Tiro perfura mão de pai e atinge cabeça de menino de 5 anos no Rio

Criança é a 4ª baleada neste ano e foi atingida em campinho de futebol durante confronto entre criminosos e policiais

Rio de Janeiro

Era uma noite de segunda-feira como as outras, e pais e filhos se reuniam no campinho no alto de uma rua do morro São João, no Engenho Novo, na zona norte carioca. Paulo Roberto Monteiro e seu caçula, Arthur, de 5 anos, esperavam do lado de fora a partida do outro time acabar. 

O plano era ficar para o churrasco que acontece toda vez depois da pelada, mas os tiros começaram antes disso, por volta das 21h. Alguns saíram correndo, outros se jogaram no chão, e Paulo Roberto chegou a deitar em cima do filho para protegê-lo. Não foi suficiente.

Um projétil atravessou sua mão esquerda e só parou quando chegou na cabeça do menino. Colocaram Arthur direto no carro e o levaram para o hospital particular Vital, a menos de 200 metros dali. Não tinha neurocirurgião, e o jeito foi intubá-lo para que o transferissem para o Hospital Municipal Salgado Filho.

 Arthur Gonçalves Monteiro, 5, é a quarta criança baleada na região metropolitana no Rio só em janeiro
Arthur Gonçalves Monteiro, 5, é a quarta criança baleada na região metropolitana no Rio só em janeiro - Reprodução

Lá, o pai levou 12 pontos na mão enquanto o filho passava por uma cirurgia de uma hora e meia. A equipe médica estancou a hemorragia e limpou as áreas do ferimento, porém o garoto precisaria depois do acompanhamento de um neuropediatra, coisa que a unidade não tinha.

Por volta das 2h, começou o segundo obstáculo: achar uma vaga em UTI pediátrica. A família foi até o plantão judiciário, no centro do Rio de Janeiro, e às 5h30 conseguiu um ofício determinando a transferência para outra unidade. A Secretaria Municipal de Saúde, no entanto, diz que achou a vaga através da sua central de regulação e que a interferência judicial não foi necessária.

Às 11h15, Arthur, estabilizado, deu entrada no Hospital Estadual Getúlio Vargas, a mais de 10 km de distância, onde está internado até agora em estado grave e com a bala ainda alojada na cabeça. Os médicos disseram que ele teve uma leve melhora, sem inchaço no cérebro, e que a ideia era começar a retirar a sedação ainda nesta terça (28) para ver como o menino reagiria.

Essa história quem conta é o tio paterno do garoto, o refrigerista João Paulo Esperança. Nesta segunda (27), seu sobrinho Arthur Gonçalves Monteiro se tornou a quarta criança baleada na região metropolitana no Rio só em janeiro deste ano, sendo que a primeira delas acabou morrendo.

Foi Anna Carolina de Souza Neves, 8, atingida na cabeça no sofá de casa em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, na noite do último dia 9. As outras duas vítimas são meninos de 11 e 8 anos, baleados no Complexo do Alemão e na Linha Vermelha, respectivamente, segundo a plataforma colaborativa Fogo Cruzado.

No momento em que Arthur levou o tiro, ocorria uma troca de tiros entre criminosos e policiais militares na região. A versão da PM é de que agentes da UPP São João (Unidade de Polícia Pacificadora) passavam pela área quando foram atacados.

"Os policiais reagiram e ocorreu confronto no local. A reação foi necessária para cessar os disparos efetuados pelos criminosos que atacavam a guarnição, ou seja, o revide foi em legítima defesa", diz uma nota da corporação. "Posteriormente, a equipe policial foi informada que duas pessoas feridas, sendo uma criança, foram socorridas."

Agora, a Polícia Civil está investigando de onde partiu o disparo que atingiu o menino. Os policiais envolvidos na ação já foram ouvidos e tiveram suas armas apreendidas e encaminhadas à perícia. Testemunhas também prestarão depoimento, de acordo com a delegacia de Engenho Novo.

A família de Arthur já não mora mais no morro São João. Se mudou há cerca de quatro anos para um condomínio perto dali, mas mantinha a tradição do futebol de segunda-feira. O pai, supervisor da segurança do Fórum Regional do Méier (zona norte), costumava chegar do trabalho e já pegar o menino, que o esperava com as chuteiras calçadas.

