Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Guia de intolerância aponta para disseminação de ataques de cunho religioso

Denúncias de discriminação dobraram em 2019; maioria é de evangélicos contra religiões afrobrasileiras

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

Quando saiu o primeiro “Guia de Luta Contra a Intolerância Religiosa e o Racismo”, em 2009, ninguém imaginou que o problema acabaria de uma hora para outra. Mas ninguém esperava também que discriminar alguém por causa de sua fé virasse algo tão corriqueiro.

Pois, se você segue algum credo de matriz afrobrasileira, as chances de ser apedrejado —até literalmente— aumentaram substancialmente em uma década.

O lançamento de uma edição atualizada do guia chega num momento em que a CCIR (Comissão de Combate à Intolerância Religiosa) vê mais do que dobrar as denúncias recebidas. 

Já são 200 casos registrados até o nono mês de 2019, 35% delas na Baixada Fluminense, contra 92 registrados ao longo do ano passado. Isso sem considerar que a subnotificação desse tipo de preconceito é colossal, alerta a CCIR.

As ofensas podem ir de um vizinho xingando um outro, candomblecista, de “macumbeiro” a traficantes evangelizados que vandalizam terreiros e chegam a intimidar pais e mães de santo com armas. Em agosto, alguns deles foram presos. Denominavam-se Bonde de Jesus.

Segundo o babalaô Ivanir dos Santos, presidente da comissão, só o Rio tem 200 casas de umbanda e candomblé sob ameaça.

No guia, organizado por Ivanir e escrito por Jorge da Silva, há números e relatos sobre vezes em que a religião fez de uma pessoa alvo de um intolerante, mas não só: há ali orientações sobre o que fazer quando isso acontecer, como recorrer ao Ministério Público, pedir a uma autoridade policial uma prisão em flagrante ou pedir ajuda a organizações que vão saber como reagir judicialmente, como o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas.

Um episódio de racismo é resgatado para exemplificar como uma ação civil pode render danos morais: o humorista e hoje deputado Tiririca (PR-SP), condenado a dar a entidades de combate à discriminação racial o que arrecadou com “Veja os Cabelos Dela”. A música foi considerada pela Justiça ofensiva à mulher negra, por versos como “veja os cabelos dela/ parece Bombril de ariar panela”.

Entre abril de 2012 e dezembro de 2015, 71% das queixas de atentados religiosos partiram de adeptos de religiões afrobrasileiras, e 8%, de evangélicos

Ivanir diz à Folha que levantamentos prévios de 2018 mostram que, se o primeiro grupo continua na dianteira, católicos assumiram o segundo lugar no ranking dos discriminados. 

O babalaô atribui essa medalha de prata ao ataque que seguidores da Santa Sé sofrem por venerarem santos, o que a fé evangélica não admite.

O famoso “chute na santa”, quando um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus chutou uma estátua de Nossa Senhora Aparecida (“um bicho tão feio, tão horrível, tão desgraçado”) num programa da Record, é relembrado no livro. 

Isso foi em 1995. Os anos seguintes não economizaram em intolerância. Em 2011, houve a pedrada que uma garota de 11 anos vestida de branco levou ao sair de uma festa do candomblé. 

Três anos depois, um juiz respondeu assim a um pedido do Ministério Público Federal para retirar do YouTube vídeos com ofensas a umbanda e candomblé: ora, não teria por que falar de intolerância religiosa, já que essas manifestações “não contêm os traços necessários de uma religião”. 

Segundo Ivanir, a maioria dos ataques vem de desconhecidos. Em seguida, as denúncias falam em conflitos entre vizinhos de fés distintas. 

O ambiente escolar também é um celeiro de intransigência. “O colégio é um espaço de discriminação muito forte, até levando em conta professores neopentecostais” que desrespeitam alunos de credos afrobrasileiros, diz. 

O desacato também pode vir de um familiar. “Uma pessoa que se converte e quer destruir o santuário da avó”, exemplifica o babalaô.

Agressões

As ocorrências mais frequentes no Brasil seriam de evangélicos que não aceitam os cultos importados da África, vistos como algo diabólico.

