Famosa pelos pancadões, Paraisópolis tem de jazz a forró

Artistas da favela de SP querem quebrar estigma do gênero musical e mostrar outros estilos

Vagner de Alencar
São Paulo | Agência Mural

Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, foi parar nos holofotes de todo o país por conta do baile de funk DZ7, que chega a atrair cerca de 5.000 jovens em um único pancadão.

No último domingo (1º), nove pessoas morreram em uma operação policial durante uma dessas festas, aparentemente pisoteadas.

Artistas e moradores da comunidade buscam desmistificar o gênero musical como a única atração na favela. 

“É um grande engano dizer que aqui só rola funk. Sou prova disso, canto sertanejo. Aqui tem pagode, samba e forró”, afirma o morador Kaddu Kelvin, 31. Ele costuma se apresentar na maior casa de shows do bairro, o Forró da Juliana.

A três quadras do baile funk, o estabelecimento chega a receber 1.500 pessoas por fim de semana. O gênero que dá nome à casa predomina, mas há espaço para outros ritmos.

“Antes os moradores precisavam sair da comunidade para curtir forró, geralmente em Pinheiros. Agora não mais”, diz Priscila Prudêncio, 32, dona do local.

Segundo dados da União de Moradores e Comércio local, Paraisópolis tem cerca de 100 mil moradores —dos quais 80% são do Nordeste— e mais de 8.000 estabelecimentos comerciais, na maioria abertos pela própria população.

“O forró é um dos estilos prediletos de quem mora no Nordeste. Abri a casa há quase dez anos porque não tinha nenhum lugar bacana para esse público”, afirma a empresária. 

Além de contratar cantores locais, Priscila recebe bandas do Nordeste e diz que maior parte de seu público é da comunidade, ao contrário do que acontece no baile da DZ7.

O pancadão lota as ruas do centro de Paraisópolis com milhares de jovens que chegam em caravana, inclusive de outras cidade, especialmente da Grande São Paulo. 

Mas nem só de funk e forró vive a favela. Evandro Santos, 21, se juntou a seis amigos, todos da comunidade, para formar a banda de jazz e indie alternativo Evandro e Los Negros. “Muitos não acreditam quando falamos que somos de Paraisópolis. A galera discrimina a periferia como um lugar onde só rola funk”, afirma.

O grupo realiza de três a cinco apresentações por mês, em saraus e barzinhos na comunidade ou em casas de shows no centro de São Paulo.

Santos descreve as mortes dos nove jovens em seu bairro como chacina e diz que a tragédia ajudou a reforçar a forma negativa como as pessoas veem seu bairro.

“Não conseguimos divulgar nosso trabalho porque o foco está na chacina. O foco, na maioria das vezes, é só a desgraça. Mas arte, sem chance. Acaba complicando muito.”

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