Chuvas derrubam paredes, destroem móveis e deixam famílias sem casa em MG

Defesa Civil de BH renovou o alerta de risco geológico até a próxima sexta-feira (31)

Casa atingida por um deslizamento de terra no Jardim Alvorada, em Belo Horizonte - Eduardo Anizelli/Folhapress
Belo Horizonte e Contagem (MG)

Na noite de sexta-feira (24), quando Belo Horizonte registrou a maior média de chuva em 110 anos, Geraldo Pereira dos Santos, 45, convidou o seu vizinho para se abrigar com a família em uma garagem, espaço em que ficariam mais seguros contra um possível deslizamento de terra.

Poucos minutos depois, Geraldo ouviu um estrondo parecido com uma batida de carro. O deslizamento de terra de um barranco havia soterrado a casa na qual o vizinho estava com a mulher e os filhos.

"A casa dele estava debaixo dos escombros já. Puxamos e tiramos ele de lá. Mesmo assim, ele pulou dentro do córrego para tentar tirar as crianças, mas não tinha como [resgatá-las]", conta Geraldo. 

O deslizamento de terra matou a esposa e os três filhos do homem, segundo vizinhos, além de outro homem de 49 anos, sem relação com a família e o único identificado até agora. As idades das outras vítimas ainda não foram confirmadas.

As buscas pelos cinco corpos foram encerradas neste domingo (26) pela manhã, no bairro Jardim Alvorada. A capital mineira registrou 13 mortes em decorrência das chuvas dos últimos dias. Ao todo, 44 pessoas morreram no estado, segundo a Defesa Civil, e 19 estão desaparecidas.

A Prefeitura de Belo Horizonte afirmou que havia encaminhado a família para uma pousada na sexta-feira, mas que eles voltaram ao local durante a noite, quando ocorreu o desmoronamento. A recomendação da Defesa Civil é que as pessoas não retornem para residências em risco.

A Defesa Civil de BH renovou o alerta de risco geológico até a próxima sexta-feira (31), pedindo atenção aos riscos de deslizamento, queda de muros e erosões.

Durante o fim de semana, o número de desalojados e desabrigados no estado subiu para 13.887 e 3.354, respectivamente, segundo a Defesa Civil de Minas Gerais. 

Vivendo quatro casas abaixo de onde ficava a casa soterrada, Lucinéia Braga dos Santos, 48, diz que as chuvas sempre foram fortes na região, mas nunca tinha tido a casa interditada pela Defesa Civil antes. Ela vive há mais de 40 anos ali.

Com a casa no alto, perto do barranco com risco de desmoronar, ela foi para a casa de uma sobrinha junto com os dois filhos, dois gatos e o sobrinho que mora na casa ao lado. A irmã, que vive em uma casa em frente à dela, no mesmo terreno, também saiu.

“A gente não tem como ter uma casa num lugar decente. É todo mundo assim, pode perguntar por aqui. Foi o que deu para comprar”, conta.

Vinte minutos antes do deslizamento que matou cinco pessoas, a terra invadiu, quebrou paredes, arrastando e destruindo fogão e geladeira da casa de Edina Luiza de Castro, 52. A espuma interna da porta da geladeira saltou para fora, e as grades do fogão foram entortadas. A parede que separava um dos quartos da cozinha foi derrubada. 

Ela, os irmãos e a mãe vivem em cinco moradias no mesmo terreno que o pai comprou há mais de 40 anos. Edina e família deixaram o local na quarta-feira, quando notaram que um muro de contenção da prefeitura, na parte de trás, tinha cedido cerca de 40 centímetros.

No domingo pela manhã, quando conversou com a Folha, ela limpava com uma mangueira algumas roupas que conseguiu recuperar, para trabalhar essa semana. Voltar para casa não é mais uma opção.

“Não tenho nem cabeça ainda para pensar. É trabalhar para recomeçar, mas aqui não tem mais condições de ficar”, diz ela.

A irmã de Edina, Rosemeire Luiza de Castro, 45, conta que a família não dormiu direito na última semana. Passaram uma das noites em pé, na garagem em frente às casas, local em que os Bombeiros indicaram que ficassem caso voltasse a chover, para facilitar a fuga.

"Até um sereno que cair agora, a gente fica com medo", afirma Rosemeire, que está entre a casa do namorado e a de parentes.

O ministro de Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, sobrevoou áreas atingidas pela chuva na Grande BH e reuniu-se com o governador Romeu Zema (Novo) e oito prefeitos de cidades atingidas, entre eles, o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD).

Em Minas, ele anunciou que o Bolsa Família e o saque do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) serão antecipados para os atingidos. 

Canuto disse ainda que o governo federal tem R$ 90 milhões disponíveis para ações emergenciais na conta da Defesa Civil, mas que a liberação depende da demanda dos governos estaduais e municipais.

Romildo Nunes do Nascimento, 47, voltava para casa no fim da tarde do dia 19 de janeiro, quando a vizinha avisou que a casa dele tinha sido inundada e havia risco no local.

Romildo está com outras 44 pessoas de outros três bairros, em uma escola municipal, há uma semana. A Prefeitura de Contagem, cidade da região metropolitana de BH, providenciou um aluguel social para ele e para a esposa.

"Perdi tudo. Tudo, tudo, tudo. Só não perdi minha vida, que é o mais importante", diz ele. 

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