“As agressões verbais têm seguido curioso padrão, reunido em poucos e curtos enunciados: ‘Demônios!, vão arder no inferno!, sai, Satanás!, tá amarrado!’”, diz o guia.

Não está na obra, mas o relançamento em 2019 de “Orixás, Guias e Caboclos: Deuses ou Demônios?”, best-seller do bispo Edir Macedo dos anos 1990 esgotado há anos, pôs muitos em alerta. 

O líder da Universal diz já na introdução que há tempos ora por aqueles ligados a “práticas de macumbaria e feitiçaria”. Seria um incentivo e tanto à intolerância, inclusive em suas formas violentas, segundo entidades religiosas afrobrasileiras. 

A pastora luterana Lusmarina Campos, referência entre a minoria progressista no segmento evangélico, disse à Folha durante a 12ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, neste domingo (15), em Copacabana, que é “preciso ficar claro que não são todos os evangélicos que pensam dessa maneira”.

Para Lusmarina, “faz parte da responsabilidade das igrejas, as que não compactuam, que se pronunciem, que seus líderes tenham coragem de dizer que não é possível continuar silencioso”. 

Estamos num país “que avança a rumos perigosos, com uma onda de ódio, fascismo e racismo religioso”, discursa no trio elétrico a makota Celinha Gonçalves. “Não quero que o governo reze, exijo que nos deixe rezar”, diz ela, coordenadora nacional do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira, na passeata. Seu título religioso, makota, vem do candomblé de tradição angolana e é dado para zeladoras de orixás.

Jorge da Silva, por sua vez, minimiza o receio de que a era Jair Bolsonaro, na qual líderes e políticos evangélicos têm uma influência ímpar até aqui, colaboraria para o terrorismo religioso. 

“Não se pode atribuir o acirramento da intolerância ao atual governo. Esta é uma mazela secular de nossa sociedade, desde os tempos de colônia, sempre negada enquanto praticada”, diz. “A diferença é que os grupos discriminados passaram a exigir seus direitos, o que tem causado cada vez mais ‘reação’.”

Membros de religiões afrobrasileiras eram maioria na orla de Copacabana, mas a cena era ecumênica e contemplava de budistas a pagãos da wicca. A caminhada incluiu até grupos não necessariamente ali pela religião, como ciganos e escoteiros. 

A bruxa Alana Morgana, que lidera uma trupe wiccana em São João do Meriti (RJ), afirmou à reportagem que foi alvo de um grupo neopentecostal meses atrás. Foi gravada fazendo um ritual numa encruzilhada de sua cidade e, após as imagens viralizarem, sofrido ameaças de morte, diz.

“Traficantes de Jesus diziam que iam me matar. Fiquei dois meses em cárcere privado, sem poder sair de casa. Diziam que eu assassinava crianças.”

“Quero terminar pedindo perdão”, afirmou em sua vez no trio o padre italiano Renato Chiera. “Tem gente usando Bíblia e nome de Deus para difundir intolerância. Quem odeia é o diabo. Quem faz isso não é de Deus.”

Da Arquidiocese de Nova Iguaçu (RJ), Chiera disse acreditar “num Deus que é pai de todos, não de um grupo só. Não entenderam que é tempo de acolher todo mundo”.

No começo, com o quórum do ato ainda esvaziado, os discursos pela paz entre todos os credos dividiram espaço com outro trio elétrico vizinho: um “pipódromo” do movimento Pipa, Paixão Nacional. Pipas, inclusive algumas com a imagem de Jesus Cristo, nas mãos dos participantes.

Jorge e Ivanir esperam não precisar reeditar uma nova versão do roteiro sobre a intolerância religiosa em 2029. Que os deuses, sejam quais forem que uma pessoa acredita, os ouçam.


Guia de Luta Contra a Intolerância Religiosa e o Racismo

Autor: Jorge da Silva, org. Centro de Articulação de Populações Marginalizadas e babalaô Ivanir dos Santos, 66 págs. Gratuito. 
Para solicitar PDF ou versão impressa: erarirlherufrj@gmail.com

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