Ministros ideológicos e influencer bolsonarista darão palestra em curso de doutorado da PM-SP

Weintraub e Salles estão escalados; PM diz que falarão de segurança em suas áreas

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

Com a presença de dois ministros queridos pelo núcleo ideológico do bolsonarismo, Abraham Weintraub (Educação) e Ricardo Salles (Meio Ambiente), o programa de doutorado da Polícia Militar de São Paulo ganhou capa política. 

Os dois estão escalados para falar na semana que vem no Centro de Altos Estudos de Segurança da PM, assim como Alexandre Borges. Apresentado apenas como jornalista na grade curricular, ele é um influenciador digital ligado à base do presidente Jair Bolsonaro. Dirige o Instituto Liberal e escreve para portais associados à extrema direita, como o Mídia Sem Máscara (fundado por Olavo de Carvalho) e o Reaçonaria (descrito como "o maior portal conservador do Brasil"). Borges está na lista dos 347 perfis que Bolsonaro segue no Twitter.

Em nota enviada à Folha, a assessoria de comunicação da instituição diz que o doutorado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública recebe todos os anos "palestras ministradas por representantes de diversas esferas dos governos, além de comunicadores e jornalistas". 

Destaca a presença, em 2018, de nomes como o do comandante Hamilton Alves, piloto de helicóptero que virou referência de repórter aéreo no país, e de Raul Jungmann, ministro da Defesa no governo Michel Temer. 

Segundo a PM, "as autoridades são convidadas para tratarem de assuntos pertinentes à segurança pública nas suas respectivas áreas". 

No caso de Salles, "a pauta contemplará o tráfico de animais silvestres, as ocupações em áreas de manancial, a degradação de áreas de preservação permanente e ambiental, entre outros temas relacionados". 

Weintraub falará com os 30 delegados e 51 oficiais (entre majores e tenentes-coronéis) do curso sobre "tema relacionado à importância da educação nas instituições policiais". 

Já Borges, o articulista do Reaçonaria e do Mídia Sem Máscara, canais que acusam a imprensa profissional de ter viés esquerdista, abordará "possíveis reflexos das fake news e das redes sociais nas instituições públicas".

Não é inédito que a PM convide quadros de um governo ou próximos a ele para seu programa de ensino. O que não passou batido para pessoas da área da segurança é o fato de Weintraub e Salles nem sequer do campo sejam, e tenham justamente emergido nos últimos meses como coqueluches da claque bolsonarista.

"É comum chamarem aliados ideológicos para esses cursos e/ou pessoas que eles avaliem importante estarem próximas", afirma Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. "É uma forma de se aproximarem do poder, muito comum como estratégia das polícias."

Exemplo: quando o PT governava, Regina Miki, ex-secretária nacional de Segurança Pública, foi convocada por vários órgãos policiais para palestrar.

"O que chama a atenção é o perfil ultradireitista, essa é a novidade", diz Lima. O contrário não acontecia, ter convidados mais à extrema esquerda. "Aceitavam as pessoas que hoje rotulam pejorativamente de 'especialistas'. As polícias deram uma enorme guinada à direita."

Para Camila Nunes Dias, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Violência da USP, "o que define o credenciamento de um docente para um programa de pós é sua carreira acadêmica, avaliada principalmente pelas suas publicações, os trabalhos de pesquisa, de ensino e de formação de alunos (orientações). A do ministro da Educação é uma carreira… nos programas que conheço, ele não seria aceito, pois é uma carreira muito pobre. Produção quase nula, sem doutorado".

Weintraub tem mestrado em administração, fora MBAs.  ​

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