Descrição de chapéu Obituário Diva Damato (1931 - 2019)

Mortes: Professora de francês e literatura, encontrou na educação sua emancipação

Apaixonada pela literatura francófona do Caribe, desenvolveu métodos únicos de ensino

Caroline Amaral ‎Coutinho
São Paulo

Quando a professora Diva Damato, que morreu na terça-feira (9), anunciou sua aposentadoria aos 70 anos, suas turmas, já cheias, ficaram ainda mais lotadas de estudantes que não queriam perder a chance de ouvir seus ensinamentos.

Doce e culta, ela gostava de envolver os estudantes com seus contos e poemas de terras francófonas. Ela acreditava que o aprendizado deveria vir da leitura de textos relacionados ao gosto dos estudantes.

Durante os anos 80, ela foi a primeira a dar aulas usando o método de ensino de língua instrumental, usando a literatura e a leitura para ensinar, em vez de métodos gramaticais prontos.

Professora Diva Damato faleceu na terça-feira (9)
A professora Diva Damato faleceu na terça-feira (9) - Arquivo Pessoal

Suas histórias favoritas vinham das ilhas caribenhas que falavam a língua francesa. Foi amiga de autores como Édouard Glissant, da Martinica, e Dany Laferrière, haitiano e canadense. Ela também ajudou a fundar o prêmio Carbet de literatura francófona no Caribe e Américas.

Seu interesse e estudo do francês veio da sua vontade de ser independente. Criança durante os anos 30, Diva queria estudar, mas sua mãe a persuadiu de se tornar pianista.

Prodígio musical, passou no concurso como concertista municipal aos 18 anos.

Mas por querer emancipar-se financeiramente, abandonou tudo para integrar o antigo Instituto Sedes Sapientiae, voltado para a profissionalização de jovens mulheres da elite paulista. Entrou para estudar latim, mas lá encontrou o francês, que se tornou sua área de expertise desde então.

Mesmo depois de casar-se em 1958, não se incomodava em morar sem o marido Milton. De fato, durante seus 55 anos de casados, passaram somente 19 vivendo juntos.

Segundo seu filho, o jornalista Marcelo Damato, Diva “foi uma feminista, mas que não militou.”

Depois do golpe militar de 1964, Diva foi denunciada como comunista, mas não foi detida. Decidiu então mudar-se para a Montpellier, na França, onde deu aulas de português durante dois anos. 

Diva tinha um senso de justiça necessário para sua época. Matriculou seus filhos na escola francesa, numa época em que era comum professores baterem em alunos para repreender maus comportamentos. Uma vez disse à diretoria: “se tocarem um dedo nos meus meninos, eu processo!”

Quando voltou para o Brasil em 1970, começou a ensinar na Universidade de São Paulo (USP) e integrou a Associação dos Professores de Francês de SP. Como professora, tinha repulsa de livros de línguas com métodos prontos, e produzia todos os anos, ela mesma, o material para seus estudantes. 

Também corrigia os trabalhos a lápis, porque acreditava que o aluno tinha o direito de contestar sua avaliação.

“Tudo na Diva era muito profundo,” explicou a amiga e professora de francês, Cristina Pietraróia, 55. “Ela não precisava dizer que era ética. Ela só era.”

Aos 80 anos, já era aposentada, mas ainda dava aulas de língua e literatura francesa na USP. Para explicar tantos anos de dedicação, ela dizia simplesmente: “se você fez algo por prazer, então você não precisa ser recompensada. Se você fez algo por uma compensação, então você não merece essa recompensa.”

Diva Damato morreu na terça-feira (9), aos 88 anos, devido a uma insuficiência cardíaca, e foi cremada no mesmo dia. Deixa seus três filhos —Murilo, Marcelo e Mauro— e seu legado de ensino de línguas pela compreensão e empatia.

​​coluna.obituario@grupofolha.com.br

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Erramos: o texto foi alterado

Diva e sua família voltaram para o Brasil em 1970, e não nos anos 80.

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