Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Só dois policiais militares participaram da reconstituição da morte de Ágatha

Simulação ocorre na noite desta terça-feira no Complexo do Alemão, zona norte do Rio

Júlia Barbon
Rio de Janeiro

Apenas dois dos onze policiais militares envolvidos no caso da menina Ágatha Félix, 8, participaram da reconstituição da morte da menina, que ocorreu na noite desta terça-feira (1º) no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro.

Inicialmente, a Polícia Civil disse que nenhum dos agentes iria comparecer, mas algumas horas depois parte deles mudou de ideia. Questionado sobre o motivo, o diretor do Departamento de Homicídios, Antônio Ricardo Nunes, se limitou a responder: “Eles tomaram conhecimento e resolveram vir”.

Os dois que participaram trabalham na UPP Fazendinha (Unidade de Polícia Pacificadora), que fica a alguns metros da esquina onde Ágatha foi baleada. Outros seis dessa unidade se ausentaram, e os três restantes apenas haviam prestado socorro à criança na noite daquela sexta-feira (20).

Crianças passam por Caveirão e policial durante a reconstituição da morte da menina Ágatha Félix, 8
Crianças passam por policial e Caveirão durante a reconstituição da morte da menina Ágatha Félix, 8 - Ian Cheibub/Reuters

Outra que faltou à reconstituição foi a mãe da menina, Vanessa Sales, que ainda está muito abalada e passou mal. Testemunhas podem optar por estar ou não no procedimento, porque têm o direito de não produzir provas contra si mesmas.

Além dos policiais, participaram outras seis pessoas que estavam naquela noite no local conhecido como Largo da Birosca. Foi ali que a menina levou um tiro nas costas quando voltava de um passeio no shopping com a mãe, por volta das 21h, dentro de uma kombi.

Uma dessas testemunhas é o motorista, que estava encapuzado para preservar sua identidade. Ele disse em depoimento ter visto um dos policiais da UPP disparando duas vezes em direção a dois homens em uma moto que passou em alta velocidade próximo à van, aparentemente desarmados. Segundo ele e outros moradores, não houve troca de tiros.

Ele havia estacionado o veículo, que estava com o porta-malas aberto porque uma família desembarcava naquele momento, numa rua ocupada por comércios e bastante movimentada. Se houvesse conflito, afirma, não teria parado.

“Vamos fazer todas as medições e confrontá-las com as versões apresentadas na delegacia”, declarou o delegado Nunes antes do início da reconstituição. “Esperamos chegar a essa conclusão, sim, para saber quem efetuou o disparo que matou a menina Ágatha.”

Uma das hipóteses estudadas pela perícia, segundo ele, é que o projétil tenha batido em um poste e desviado antes de atingi-la. Esse poste e uma casa próxima, porém, têm diversas marcas de tiros, possivelmente disparados em outras ocasiões.

Foi encontrado dentro do corpo da garota apenas um fragmento de projétil, que por estar deformado não pode ser confrontado com os cinco fuzis e duas pistolas apreendidos com os PMs. A bala é de fuzil, mas não é possível saber seu calibre, concluiu um laudo do ICCE (Instituto de Criminalística Carlos Éboli).

Ao todo, trabalharam na reprodução simulada 70 policiais civis, incluindo quatro peritos, um deles especialista em reconstituições desse tipo. Eles testaram a versão de cada testemunha separadamente, enquanto todo o entorno estava cercado pelos agentes e por três blindados. 

Os investigadores esperaram escurecer para reproduzir as condições de luminosidade da noite do ocorrido, mas os comércios do cruzamento estavam todos fechados e a passagem de veículos ficou bloqueada, diferentemente daquele dia.

O advogado Rodrigo Mondego, membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ que tem acompanhado a família de Ágatha, ressaltou que as testemunhas estão com muito medo e pediu que elas não fossem expostas.

Ele chegou junto à mãe de uma outra jovem morta no mesmo local em dezembro de 2017, que disse ter ido à reconstituição para apoiar a mãe de Ágatha e pedir justiça. “Eu sei a dor que ela sente, eu perdi duas”, disse diante das câmeras Jaqueline Cardoso, 39, chorando.

Sua filha Karolayne, de 20 anos e grávida, e a neta que estava em seu ventre foram atingidas exatamente ali por três tiros de fuzil, durante um confronto entre policiais e dois homens armados em uma moto. O caso ainda não foi solucionado.

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