Atletas transplantados competem em evento inédito no Brasil

Participantes que receberam rins, córneas, medula, e até corações competem em quatro modalidades

Curitiba

Os nadadores Heloisa de Lima Riske, 14, de Curitiba (PR), e Rodrigo Machado, 47, de São Paulo (SP), vão se encontrar na capital paranaense a partir desta quinta-feira (21). Ela, jovem competidora, e ele, experiente atleta, não se conhecem, mas vão compartilhar a piscina em um campeonato inédito no Brasil, direcionado apenas a transplantados.

Quando tinha dois anos, Heloisa foi diagnosticada com síndrome nefrótica. A doença evoluiu para uma insuficiência renal crônica, o que a levou a fortes recaídas no tratamento. Em 2013, ela foi operada e recebeu um rim da mãe, Suian de Lima.

Heloisa Riske, 14, que compete na natação nos jogos para transplantados
Heloisa Riske, 14, que compete na natação nos jogos para transplantados - Valdecir Galor/SMCS

Já Rodrigo teve a ajuda da irmã, Renata, para uma nova chance de vida. Descobriu a leucemia em 2012 e recebeu dela a medula óssea no ano seguinte. Em tratamento por conta de um novo câncer no sangue, descoberto em 2016, o nadador tem no esporte seu grande incentivo.

“Tudo tem um propósito, nunca questionei ou reclamei de ter ficado doente. Graças a tudo isso e ao transplante, consegui realizar um sonho, que era participar de uma competição internacional”, diz o atleta, que detém o título de maior medalhista brasileiro em jogos mundiais para transplantados, com dez conquistas em duas edições.

A partir das competições internacionais, que ocorrem há mais de 30 anos, a Associação Brasileira de Transplantados (ABTx) passou a idealizar os jogos no país. Esta é a primeira edição, que tem 68 atletas em quatro modalidades: natação, tênis, atletismo e corrida de rua. Os participantes receberam rins, córneas, medula, e até corações de doadores.

Além de mostrar que atividades físicas ajudam a evitar doenças, o objetivo do evento, que segue até domingo (24), é chamar a atenção para a importância da doação.

“Nos locais onde acontecem competições, chega a ter um aumento de 30% no número de doadores, porque desperta o interesse”, diz o presidente da ABTx, Edson Arakaki, que recebeu um rim da irmã há 18 anos. Tenista, ele conquistou medalhas em várias disputas pelo mundo.

Edson Arakaki, tenista, que recebeu um rim da irmã há 18 anos
Edson Arakaki, tenista, que recebeu um rim da irmã há 18 anos - Divulgação

Balanço do Ministério da Saúde, com dados do primeiro semestre de 2018 em comparação com o mesmo período de 2019 aponta para um crescimento de transplantes considerados complexos, como de medula óssea, que aumentaram 26,8%, e de coração, com alta de 6,3%.

Juntamente com outros nove estados, o Paraná se destacou por ter evoluído no índice geral e, ao lado de Pernambuco e Ceará, zerado a fila de transplantes de córnea.

“Há muitos mitos em relação à doação, como de medula. Eu mesmo havia me cadastrado antes da doença, mas a chance de ser chamado como doador é mínima”, explica Machado.

Limitações

Outra lenda que os competidores pretendem quebrar com a participação nos jogos é em relação a possíveis limitações dos transplantados. “Até para conseguir emprego é difícil. As pessoas acreditam que, se você passou por um transplante, tem alguma restrição”, diz Arakaki. Na maioria das vezes, ele afirma, a única condição é tomar medicamentos para evitar rejeição.

As provas não possuem adaptações, como explica o diretor de esporte da prefeitura de Curitiba, que coordena o evento, Carlos Edurdo Pijak. “Apenas pedimos uma avaliação da condição de cada atleta. Cada um apresentou exames para ter liberação médica”, explica.

No caso de Heloisa, um esporte de baixo impacto, como a natação, foi indicação do próprio tratamento, um ano após o transplante. “Eu comecei, sinceramente, para não ter que voltar mais para o hospital”, afirma. Desde então, a estudante não passou por novas internações e diminuiu os medicamentos de uma dezena para apenas três.

O esporte virou paixão e, hoje, Heloisa ensaia carreira na educação física. Os treinos ocorrem duas vezes por semana em uma piscina pública da cidade. Nos jogos dos transplantados, ela vai competir em quatro modalidades: 100 m e 50 m livre, 50 m costas e 50 m peito.

Já Suian não esconde o orgulho das braçadas mais longas da filha, graças ao órgão que ela doou. "Há ainda muitos mitos sobre a doação. Na hora, nem pensei sobre. É minha filha, qualquer mãe doaria, mas não me fez falta nenhuma e foi como qualquer outra cirurgia”, diz.

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