concluídas como, por exemplo, sistema de proteção contra descargas atmosféricas, sistema de iluminação de emergência, formação de brigada e adequação de geradores e portas corta-fogo, entre outras".

O instituto diz que possui todos os equipamentos necessários em funcionamento, como hidrantes, extintores, alarmes e saídas de emergência.

Faturista do hospital, Diego Leite é líder da brigada de incêndio do segundo andar. Ele afirma que, desde janeiro, o grupo passou a ter "um apoio muito maior da diretoria". "Estamos com muito mais liberdade para fazer inspeção no prédio, temos acesso a áreas que não tínhamos antes."

A Secretaria Municipal da Saúde informa que a falta do AVCB em 31 hospitais ocorre por conta de reformas e melhorias, mas que os locais estão em regularização.

Segundo a secretaria, é preciso o planejamento correto para fazer as adequações necessárias, sem interromper os serviços essenciais.


Veja situação de hospitais em SP

Unidades municipais

Tem AVCB

  • Hospital Dr. Moyses Deutsch - M` Boi Mirim
  • Hospital Dr. Gilson de Cássia Marques de Carvalho - Vila Santa Catarina
  • Hospital Carmem Prudente - Cidade Tiradentes

Não tem AVCB

  • Hospital Dr. Alexandre Zaio (Vila Nhocuné)
  • Hospital Prof. Dr. Alípio Corrêa Netto (Ermelino Matarazzo)
  • Hospital Dr. Arthur Ribeiro de Saboya (Jabaqurara)
  • Hospital Dr. Cármino Caricchio (Tatuapé)
  • Hospital Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha (Vila Maracanã)
  • Hospital Dr. Ignácio Proença de Gouvêa (Mooca)
  • Hospital Dr. José Soares Hungria (Pirituba)
  • Hospital Prof. Mário Degni (Rio Pequeno)
  • Hospital Tide Setubal (São Miguel Paulista)
  • Hospital Prof. Dr. Waldomiro de Paula (Itaquera)
  • Hospital Dr. Mário de Moraes Altenfelder Silva (Vila Nova Cachoeirinha)
  • Hospital Dr. Benedicto Montenegro (Jardim Iva)
  • Hospital Infantil Menino Jesus (Bela Vista)
  • Hospital Vereador José Storopolli (Parque Novo Mundo)
  • Hospital São Luiz Gonzaga (Jaçanã)
  • Unidade de Pronto Atendimento Vila Santa Catarina (Vila Santa Catarina)
  • Pronto Socorro Dr. Alvaro Dino de Almeida (Barra Funda)
  • Pronto Socorro Dr. Caetano Virgílio Neto (Butantã)
  • Pronto Socorro Prof. João Catarin Mezomo (Lapa)
  • Pronto Socorro Julio Tupy (Jardim Robru)
  • Pronto Socorro de Perus - Dr. Luiz Antonio de Abreu Sampaio Dória (Perus)
  • Pronto Socorro Dr. Lauro Ribas Braga (Santana)
  • Pronto Socorro Vila Maria Baixa (Parque Novo Mundo)
  • Pronto Socorro 21 de Junho (Freguesia do Ó)
  • Pronto Socorro Augusto Gomes de Mattos (Vila das Mercês)
  • Pronto Socorro Balneário São José (Balneário São José)
  • Pronto Socorro Dona Maria Antonieta Ferreira Barros (Grajaú)
  • Pronto Atendimento Jardim Macedônia (Jardim Macedônia)
  • Pronto Atendimento Dra. Glória Rodrigues Santos Bonfim (Cidade Tiradentes)
  • Pronto Atendimento Atualpa Girão Rebelo (Vila Morgadouro)
  • Pronto Atendimento São Mateus II (Cidade São Mateus)

Unidades estaduais

Tem AVCB

  • Hospital Geral de Pedreira (Vila Campo Grande)
  • Hospital Infantil Cândido Fontoura (Água Rasa)
  • Hospital Geral de Guaianazes (Jardim São Paulo)
  • Hospital Geral de São Mateus (São Mateus)
  • Hospital Geral de Vila Alpina (Vila Alpina)
  • Hospital Pérola Byington (Bela Vista)
  • Instituto de Reabilitação Lucy Montoro – Morumbi (Vila Andrade)
  • Hospital Vital Brasil (Butantã)
  • Hospital de Transplantes/Centro de Referência em Saúde do Homem (Jardim Paulista)

Não tem AVCB

  • Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Cerqueira César)
  • Instituto do Câncer (Cerqueira César)
  • Instituto de Infectologia Emílio Ribas (Cerqueira César)
  • Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (Vila Mariana)
  • Hospital e Maternidade Interlagos (Interlagos)
  • Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros (Belenzinho)
  • Hospital Regional Sul (Santo Amaro)
  • Hospital Geral do Grajaú (Parque das Nações)
  • Hospital Infantil Darcy Vargas (Morumbi)
  • Hospital Geral de Vila Penteado (Jardim Iracema)
  • Hospital Geral de Taipas (Parada de Taipas)
  • Hospital Geral de Vila Nova Cachoeirinha (Vila Nova Cachoeirinha)
  • Conjunto Hospitalar do Mandaqui (Mandaqui)
  • Hospital Geral do Itaim Paulista (Itaim Paulista)
  • Hospital Geral do Sapopemba (Sapopemba)
  • Hospital Heliópolis (Sacomã)
  • Centro de Atenção Integrada em Saúde Mental Phillipe Pinel (Pirituba)
  • Centro de Atenção Integrada em Saúde Mental Água Funda (Vila Água Funda)
  • Hospital São José (unidade de apoio) (Imirim)
  • Hospital Ipiranga (Ipiranga)
  • Hospital do Servidor Público Estadual (Vila Clementino)

Alguns dos principais hospitais privados de SP

Tem AVCB

  • Hospital Albert Einsten (unidades – Morumbi, Perdizes/Higienópolis, Ibirapuera, Jardins, Alphaville, Vila Mariana, Morato e Paraisópolis)
  • Hospital Sírio Libanês (unidades – Itaim e Jardins)
  • Hospital São Luiz (unidades – Morumbi, Anália Franco e Itaim)
  • Hospital Samaritano (Higienópolis)
  • Hospital Alemão Oswaldo Cruz (Paraíso)
  • Hospital São Camilo (Pompéia, Ipiranga e Santana)
  • Hospital Infantil Sabará (Higienópolis)
  • Hospital Santa Catarina (Bela Vista)
  • Hospital do Coração (Paraíso)
  • A.C. Camargo Cancer Center (Liberdade)

Não tem AVCB

  • Hospital Santa Isabel (Santa Cecília)
  • Hospital Nove de Julho (Bela Vista)
     
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