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Grandes eventos concentram registros de roubos e furtos de celulares em SP

Pico neste ano foi no pré-Carnaval, que teve quatro vezes mais casos que média de dia comum

Bloco do DJ Alok durante o pré-Carnaval, em 16 de fevereiro, pico de roubos de celulares em SP
Bloco do DJ Alok durante o pré-Carnaval, em 16 de fevereiro, pico de roubos de celulares em SP - Eduardo Knapp 16.fev.2020/Folhapress
São Paulo

É um crime com data e local marcados. Durante o pré-Carnaval deste ano, São Paulo teve o maior número de roubos e furtos de celulares desde 2010, quando começou essa contabilização.

Apenas no dia 16 de fevereiro, quando desfilaram os blocos do DJ Alok, na zona oeste da cidade, e Acadêmicos do Baixo Augusta, na região central, houve o registro de 2.334 aparelhos furtados ou roubados. O levantamento considera apenas aqueles crimes que foram registrados na polícia.

Esse dia exemplifica movimento que começou em 2017: explosão desses crimes durante grandes eventos. Até então, essas ocasiões não se diferenciavam de um dia normal.

 

Em 23 de junho do ano passado foram registrados 2.313 boletins de ocorrência de furtos e roubos de celular, com alta concentração justamente no caminho por onde passa a Parada do Orgulho LGBT. Isso dá quase quatro vezes a média de um dia comum naquele ano, que era de 596 casos.

Levantamento feito pela Folha, considerando registros da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, mostra que há crescimento de crimes ao longo do ano como um todo. De 2018 para 2019, houve aumento de 26% no registro desses crimes. De 2017 para 2018, o aumento foi de 37%.

O crescimento, porém, é mais visível durante os megaeventos.

A arquiteta Karen Mohn, 31, já nem leva mais o celular quando vai a um evento desses.

Ela foi furtada há dois anos em um bloco de Carnaval no Vale do Anhangabaú, na região central. “Acho até que foi combinado. Eu estava comprando bebida, me chamaram, uma sacola caiu, eu me distraí. Quando vi, minha bolsa estava aberta”, diz.

Mohn conhecia o risco. Seu namorado foi furtado duas vezes, em 2016 e também em 2018. Por isso, naquele dia, ela havia levado um celular mais barato. “Apesar de tudo, ainda tive que cancelar tudo. Foi mais transtorno que prejuízo.”

Ela não fez boletim de ocorrência. “Não vale a pena. Uma amiga foi roubada, tentou fazer e o policial disse que não adiantava nada. Com a minha mãe foi a mesma coisa. Eu sei que, teoricamente, é bom fazer o boletim. Mas a impressão que dá é que a polícia tem muita coisa para resolver e não dá importância a isso”, afirma ela.

Apesar da desilusão de Mohn, é importante registrar o crime para que o governo saiba a dimensão do problema e tenha em mãos estatísticas para ajudar a coibi-lo. Além disso, assim fica mais fácil devolver o aparelho ao dono caso ele seja recuperado.

“Estatisticamente, o furto e o roubo de celular impacta demais na criminalidade. Por isso hoje é uma prioridade a repressão a esse tipo de crime”, diz o delegado Júlio Geraldo, titular do 3º Distrito Policial da capital, no centro da cidade, região que concentra grande parte dos casos.

O número de roubos cresce, afirma o delegado, porque os aparelhos custam cada vez mais, “o que desperta cobiça do furtador.” 

Geraldo diz que a Polícia Civil também identificou os padrões levantados pela Folha e que faz operações em datas e locais onde esses crimes se concentram, “mas ainda assim é um público muito grande, e os ladrões oportunistas vão.”

O professor da FGV e especialista em segurança pública Rafael Alcadipani concorda. “Esse é um crime que tem em todo lugar do mundo onde houver aglomerações, aqui, na França, na Alemanha. É preciso alertar as pessoas a tomarem cuidado com seus pertences”, diz.

O levantamento feito pela reportagem mostra que aumentou a proporção de furtos nas subtrações de celular. Foram 50% do total de casos em 2019, contra 27% do total de casos em 2010.

Ele afirma que esses delitos valem a pena para o criminoso por uma série de motivos. É difícil ser pego em flagrante, na maior parte das vezes não é preciso usar uma arma e, principalmente, porque o preço de revenda é alto. “Quem rouba um carro dificilmente vende por muito mais de R$ 1.000. Se você rouba um iPhone caro, pode vender por mais que isso”, afirma.

O delegado Júlio Geraldo diz que um dos focos de atuação do setor de inteligência da Polícia Civil é a repressão aos receptadores, “quem recebe esse aparelho de origem criminosa e dá a ele algum destino, seja desmontando, revendendo ou exportando”, e cita números: segundo o delegado, em 2019, 17.500 celulares foram recuperados e 553 pessoas foram presas.

Nesta última quarta (11), a polícia recuperou mais de 500 celulares sem nota fiscal durante uma operação na zona norte de SP.

Comprar um produto roubado também é crime, de receptação, previsto no Código Penal, com pena de um a quatro anos de reclusão e multa, mesmo que o comprador não saiba que o aparelho é produto de um crime.

Por isso, ao comprar um celular usado, é importante exigir a nota fiscal do aparelho. Também se pode checar se alguém pediu o bloqueio do telefone pelo Imei, no site consultaaparelhoimpedido.com.br.

A prefeitura diz que faz um trabalho integrado com as forças estaduais de segurança em todos os eventos de grande porte organizados pelo município, onde atua também a Guarda Civil Metropolitana.

A SSP diz, em nota, que recuperou 2.548 celulares só nos dois primeiros meses do ano e que faz ações para combater esses crimes.

Há algumas formas de se proteger para evitar um prejuízo maior caso tenha seu celular roubado.

Uma delas é usar nesses eventos um segundo celular, mais barato, e se possível até com um outro número, para evitar que os ladrões mandem mensagens aos contatos do aparelho. Também se recomenda apagar aplicativos bancários ou usar programas que coloquem uma senha para acessá-los.

Usar pochetes e afins, de preferência dentro da calça, também ajuda a evitar roubos —se der para amarrar uma cordinha ao zíper, melhor ainda.

Se o celular for roubado, há como tentar localizá-lo ou limpar todas as informações remotamente. A opção está em android.com/find para aparelhos com sistema operacional Android e icloud.com/find para quem usa iPhone.

Quando o roubo for constatado, é possível bloquear o aparelho ligando para a operadora e informando o código IMEI, que consta na caixa do aparelho, na nota fiscal ou pode ser consultado e anotado antes do roubo, discando *#06# no celular.

Registrar boletim de ocorrência também é importante para municiar a polícia de informações e padrões desses crimes. Os registros podem ser feitos pela internet, no site delegaciaeletronica.policiacivil.sp.gov.br.

O levantamento feito pela Folha considerou boletins de ocorrência de furto e roubo de celular disponíveis no site da Secretaria da Segurança Pública de crimes que ocorreram na capital. Registros com mesmo número, ano e delegacia foram desconsiderados.

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