Finlândia tem até ombudsman para zelar por igualdade de gênero

Tema é caro ao país europeu, que tem parlamento com 47% de mulheres

Helsinque

Em seu primeiro ano na Finlândia, a peruana Elizabeth Tejada se assustou, por volta das 20h30 de uma noite de inverno, quando voltava para casa e passou por uma região deserta em Espoo, na grande Helsinque.

“Fiquei assustadíssima e liguei para uma amiga. Disse a ela: ‘Olha, estou sozinha na rua, estou ligando para você saber se acontecer alguma coisa’. Ela riu. ‘Está tudo bem, nada vai acontecer’. Em Lima, eu jamais poderia sair tranquila assim em um lugar vazio.”

É com essa história que Elizabeth responde à pergunta sobre as diferenças entre ser uma mulher no Peru, de onde vem, e na Finlândia, onde vive há seis anos e onde hoje, aos 36 anos, estuda engenharia elétrica.

A Finlândia costuma ocupar o topo dos rankings dos países onde há maior igualdade de gênero do mundo. Aparece em 4º lugar na última lista do Fórum Econômico Mundial (atrás apenas dos vizinhos escandinavos), enquanto o Brasil está na 95ª posição, entre 149 países.

A entidade avalia a participação da mulher na economia e na política, dados de saúde e de educação, tempo gasto com atividades domésticas e outros índices.

É uma política moldada há tempos. O direito ao voto das mulheres finlandesas é garantido desde 1906 —no Brasil, um dos pioneiros da América do Sul, foi em 1932.

A primeira eleição parlamentar no país aconteceu em 1907, e 19 mulheres foram eleitas na ocasião —por aqui, a primeira deputada foi eleita em 1933. Hoje, 47% do parlamento finlandês é feminino. E uma ministra mulher foi nomeada pela primeira vez em 1926 (56 anos antes do Brasil).

“Nós somos um país pequeno, éramos pobres e sempre fomos chamadas a atuar”, diz Annamari Asikainen, especialista sênior do Ministério de Assuntos Sociais e Saúde encarregada de promover políticas de igualdade de gênero. 

“Durante as guerras, precisávamos da força de trabalho feminina, já que os homens foram lutar, e não podíamos ficar em casa. Também tivemos que trabalhar em indústrias para pagar dívidas com a Rússia [da qual a Finlândia se tornou independente apenas em 1917]. E assim entramos no mercado de trabalho”, diz.

Ela coloca na gênese da igualdade finlandesa o direito à herança, de 1878, que permitiu que mulheres herdassem propriedades de seus pais.

Mas a igualdade de gênero é privilégio de países ricos, como a Finlândia, ou o Brasil também pode sonhar em se tornar menos desigual?

“Bom, a Finlândia também era um país muito pobre até décadas atrás”, responde de bate-pronto Asikainen, que dá a receita: “É preciso investir em educação.”

“Nós não conseguiríamos entrar no mercado de trabalho se não tivéssemos um sistema de creches de boa qualidade e que é pago pelo governo. A responsabilidade pelo cuidado das crianças foi compartilhada igualmente pela sociedade”, diz. “E independência econômica é uma coisa muito importante.”

“O parlamento demandou que o governo fizesse isso. Hoje todos consideram muito importante. Talvez, nos anos 1970, não fosse tão importante para os homens, mas as mulheres no parlamento tiveram suas vozes ouvidas”, diz.


Finlândia

População: 5,5 milhões de habitantes
Mulheres 2,8 milhões
Homens 2,7 milhões

Expectativa de vida ao nascer
Mulheres 84,2 anos
Homens 78,7 anos

Taxa de emprego entre 15 e 64 anos
Mulheres 70,8%
Homens 74,4%

Disparidade salarial
Mulheres recebem € 0,84 centavos para cada € 1 que homens ganham

Eleições parlamentares de 2019
Mulheres 93 cadeiras (47%)
Homens 107 cadeiras (53%)

Fonte: Governo da Finlândia e Fórum Econômico Mundial


A Finlândia tem até uma autoridade independente para supervisionar o cumprimento de ações para diminuir a diferença no espaço de homens e mulheres na sociedade, o Ombudsman pela Igualdade.

As políticas mais incensadas pelo governo nessa área são aquelas que envolvem maternidade. O estado dá a todas as famílias um “pacote de maternidade”, com itens como roupas e fraldas, ou um auxílio de € 170 (R$ 785) para comprá-los.

O governo também paga um benefício para os bebês recém-nascidos, de pelo menos € 94 por mês. Pais e mães podem tirar licenças extras, depois que o bebê nasceu, que somam no total 158 dias. 

Um dos pais também tem o direito de tirar licença não remunerada do trabalho até que o filho complete três anos, com a garantia de que não será demitido.

Com uma filha de seis anos, Elizabeth Tejada diz que “é difícil ser mãe solteira em qualquer parte do mundo, mesmo aqui, mas é um pouco menos difícil na Finlândia, porque você se sente menos sozinha, existe uma rede de apoio”, diz.

A igualdade, claro, não é plena. As mulheres recebem 84%, em média, dos salários dos homens (no Brasil, é 79,5%), e gastam uma hora a mais com afazeres domésticos por dia. Há também, segundo ​Asikainen, um sério problema de violência doméstica.

O governo avança agora também sobre temas masculinos, para melhorar a escolaridade e saúde dos homens —a expectativa de vida ao nascer é seis anos menor para eles.

O jornalista viajou a convite do governo finlandês

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do informado, a Finlândia se tornou independente da Rússia em 1917, não em 1907. O texto foi corrigido.

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