Futuro do ensino em universidade deve ser híbrido e interdisciplinar

Especialistas discutem entraves à tecnologia, a urgência de flexibilizar currículos e de ser mais diverso

São Paulo

Se quiser continuar relevante, a universidade do futuro terá que adotar uma mescla de ensino presencial e remoto, seguir um currículo interdisciplinar e fomentar a diversidade tanto no corpo discente como docente.

Esse é o diagnóstico traçado por 12 especialistas que debateram o futuro do ensino superior em três mesas organizadas pela Folha, com o patrocínio da PUC-SP, nos dias 8, 9 e 10 de junho.

Fabio Takahashi, editor do DeltaFolha, na mediação do debate online sobre impacto da tecnologia 
na educação, durante o seminário Universidade do Futuro, transmitido ao vivo 
Fabio Takahashi, editor do DeltaFolha, na mediação do debate online sobre impacto da tecnologia na educação, durante o seminário Universidade do Futuro, transmitido ao vivo  - Keiny Andrade/Folhapress

O isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus trouxe para o setor enormes dificuldades, mas também a chance de repensar formas de transmitir conhecimento, de ajudar a sociedade em momentos de emergência e de se tornar mais aberto.

A impossibilidade de manter as salas de aula cheias obrigou milhares de professores a recorrerem à tecnologia para continuarem lecionando. O que se tem visto é mais improviso do que técnicas de EAD (educação a distância), mas a discussão sobre o uso de tecnologia na educação parece ter vindo para ficar.

“Antes de falar em futuro, precisamos chamar a universidade para o presente, porque ela nem chegou ao século 21”, provocou Maria Alice Carraturi, pesquisadora de novas tecnologias para educação. Alexandra Geraldini, pró-reitora de graduação da PUC-SP, concorda que é preciso avançar, mas chama a atenção de que não adianta buscar a mudança por modismo.

Uma dificuldade das instituições é que parte do corpo docente não domina a tecnologia e, às vezes, os alunos não têm autonomia necessária ou tempo para se dedicar às metodologias ativas de ensinos.

“Temos que usar esse momento de pandemia para virar a chave efetivamente”, afirmou José Motta, mestre em tecnologias da educação. Em vez de reproduzir a aula presencial no online, disse ele, é preciso trazer os alunos para a construção do conhecimento.

Para os debatedores, o ensino do futuro não será totalmente online. “Precisamos construir um caminho que traga o digital e o presencial, e avance num uso mais qualificado de recursos tecnológicos”, diz Geraldini.

Frederic Litto, presidente da Associação Brasileira de Educação a Distância, enxerga que “os alunos do futuro” terão cada vez mais liberdade na escolha do que vão estudar. A interdisciplinaridade, para os debatedores, é uma ferramenta para a formação crítica.

“É uma necessidade, sobretudo em nossa época marcada pela complexidade”, disse Márcio Alves da Fonseca, pró-reitor de pós-graduação da PUC-SP. A PUC criou, no ano passado, a Faculdade de Estudos Interdisciplinares, que cruza diferentes áreas de conhecimentos em cursos como o de ciências de dados, inteligência artificial, políticas públicas e gestão de práticas inclusivas.

Outro modelo de interdisciplinaridade é oferecido em universidades nas quais o aluno faz um conjunto único de disciplinas (humanas ou exatas) e só depois opta por um bacharelado, mas cabe a ele montar a própria grade curricular. Em vez de departamentos, há centros multidisciplinares.

Em 2005, a Universidade Federal do ABC (UFABC) era a única com esse modelo, que já se espalhou por ao menos 20 federais. “A interdisciplinaridade exige um desenvolvimento do pensamento crítico e científico”, disse Dácio Matheus, reitor da UFABC.

“Precisamos formar especialistas em transdisciplinariedade o mais cedo possível. Ainda não fomos capazes de consolidar experiência letivas que fujam à ótica disciplinar”, afirmou Luís Alcoforado, professor da Universidade de Coimbra, em Portugal.

Para ele, terminar uma graduação não é mais colocar um fim na formação escolar, mas lançar a primeira pedra. “A universidade é apenas uma etapa de um caminho que temos de levar ao longo da vida.”

Naomar Monteiro de Almeida Filho, do Instituto de Estudos Avançados da USP, cita a pandemia como exemplo de tema que mistura áreas.

Em suas gestões como reitor de duas universidades (as federais da Bahia e do Sul da Bahia), Naomar implementou bacharelados interdisciplinares. Na UFBA, cinco mil alunos estudam nesse modelo de formação dividido em quatro áreas: artes, ciência e tecnologia, humanidades e saúde.

Além de romper com o conhecimento compartimentalizado, é imprescindível que a diversidade seja constituinte das universidades, apontam os especialistas. “Enquanto não tivermos na universidade uma proporção de alunos que seja equivalente à presença de cada grupo na população brasileira, as cotas precisam continuar”, defendeu Maria Amalia Andery, reitora da PUC-SP.

Como apontou Luma Nogueira de Andrade, primeira travesti docente universitária do país e professora na Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira), embora a cota seja um avanço, não basta por si só. “Precisamos dar incentivos como bolsas para que as pessoas tenham condições de se manter”, defende.

Gersem José dos Santos Luciano, índio Baniwa e professor da Universidade Federal do Amazonas, afirmou que a dificuldade da universidade é dar espaço a “epistemologias que não são as eurocêntricas”. “É preciso reconhecer outros povos, outros saberes.”

Dirigente da Universidade Federal do Sul da Bahia e primeira mulher negra eleita reitora no país, Joana Guimarães, ressalta a importância de se pesquisar a transformação ocorrida na universidade desde que os cotistas chegaram. “Nós falamos sempre de como a universidade transforma o aluno cotista, mas pouco de como esse estudante, que era excluído, pode mudar a universidade.”

Sob governo Bolsonaro, o professor indígena acredita que talvez seja mais difícil renovar a lei de cotas, em 2022. A reitora da PUC é mais otimista: “A experiência é positiva de todos os pontos de vista.”

“A universidade é um espaço plural, é onde está a riqueza de conviver com pessoas e saberes diferentes para superar preconceitos”, diz Luma Andrade.

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