Além da bola, o garoto tem como paixões o judô e o videogame. Ele mora com o pai, a mãe —funcionária de uma creche—, e uma irmã de 12 anos, que estão esperançosos. "Se a gente não tiver esperança, quem vai ter?", diz o tio.

Outra bala perdida

Outro caso de bala perdida chamou a atenção no Rio no último sábado (25) e está sendo investigado. O economista Felipe Fucs Mizrahy, 22, estava com amigos no bar Bunda de Fora quando sentiu um forte impacto no ombro esquerdo seguido de falta de ar e foi levado ao hospital particular Copa D'Or, segundo a revista Época. 

Ele escreveu nas redes sociais nesta segunda (27): "Galera, estou bem! Prefiro que saibam por mim antes de distorcerem os fatos. Fui atingido por uma bala perdida nas costas, sábado, num bar em Copa. Estou internado desde então. Agradeço a todos que rezaram por mim. A bala não atingiu nenhum órgão vital, só fraturei a costela. Devo receber alta até quarta".


As 7 crianças mortas na região metropolitana do Rio em 2019 e 2020

1. Jenifer Cilene Gomes, 11 (14.fev.2019)

Morreu baleada nas costas na porta de casa na favela Vila Nova Jerusalém, na zona norte. Segundo moradores, policiais à paisana entraram na viela atirando. Segundo a PM, agentes acharam a menina já ferida. As investigações ainda não foram concluídas.

2. Kauan Peixoto, 12 (16.mar.2019)

Morreu baleado nas costas e no rosto ao ir buscar um lanche perto da casa do pai, no município de Mesquita. Segundo a família, policiais atiraram em sua direção. Segundo a PM, agentes acharam o menino ferido na retaguarda de um confronto com criminosos. As investigações ainda não foram concluídas.

3. Kauã Rozário, 11 (10.mai.2019)

Foi baleado andando de bicicleta no caminho da escola, na favela Vila Aliança (em Bangu, zona oeste do Rio), e ficou seis dias na UTI antes de morrer. Segundo moradores, policiais à paisana perseguiram e atiraram em dois homens numa moto, mas acertaram também o menino e um mototaxista. Segundo a PM, agentes foram atacados e encontraram três pessoas já feridas. As investigações ainda não foram concluídas. 

4. Kauê Ribeiro dos Santos, 12 (8.set.2019)

Morreu baleado na cabeça quando subia a rua de casa com um amigo depois de vender balas no semáforo, no Complexo do Chapadão (zona norte do Rio). Segundo moradores, ele deu de cara com policiais que desciam a favela atirando. Segundo a PM, agentes foram atacados e cinco pessoas ficaram feridas no confronto, incluindo Kauê. A investigação foi concluída, mas o Ministério Público disse que ainda não a recebeu.

5. Ágatha Vitória Sales Félix, 8 (20.set.2019)

Morreu baleada nas costas dentro de uma kombi, no Complexo do Alemão (zona norte do Rio), quando voltava de um passeio com a mãe. As investigações concluíram que o PM Rodrigo José Soares atirou em direção a uma moto que achou suspeita, mas acertou um poste e a bala recocheteou, atingindo a menina. Ele é réu por homicídio doloso. 
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/12/justica-do-rio-aceita-denuncia-contra-pm-por-morte-da-menina-agatha.shtml

6. Kethellen Umbelino de Oliveira Gomes, 5 (12.nov.2019)

Morreu baleada na perna quando criminosos atiraram em Davi Gabriel do Nascimento, 17, que também foi a óbito. No mesmo dia, a Polícia Civil prendeu Thiago Porto, que faria parte de uma milícia da região, sob suspeita de ter participado do assassinato. As investigações, porém, ainda não terminaram.

7. Anna Carolina de Souza Neves, 8 (10.jan.2020)

Morta baleada na cabeça no sofá de casa, em Belford Roxo, na região da Baixada Fluminense. Segundo a PM, não houve operação naquela noite. A Polícia Civil investiga o caso.

Fonte: ONG Rio de Paz

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