Quem tomou cerveja suspeita após outubro e teve sintomas deve ser observado, diz governo de MG

Há 14 pessoas hospitalizadas, parte delas em situação grave; quatro morreram

Geórgea Choucair
Belo Horizonte

Todas as pessoas que consumiram as cervejas Belorizontina e Capixaba, da fabricante Backer, desde o dia 30 de outubro e apresentaram sintomas da chamada síndrome nefroneural precisam ser observadas por equipes de saúde. A afirmação é do subsecretário em exercício de Vigilância em Saúde de Minas Gerais, Filipe Laguardia.

A manifestação dos sintomas é precoce e costuma acontecer em 72 horas na maior parte dos casos, segundo Lúcia Paixão, diretora de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte. As pessoas apresentam náuseas, vômitos, desconforto abdominal e em seguida param de urinar, com comprometimento da função renal. 

A substância dietilenoglicol foi encontrada no sangue de pacientes que apresentaram sintomas de uma síndrome nefroneural e relatam ter consumido a cerveja Belorizontina, da empresa mineira

“A rede de saúde do estado já está preparada para atender essas pessoas”, afirmou Laguardia, em entrevista nesta sexta-feira (17) na sede do governo mineiro.

O número de casos da síndrome causada pela ingestão de cerveja contaminada pode aumentar, diz o subsecretário. 

Até quinta-feira (16) foram notificados 18 casos suspeitos de intoxicação exógena por dietilenoglicol. Desses pacientes, 16 são do sexo masculino e 2 do sexo feminino. Quatro casos suspeitos de óbito foram confirmados, mas, até o momento, em apenas um caso houve a confirmação de intoxicação pelo dietilenoglicol.

Lúcia Paixão pediu ainda que os consumidores não descartem a bebida em lixo ou esgoto, pois outras pessoas podem achá-la e serem intoxicados. As garrafas devem ser entregues à Vigilância Sanitária do município. 

Pessoa segura garrafas da cerveja Belorizontina em Belo Horizonte; suspeita é de que contaminação tenha matado três - Douglas Magno
Pessoa segura garrafas da cerveja Belorizontina em Belo Horizonte; suspeita é de que contaminação tenha matado três - Douglas Magno - 15.jan.20/AFP

O número de óbitos pode subir, pois o quadro de saúde de alguns internados é grave, informou Virgínia Andrade, diretor do Hospital Eduardo de Menezes (Fhemig).

O total de suspeitas por intoxicação também pode ser maior do que o oficialmente informado, pois muitos casos chegam à Secretaria Estadual de Saúde sem informações necessárias para entrar no boletim de suspeitas. 

As manifestações neurológicas podem ser apresentadas 10 ou 12 dias depois da ingestão da bebida, segundo o infectologista Adebal Filho, do Hospital João 23. De acordo com o médico, vários fatores são determinantes na manifestação da intoxicação. 

“O primeiro é se o paciente estava com estômago cheio, que absorve menos o álcool e, consequentemente, tem uma menor dose ingerida”, afirma. O álcool, diz, é um antídoto. “Se a pessoa ingeriu com a cerveja uma quantidade mais significativa de outro álcool, isso tem efeito protetor”, explicou. Os pacientes em estado grave estão recebendo o etanol como antídoto.

O médico Adebal informou que não havia registros de contaminação por dietilenoglicol havia 40 anos, o que dificulta as investigações. “Nós não sabemos quais são as chances de sequelas ou não”, completa Virgínia.  

Até quinta-feira (16), a Secretaria Municipal de Saúde recolheu 1.740 garrafas de cerveja da marca Backer nas nove regionais da capital,  sendo 210 Belorizontinas dos lotes L1 1348, L2 1348 e L2 1354. Os produtos vão ficar sob custódia da Secretaria Municipal de Saúde e estão à disposição da Polícia Civil para dar prosseguimento às investigações.

Nesta quinta, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento informou ter identificado a presença das substâncias monoetilenoglicol e dietilenoglicol, proibidas em alimentos, em oito produtos da cervejaria Backer.

A substância tóxica estava presente, além das marcas Belorizontina e Capixaba, também nas Capitão Senra, Pele Vermelha, Fargo 46, Backer Pilsen, Brown e Backer D2. 

A Policia Civil mineira passou a mirar também a empresa química fornecedora de monoetilenoglicol à cervejaria Backer. Na tarde desta quinta, policiais vistoriaram a empresa em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Documentos e produtos químicos foram recolhidos e encaminhados para a perícia. 

Um ex-funcionário da Backer e um ex-funcionário dessa fornecedora foram ouvidos pela polícia. A instituição não deu detalhes sobre os depoimentos.

Nova perícia na Backer foi realizada nesta quinta, com equipe de policiais, peritos e funcionários do ministério.

"Os advogados da cervejaria apresentaram o ex-funcionário da empresa química para prestar depoimentos. Eles tiveram amplo acesso à produção desta prova (depoimento), tendo, inclusive a oportunidade de fazer perguntas, levando cópias dos depoimentos", diz nota da polícia. 

Ainda segundo a policia, "tanto o monoetilenoglicol e dietilenoglicol são substâncias tóxicas e foram encontradas em todos os materiais recolhidos e analisados até o presente momento". Em geral, o dietilenoglicol é usado na indústria como anticongelante e para evitar que os líquidos evaporem. O produto é tóxico e não deveria ter contato com a bebida, passando por cano isolado dos tanques.

A Backer ainda não se pronunciou sobre os resultados divulgados nesta quinta. Em nota, a empresa afirma que "nunca comprou e nem utilizou o dietilenoglicol em seus processos de fabricação", mas diz usar o monoetilenoglicol em processo de resfriamento dos produtos. Diz ainda que "aguarda os resultados das apurações e continua à disposição das autoridades".

Erramos: o texto foi alterado

Apenas quem tomou cerveja de rótulos da Backer após outubro e teve os sintomas da síndrome nefroneural  precisa ser observado por equipes de saúde, e não todas as pessoas que consumiram o produto desde então. O texto foi corrigido.

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