Descrição de chapéu Obituário João Lopes (1950 - 2020)

Mortes: Músico, compôs o hino não oficial do Paraná

Típico representante do rock rural, João Lopes personificou o típico 'bicho do Paraná'

Curitiba

Os cabelos ondulados que sobravam nos ombros já há tempos faltavam no topo da cabeça. O bigode avantajado servia de continuação à gaita. Combinava com o cavanhaque comprido que se ajeitava sob o violão nas pausas dos shows.

A semelhança nos fios brancos levou o amigo e também compositor João Gilberto Tatára a brincar que, se a música por fim não desse certo, o caminho de ambos seria o de papais noéis.

A aparência de João Lopes combinada com seu traje country bem alinhado lembrava em muito os precursores do folk rock dos Estados Unidos. Mas, a propriedade em manter ouvidos atentos a uma longa história, com várias puxadas no ‘r’ nas palavras, a marca esbranquiçada debaixo da manga curta denunciando as horas no sol, e as citações às sapecadas de pinhão com chimarrão entregavam: ele era mesmo "bicho do Paraná".

João Lopes (1950-2020)
João Lopes (1950-2020) - Arquivo pessoal

Saído da pequena Califórnia, no norte paranaense, cujo nome vem do clima e aspectos naturais semelhantes ao do estado norte-americano, Lopes sentiu que a vida na cidade grande não era fácil, mas sim “difícil pra danar”.

De uma viagem ao Rio de Janeiro nos anos 1980, buscando a carreira musical, nasceram os versos que se tornaram seu maior sucesso.

Orientado a abandonar os adorados fios para se ajustar ao mercado fonográfico, João entendeu ali que não tinha jeito, queria mesmo era voltar para sua terra, onde “tudo que planta dá”. Emendou num “eu não sou gato de Ipanema, sou bicho do Paraná”.

Na melodia, misturou o rock urbano da estrada com o caipira da infância na roça: estava pronto o típico rock rural.

“Ele não queria se mudar do Paraná, queria mudar o Paraná, colocando o estado no mapa da música”, resume Fabio Elias, vocalista da Relespública, banda que, ao lado de Blindagem (para ficar nas mais conhecidas), somou ao ídolo na busca pela identidade do estado.

O uso da música em propagandas de TV alçou Bicho do Paraná ao hino informal do estado. No orgulho da população, ficou lado a lado com a composição dos anos 1950 de Nhô Belarmino e Nhá Gabriela, Mocinhas da Cidade.

Personificação do apelido, o músico não só o adotou, como deu nome ao estilo de vida do paranaense tradicional. Apesar de não ter voltado para o norte, há 30 anos ele reencontrou o mato em uma chácara na região metropolitana de Curitiba. Acordava cedo, cuidava dos seus faisões e carneiros.

O campo e a natureza, que para Lopes tinha valor espiritual para além de religiões, inspiraram suas canções. “Cada frutinha, cada flor que nascia ele dizia que era algo de Deus”, conta a filha, Julia.

À sombra das pitangueiras, tentava se recuperar de um transplante de fígado e rim há cerca de um ano, mas o câncer invadiu outros órgãos.

Morreu no dia 18 de maio, prestes a completar 70 anos, quase um mês após a ida do amigo, Tatára. Poucos dias antes, se despediu dos fãs com uma live. Deixou esposa, três filhos, três netos e mais um que está a caminho.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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