Descrição de chapéu Obituário Antonio Gomes de Oliveira (1941 - 2020)

Mortes: Tonhão, o jardineiro que deu vida à Vila Madalena

Antonio Gomes de Oliveira, o Tonhão, chegou ao bairro em 1960 e conquistou os moradores

São Paulo
Ele estava lá muitos anos antes do Beco do Batman, da novela da TV Globo, dos bloquinhos de carnaval. Antes mesmo da Mercearia São Pedro se transformar no bar preferido dos escritores de São Paulo.

“Quando Tonhão desembarcou na Vila Madalena [zona oeste da capital paulista], no inverno de 1960, vindo direto de Ipirá, no sertão da Bahia, ninguém diria que o bairro um dia se transformaria em morada para estudantes da USP, depois artistas, então boêmios, e, por fim, que as casinhas dariam lugar a prédios de luxo e lojas”, conta o amigo, o jornalista Rodrigo Simon.

Como muitos nordestinos naquela época, chegou de pau de arara. “Ah, foram mais de vinte dias sacolejando na caçamba”, contava Tonhão.
Ele gostava mesmo era de falar sobre os 60 anos vividos no bairro que conhecia mais que ninguém e que, como jardineiro, ajudou a transformar.
Antonio Gomes de Oliveira (1941-2020)
Antonio Gomes de Oliveira (1941-2020) - Reprodução/Facebook/Sociedade Amigos da Vila Madalena
Tonhão foi testemunha do crescimento do bairro enquanto cuidava de árvores, plantas e flores.
Aprendeu o ofício na fazenda do pai na Bahia, a Zabelê, e o aperfeiçoou assim que chegou a São Paulo, no Clube dos Ingleses, na Consolação. Depois disso, a Vila Madalena foi, por mais de meio século, seu jardim.
“Para quem o via pela primeira vez, parecia um enorme pirata. Mas a longa barba branca, o olho de vidro e os mais de 100 kg distribuídos em 1,90 metro de altura, ao mesmo tempo que revelavam uma força descomunal, escondiam uma enorme doçura”, diz Rodrigo.
No livro “Vila Madalena e Suas Figuras Notáveis”, Ivo Pezzoti lembra do diálogo que um dia ouviu entre o jardineiro e uma roseira: “Vim aqui para dar um jeito no seu reino, que está uma bagunça”, dizia Tonhão.

A mistura de força e delicadeza foram registradas também pelo artista plástico Rubens Matuck. No livro “A Praça”, as aquarelas registram o plantio de mais de mil árvores na praça Rafael Sapienza ao longo de 30 anos. Lá estão Tonhão e suas “mãos de onça”.

“A freguesia conquistada ao longo dos anos poderia ter garantido a Tonhão um bom conforto, mas ele nunca abriu mão do seu estilo de vida. Costumava passar o dia todo em jejum para, no começo da noite, fazer uma bela refeição. Não gostava de cama ou televisão. Faria 79 anos no dia 13 de junho”, afirma Rodrigo.

No dia 27 de abril, Antonio Gomes de Oliveira, nome que só os amigos conheciam, ganhou uma pequena quantia na loteria. Morreu na manhã seguinte, no quartinho onde vivia, no quintal de um ferro velho, na rua Agissê, em sua Vila Madalena.

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